Discutimos, nos textos anteriores, a hipótese objetora inicial, os argumentos que a suportavam, o argumento sed contra e a resposta sintetizadora de São Tomás.

São Tomás passará, agora, a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento é o que cita o [pseudo-] Dionísio e o Livro dos Provérbios para dizer que a essência de Deus está acima da possibilidade da linguagem humana. São Tomás admite, e nisto ele concorda tanto com as citações do argumento quanto com Wittgenstein. Mas, como vimos na resposta sintetizadora de São Tomás, conhecer o Senhor por um encontro pessoal com a sua essência é algo que não se dá durante esta vida, e portanto não é deste tipo de nomeação que Tomás está tratando. Ele trata aqui daquele conhecimento indireto, de que há um Deus, que é fonte da criação e fim de toda perfeição, que o ser humano pode atingir pela simples razão natural, e mesmo do conhecimento de Deus proporcionado pela revelação, que nos vem pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. São duas maneiras limitadas, indiretas, de conhecer a Deus, e das duas coisas – do conhecimento de que há um deus, a que todo ser humano pode chegar pelo reto uso de sua razão, quanto do conhecimento de que este Deus se revela em Jesus, se pode falar validamente com a linguagem humana, respeitados os limites que serão estabelecidos ao longo desta questão por São Tomás. “Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-lo na sua infinita simplicidade.” E a bela frase do Catecismo, § 43.

A segunda questão diz respeito ao fato de que a estrutura de Deus é muito diferente da estrutura das criaturas: não pode ser expresso por um termo concreto, porque é absoluto, simples e não individualizado; mas não pode ser expresso por um termo abstrato porque é um existente, quer dizer, é a própria existência. São Tomás responderá aqui que de fato a nossa linguagem é adequada, proporcionada, àquilo que é proporcionado à nossa inteligência. Somos criaturas, e criaturas materiais. Portanto, nossa inteligência é proporcionada para conhecer e falar de criaturas materiais. Deus não é criatura nem material, e por isto não é um objeto proporcionado à nossa linguagem. Nisto São Tomás concorda com a objeção. Mas podemos usar as palavras que normalmente nos servem para designar as criaturas, quando falamos de Deus, desde que observemos alguns princípios: 1. Os substantivos abstratos são usados na nossa linguagem humana para designar aquilo que é simples, mas que não é subsistente em si mesmo, ou seja, não é individualizado. Por exemplo, a “brancura” designa simplesmente a qualidade de ser branco, mas não é capaz de exprimir a efetiva existência de coisas brancas concretas.

Assim, quando atribuímos a Deus um nome abstrato, como a “bondade”, estamos nos referindo à sua simplicidade, mas não à sua subsistência. Isto por falha da nossa linguagem, porque em Deus não existe uma “bondade” que seja um acréscimo acidental à própria existência de Deus, como a “brancura” é um acréscimo acidental à existência, digamos, do meu carro – que sempre pode ser pintado de outra cor.

Quando usamos, porém, um substantivo concreto para Deus, como “Pai”, “Rochedo”, “Escudo”, exprimimos a subsistência e a perfeição de Deus, sempre nos lembrando de que nele a existência não é um limite, mas a própria essência. E que portanto nossos substantivos concretos, que sempre tendem à especificação, são profundamente limitados para exprimi-lo.

O terceiro argumento objetor é aquele que expõe a inadequação de todas as classes gramaticais (substantivos, verbos, adjetivos, pronomes) para exprimir Deus. São Tomás aproveita logo a resposta ao argumento anterior para explicar o uso dos substantivos para Deus. Tanto concretos quanto abstratos.

Os verbos e particípios, diz ele, também expressam, com categorias temporais, aquilo que em deus é eterno, e portanto desproporcional à nossa linguagem que não é calibrada para categorias fora do tempo. Mas, diz ele, usamos os termos temporais para falar da eternidade porque sabemos que, para falar de um modo muito simples, a eternidade inclui todos os tempos. E como não dispomos de uma linguagem para esta simultaneidade da eternidade, que conhecemos apenas de modo indireto através da sucessividade do tempo, usamos estas classes de palavras que pressupõem o tempo sempre cientes do limite do seu uso.

Por fim, os pronomes podem ser atribuídos a Deus para referir-se ao modo como usamos, para ele, os substantivos e os verbos. Os pronomes, portanto, exprimem, na nossa linguagem, aquilo que os substantivos e verbos podem expressar de Deus para nós – e guardam em si, é claro, os mesmos limites das outras categorias gramaticais às quais são relativos.

É possível, portanto, falar de Deus. Com todos estes cuidados, registre-se.