Se Deus é a própria simplicidade, como já vimos na questão 3, e se nele todas as perfeições são iguais à sua essência, como vimos na questão 4, como pode ser que as nossas palavras sobre Deus se multipliquem? Se elas se multiplicam para dizer algo sobre aquele que em si mesmo é simplicidade absoluta, então será que tudo o que dizemos sobre Deus não representa, no fundo, um caso de sinonímia? Será que todas as nossas muitas palavras sobre Deus não dizem simplesmente a mesma coisa sobre ele, e podem ser consideradas todas como meros sinônimos? Se for assim, no fundo deveria haver uma única coisa a falar sobre Deus, e todo resto seria mera repetição, que não acrescentaria informações. Esta é a importância deste artigo: qual o valor da multiplicidade de palavras que usamos para falar de Deus?

Esta é a hipótese de São Tomás para iniciar o debate neste artigo. Parece que todas as palavras que atribuímos a Deus são, no fundo, sinônimas entre si. E ele trará três argumentos para apoiar esta hipótese polêmica inicial.

O primeiro argumento parte da simplicidade absoluta de Deus: se a bondade de Deus é a sua essência, se a sabedoria de Deus é a sua essência, então todos as palavras que atribuímos a Deus no fundo significam totalmente a mesma coisa. Ora, o argumento prossegue, as palavras que significam a mesma coisa são chamadas de sinônimas. Portanto, todas as palavras que atribuímos a Deus são simplesmente sinônimas entre si.

O segundo argumento antecipa uma possível resposta ao primeiro, e tenta desconstruí-la de antemão. De fato, sabemos que as palavras podem se referir a uma mesma coisa, mas sob razões diferentes, e neste caso não se constituem em sinônimas. Eu posso me referir ao meu irmão pelo nome dele, ou posso chamá-lo de “irmão”, ou posso simplesmente citá-lo como um “rapaz” ou um ser humano. Estarei me referindo sempre à mesma pessoa, sob razões diferentes, conforme esteja me referindo a ele sob a razão da sua individualidade, do seu parentesco para comigo, sob a razão da sua juventude ou da sua condição humana. Em todos os casos, a mesma coisa é significada pelas diversas palavras, mas sob razões diferentes. Mas este argumento dirá que este raciocínio não se aplica a Deus. Deus é a própria unidade, e portanto, segundo este argumento, não há como se referir a ele sob razões diversas. Se não há como se referir sob razões diversas àquilo que é uno por natureza, então as palavras que se multiplicam têm razões distintivas vazias, nulas, e portanto são simplesmente sinônimas. Este é um argumento lógico, quer dizer, ele nega a possibilidade de pensar em Deus, e se referir a ele, sob pontos de vistas realmente diferentes.

O terceiro argumento é similar, mas é mais ontológico, enquanto o anterior é mais lógico. O argumento diz assim: algo que é uno em si mesmo e uno segundo a razão é mais uno do que aquilo que uno em si mesmo e diverso quanto à razão. Ora, se Deus é é uno ao máximo, de modo pleno, então ele não pode ser uno em si mesmo e plúrimo segundo a razão. Assim, todas as palavras que usamos para falar de Deus necessariamente têm que ser sinônimas, para não ferir a unidade de Deus.

São Tomás traz agora um argumento contrário ao debate. O argumento sed contra é bíblico; ele parte de uma constatação linguística, a de que a junção de duas palavras absolutamente sinônimas gera uma expressão vazia, redundante, como quando se diz, por exemplo, “roupa vestimenta”, que é o exemplo que o próprio Tomás nos traz. Mas a Bíblia está cheia de exemplos de expressões dirigidas a Deus em que se multiplicam as palavras referidas a ele. Se fossem rigorosamente sinônimas, não haveria sentido sequer em referir-se a ele como “Deus bom”. E São Tomás traz uma citação (Jeremias, 32, 18) em que o profeta se refere a Deus como “fortíssimo e poderoso, cujo nome é Senhor dos Exércitos”. Portanto, deve haver algo mais que mera sinonímia entre as diversas palavras que usamos para nos referir a Deus.

E é exatamente assim que São Tomás inicia sua resposta. Afirmando cabalmente que as palavras que atribuímos a Deus não são sinônimas.

No caso da atribuição de palavras a Deus pela via da negação, é fácil perceber isto. Quando eu nego que Deus possa morrer, e chamo-o de imortal, estou expressando algo distinto de quando nego que Deus possa sofrer mudanças e chamo-o de imutável. No caso, as negações referem-se àquelas realidades que não estão nem podem estar em Deus, e, portanto, as palavras que se referem a elas claramente não são sinônimas.

