No texto anterior, nós acompanhamos o debate proposto por São Tomás sobre a possibilidade de utilizar palavras para descrever positivamente a substância de Deus. E vimos que ele defende que a chamada “via da excelência “, ou via eminentiae, é capaz de descrever aspectos da substância de Deus, e é irredutível às outras duas vias. Vimos também que no caso da via da excelência, a rigor estamos descrevendo aspectos que são mais próprios de Deus do que das criaturas, cujo conhecimento nos vem, no entanto, em primeiro lugar, e cujas perfeições nos permitem falar de Deus. Dizendo isto mais tecnicamente: em matéria de perfeição, as criaturas são mais evidentes para nós, pela fraqueza do nosso intelecto, mas Deus é sempre o primeiro analogado.

Foi aqui que paramos; este é o paradoxo que a nossa linguagem pode gerar, quando aplicada a Deus. Nosso intelecto é adequado, proporcionado, a conhecer naturalmente as criaturas, e nossa linguagem segue a natureza do nosso intelecto. Assim, podemos gerar em nós mesmos a ilusão de que isto é um fato inerente às próprias coisas, e não um limite humano. Nossas palavras falam primeiro das perfeições das criaturas, porque as conhecemos diretamente; a partir deste conhecimento, somos chamados a descrever as perfeições de Deus, que conhecemos indireta e imperfeitamente, com o uso de uma linguagem formulada em outro contexto e para outros fins. Com isto, podemos ser tentados a imaginar que o fato de que a adequação entre a nossa linguagem e a perfeição das criaturas é total, enquanto a aplicação desta mesma linguagem às perfeições de Deus é difícil e inadequada, decorre de que as perfeições das criaturas são, em si mesmas, anteriores às perfeições de Deus. É contra esta tentação que São Tomás nos adverte agora.

As perfeições existem primeiro em Deus, que é, como já debatemos na questão 04, universal e absolutamente perfeito. As criaturas apresentam perfeições que não pertencem ao mesmo gênero ou à mesma espécie das perfeições de Deus. São apenas perfeições derivadas, participadas, expressões deficientes daquela perfeição transcendente e pura que as criou. Mas expressam, efetivamente, esta semelhança derivada, limitada e distante, embora verdadeira, da perfeição de Deus. São Tomás nos exemplifica com um paralelismo retirado da ciência do seu tempo: ele nos diz que as formas dos corpos inferiores participam de algum modo da energia do sol, e por isto, mesmo imperfeitamente, podem nos transmitir algum conhecimento sobre a natureza daquele astro. A física de hoje sabe que, de fato, as estrelas, como o Sol, foram e são responsáveis não somente pelo fornecimento da energia térmica e luminosa que mantém o universo em funcionamento, mas também pela síntese de muitos dos elementos químicos mais complexos que fazem parte de todas as outras coisas, especialmente dos seres vivos. Assim, conhecendo estes elementos, podemos saber alguma coisa do próprio sol, embora estas coisas não sejam da mesma espécie nem do mesmo gênero que o Sol e as outras estrelas. Esta é a analogia que São Tomás nos traz.

E ele conclui afirmando que de fato as palavras que exprimem aquilo que podemos conhecer de Deus por esta terceira, via, a via da excelência, da perfeição ou da eminência, exprimem de fato alguma coisa da substância divina; mas o fazem de modo imperfeito, já que é apenas de modo imperfeito que estas perfeições divinas estão representadas nas criaturas que geram em primeiro lugar a nossa linguagem. Esta imperfeição é um limite, mas não representa um obstáculo total: o pouco que podemos expressar da substância divina é, de qualquer maneira, verdadeiro na sua pobreza. Como diz de modo muito elegante o Catecismo da Igreja Católica, § 48, “Nós podemos realmente falar de Deus partindo das múltiplas perfeições das criaturas, semelhanças de Deus infinitamente perfeito, ainda que a nossa linguagem limitada não consiga esgotar o mistério.”

São Tomás nos apresenta o exemplo da “bondade”, que é uma perfeição absoluta em Deus. Quando dizemos que “Deus é bom”, não estamos dizendo apenas que nada do que é mau se encontra nele (via remotionis), ou que ele é a causa da bondade nas criaturas (via causalitatis). Assim, não seria adequado dizer que Deus é bom porque, partindo da bondade das coisas, atribuímos a Deus ser causa desta bondade. Neste caso, estaríamos colocando a bondade em primeiro lugar nas criaturas, e em Deus apenas de maneira imprópria, como aquele que gera a bondade das criaturas. Na verdade, no entanto, Deus é a própria bondade, e exatamente por ser bom no sentido próprio é que ele difunde a bondade nas coisas. E São Tomás cita Santo Agostinho: “porque Deus é bom, nós existimos”. Por esta via, vemos a bondade entendida na ordem certa, primeiro e propriamente em Deus, de maneira substancial, e nas criaturas, de maneira participada e limitada.

Após explicar tudo isto, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento, como nos lembramos, cita o [pseudo-] Dionísio para considerar que nossas palavras sobre Deus limitam-se a designar uma negação, uma relação ou uma operação sua. São Tomás explica-nos que o argumento não pode ser compreendido como se negasse completamente a possibilidade de que as palavras signifiquem a substância de Deus, mas apenas como esclarecendo que as palavras apenas o representam imperfeitamente, porque decorrem do conhecimento indireto que temos dele através das criaturas, que o representam também de modo imperfeito.

O segundo argumento objetor também cita o [pseudo-] Dionísio, em trecho em que ele afirma que todos os teólogos e Padres da Igreja, tanto no louvor quanto nas explicações teológicas, designam Deus apenas a partir dos seus modos de proceder, e não da sua substância. São Tomás responderá que o fato de que as palavras são tomadas de um determinado contexto, ou seja, aquilo que chamaríamos de etimologia não condiciona o próprio significado da palavra. Tomás concede que todas as palavras que usamos para falar de Deus têm sua etimologia nos modos de proceder divinos, ou seja, na operação de Deus ad extra, vale dizer, para fora, para nós. E exemplifica, no latim, com a palavra “lapis”, que em latim significa pedra. Ele diz que originalmente a palavra “lapis” vem de “laedens pedem”, ou seja, “aquilo que fere o pé”. Mas a palavra não designa, no uso corrente, uma coisa qualquer que fira o pé, mas um determinado corpo inanimado, uma pedra. Assim, do fato, por exemplo, de que de Deus procede toda vida, nós o chamamos de “vivente”, porque percebemos que a sua operação envolve viver. Mas não simplesmente como se dele procedesse a vida dos seres animados, mas porque nele a vida preexiste, e de um modo muito mais perfeito e eminente do que qualquer palavra nossa poderia designar.

A terceira objeção é aquela que diz que não podemos nomear nada quanto à substância de Deus, porque nada conhecemos de sua substância nesta vida. São Tomás simplesmente explica que não podemos mesmo conhecer a essência de Deus nesta vida, e portanto não conhecemos as suas perfeições assim com existem nele. Mas as conhecemos indiretamente, limitadamente, assim como se apresentam a nós nas perfeições manifestadas em suas criaturas. E É neste sentido que as nossas palavras podem designar verdadeiramente, mesmo de modo muito restrito e indireto, algo da própria substância de Deus.