Defender a possibilidade de ter uma noção de que há algum fundamento absoluto para a realidade, a quem todos os povos, em todos os tempos, chamaram “Deus”, mesmo sem conhecê-lo adequadamente, é defender que há um assunto em comum que pode interessar a todos os seres humanos, e sobre o qual eles podem, desde que movidos por uma honesta abertura e paciência para o outro, conversar e conviver respeitosamente, é algo que a Igreja sempre defendeu, e que São Tomás estabelece muito bem em sólidos argumentos filosóficos. “Ao defender a capacidade da razão humana para conhecer Deus, a Igreja exprime a sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens. Esta convicção está na base do seu diálogo com as outras religiões, com a filosofia e as ciências, e também com os descrentes e os ateus.” (CIC § 39)

Não se deve confundir, aqui, esta notícia sobre Deus a que se pode chegar com a razão (que é simplesmente a possibilidade de perceber a natureza contingente da realidade, e a necessidade de admitir um fundamento para ela), a que a reta razão humana pode chegar, quando procede com honestidade, com o “conhecimento do Senhor” de que a Bíblia fala. Este último é revelado, e pressupõe a graça. Mas não é necessário negar o primeiro para admitir o segundo – são coisas diferentes. Neste assunto, equivocam-se tanto os liberais racionalistas (que não admitem nenhum conhecimento de Deus pela graça da revelação, defendendo que a religião deve manter-se nos limites da razão, como diz a obra homônima de Kant) quanto os fideístas, que negam qualquer possibilidade de que um ser humano tenha uma noção, mesmo vaga, de que a realidade tem um fundamento transcendente, perfeito e causal, pela simples contemplação da natureza. Equivocam-se, portanto, tanto racionalistas quanto fideístas: a fé e a razão não se excluem no particular, ao contrário, pressupõem-se reciprocamente. E devem dialogar. São Tomás se estenderá neste artigo exatamente para nos convencer que este diálogo é possível, e quais são os limites em que ele é válido. Eis uma valiosa contribuição para a paz entre as pessoas, para além de culturas, religiões e nações, em nosso tempo.

Na primeira parte do texto, nós acompanhamos o debate proposto por São Tomás a partir da hipótese adversa de que nenhuma palavra humana poderia ser validamente atribuída a Deus. E vimos como ele colecionou três argumentos em favor desta hipótese inicial. O primeiro era um argumento místico, de fundo bíblico: Deus está acima da capacidade da linguagem humana (Pr 30, 4).

O segundo argumento é ontológico: Deus não pode ser concebido como abstrato, porque é plenamente existente em si mesmo, enquanto os conceitos abstratos referem-se àquilo que a rigor não tem existência fora do plano da razão – não existe a brancura, abstratamente, mas apenas coisas brancas. E não pode ser concebido como concreto porque tudo o que é concreto é particularizado, e Deus, sendo simples, existe sem qualquer particularização: não existe este Deus, mas simplesmente Deus. Assim, nossa inteligência jamais poderia nomear um ser ao mesmo tempo radicalmente simples e ao mesmo tempo incondicionalmente existente. Como conceber, por exemplo, uma “humanidade existente”, sem conceber um indivíduo humano particularizado pela matéria?

O terceiro argumento é linguístico: mostra que, a rigor, nenhuma categoria de palavras humanas é adequada a Deus.

No argumento sed contra, São Tomás trará mais uma citação bíblica, (Ex 15, 3) na qual Deus é nomeado, no cântico após a passagem do Mar Vermelho, como um guerreiro, cujo nome é “onipotente”.

São Tomás passará agora a responder, dando uma aula de filosofia do conhecimento humano. As palavras que nós usamos expressam os conceitos que formamos no intelecto a partir das coisas que conhecemos. Há, pois, três níveis no conhecimento humano: a própria coisa que conhecemos, e que cai sobre os nossos sentidos; o conceito que dela formamos em nosso intelecto e as palavras que usamos para designar estes conceitos.