No caso também da via da causalidade, trato das relações das coisas com Deus, e portanto uso palavras que se referem realmente a relações distintas entre si. Assim, quando chamo Deus de criador, como aquele que deu origem a todas as coisas a partir do nada, estou me referindo a uma realidade diversa daquela significada quando o chamo de providente, ou seja, quando atribuo a ele o governo de todas as coisas até o seu fim. Tampouco aqui há sinonímia entre as palavras, porque as relações a que elas se referem são realmente distintas.

O problema se apresenta no caso da via eminentiae (ou via da excelência, ou da perfeição), porque aí as diversas palavras referem-se propriamente, embora imperfeitamente, a aspectos que, em Deus, podem ser reduzidos à sua unidade absoluta. Mas Tomás vai nos lembrar que mesmo neste caso os nomes que atribuímos a Deus têm razões diversas. É que, para formar conhecimento sobre as perfeições de Deus, que são desproporcionadas ao nosso intelecto, nós partimos das perfeições das criaturas, que nos são proporcionadas. E nas criaturas as perfeições, que em Deus são unas em razão de sua simplicidade, apresentam-se múltiplas e variadas. Eis aqui o velho problema do uno e do múltiplo: a criação, em seus limites, precisa da pluralidade para representar, de modo limitado e variado, o que em Deus é uno. E é na multiplicidade das criaturas que nosso intelecto busca as noções que representarão, em nossa linguagem, a perfeição absoluta de Deus. Assim, por este limite, a nossa linguagem representa sob razões diversas aquilo que em Deus é essencialmente único. Mas, uma vez que as razões que nossa linguagem representa em suas palavras sobre a perfeição de Deus são várias, as palavras que usamos sobre ele não são sinônimas. Esta é a lição que São Tomás está nos ensinando o tempo inteiro: os limites da nossa linguagem existem, devem ser respeitados, não nos impedem de falar verdadeiramente sobre Deus, mas devem sempre ser objeto de atenção e cuidado, para que não confundamos aquilo que é próprio do nosso modo criatural de conhecer e falar com aquilo que é o absoluto de existir do próprio Deus.

São Tomás passa então a responder às objeções iniciais. A primeira objeção é aquela que lembra que, uma vez que as palavras utilizadas para Deus significam absolutamente a mesma coisa, Deus em seu ser simples e absoluto, então são todas absolutamente sinônimas. São Tomás responderá que todas estas palavras de fato exprimem uma única realidade, Deus, mas o fazem sob diferentes razões, como ele explicou na sua resposta sintetizadora. É por isto que não são sinônimas.

A segunda objeção diz que a diferença de razões, quando nos referimos a Deus, não refletem nenhuma realidade em Deus, e por isto é uma diferença vazia. São Tomás responde que esta diferença não é vazia, porque estas palavras expressam de modo múltiplo e imperfeito, proporcionado à inteligência criatural, aquilo que em si mesmo é uno e simples. Finalmente, a terceira objeção diz que a unidade absoluta de Deus exige que ele seja uno em si e uno também segundo a razão, e que portanto seria inadmissível que as palavras que o exprimem não fossem sinônimas. São Tomás nos lembra que faz parte da perfeita unidade de Deus que aquilo que nas criaturas existe em estado múltiplo esteja nele de modo uno, já que suas perfeições infinitas somente podem ser representadas por elas, por cada uma delas, de modo limitado e parcial. Daí que a nossa linguagem possa expressar as perfeições de Deus uno de modo múltiplo; essa multiplicidade se dá segundo a razão da nossa apreensão, e não segundo a unidade de Deus e si mesmo.

Não podemos, pois, nesta vida, expressar com uma única palavra aquilo que Deus é em si mesmo. Temos que expressar suas perfeições assim como nós as conhecemos, representadas pelo múltiplo da criação. Por isto, a riqueza da nossa linguagem sobre Deus jamais pode ser reduzida à sinonímia sem perder a possibilidade de expressar, ainda que muito limitadamente, esta riqueza.

Este artigo trata do caso em que aplicamos muitas palavras para tratar da mesma realidade – no caso, Deus. Mais adiante, nesta questão, veremos o caso em que a mesma palavra é usada para tratar de realidades diferentes, como a palavra “bondade” aplicada a Deus e às criaturas – e se neste caso a palavra está sendo usada de modo unívoco ou equívoco. veremos, então, que nem a univocidade da linguagem, nem a sua equivocidade, representam a forma mais adequada para falar de Deus. Precisamos, como São Tomás nos mostrará, da analogia, para ter alguma capacidade de expressar esta beleza indizível. Mas estamos nos adiantando: conversaremos mais sobre isto adiante.