É claro que hoje em dia estamos bastante envolvidos pela teoria nominalista do conhecimento, e para nós é difícil imaginar que o conceito seja, de certa maneira (intencional) a própria coisa conhecida, existindo em nosso intelecto. Pensamos sempre nos conceitos mentais como ideias sobre coisas, e não como uma forma especial de existência da própria essência da coisa conhecida em nós. E as palavras, como as concebemos hoje, são meros sinais arbitrários das nossas ideias sobre as coisas. Para São Tomás não era assim.

Seria inconcebível para São Tomás que alguém defendesse que tudo o que conhecemos são ideias sobre as coisas, como defende, por exemplo, o filósofo inglês Locke. Tomás sempre defendeu que nós conhecemos as próprias coisas, e não meras ideias sobre elas. Assim, na teoria tomista, as palavras exprimem os nossos conceitos, e nossos conceitos exprimem as próprias coisas das quais eles se originaram.

Por isto, para São Tomás, para que possamos atribuir palavras às coisas, é preciso que tenhamos delas algum conceito, que será expresso pela respectiva palavra. Assim, só podemos atribuir palavras àquilo do qual podemos formar algum tipo de conceito. Ora, de tudo quanto foi discutido nos debates anteriores, em especial nos artigos da questão 12, é impossível para o ser humano ver Deus em essência nesta vida. Mas, como debatemos também nesta questão 12, há algum conhecimento sobre Deus a que podemos chegar apenas pelo uso da razão humana. Para exemplificar: se eu olho para qualquer ser humano da terra, posso razoavelmente saber que ele teve mãe, embora eu nunca tenha encontrado de fato com a mãe dele. Assim, saber que há Deus é possível para a inteligência humana, naturalmente. Mas conhecer Deus mesmo, em sua essência, isto só para os bem-aventurados, e na glória da eternidade.

Portanto, São Tomás afirma que podemos nomear Deus a partir do pouco que podemos saber dele pela contemplação da criação; e há, segundo São Tomás (que herda, neste ponto, uma tradição antiga) três caminhos para saber alguma coisa de Deus a partir da contemplação das criaturas: a via da remoção, a via da causalidade e a via da excelência. Estas vias serão retomadas na questão 84, art. 7, desta Primeira Parte da Suma, quando São Tomás estiver tratando da forma humana de conhecer. Por ora, basta saber o seguinte: a partir do conhecimento das criaturas, podemos saber alguma coisa sobre Deus por três caminhos: pelo caminho da remoção, isto é, imaginando a criatura e removendo da sua imagem tudo aquilo que é contingente, imperfeito, potencial ou acidental, de modo a conceber, de modo negativo, algo sobre este ser que não tem contingências, imperfeições, potencialidades ou acidentes. A via da excelência, por outro lado, consiste em contemplar a perfeição das criaturas e atribuí-las a Deus de um modo absoluto, perfeito, como origem que é das perfeições criaturais, que são derivadas e relativas. Assim, da contemplação de um ser vivo atribuo a Deus a vida absoluta; da contemplação de um rochedo sólido atribuo a Deus a estabilidade e a eternidade, e assim por diante. E a terceira é a via da causalidade, que corresponde, basicamente, à primeira via de São Tomás: a partir da contemplação daquilo que é derivado, contingente e causado, eu posso atribuir a Deus a causalidade suprema.

Assim, podemos falar sobre Deus, mas sempre de um modo indireto, impreciso, com todos os limites de palavras que jamais expressarão o que ele é, porque são insuficientes para isto, e de inteligências que jamais o conhecerão em si mesmo, porque são naturalmente inadequadas para isto. Mas o pouco que dele podemos conhecer, desta maneira indireta e derivada, é conhecimento válido, embora limitadíssimo, e pode ser validamente comunicado, também dessa maneira limitadíssima. E São Tomás nos dá um exemplo: quando falamos a palavra “homem”, estamos nomeando um conceito que exprime a própria essência humana: um animal racional. Mas quando falamos de Deus, não estamos a nomear, de modo algum, a sua essência, senão o paupérrimo conhecimento indireto e fracionário que temos dele, verdadeiro, é certo, mas limitadíssimo.

Mal comparando, seria como alguém que tentasse descrever a mãe de um estranho sem jamais tê-la visto, apenas por aquilo que pode saber dela por meio da contemplação da pessoa do filho. Mas as poucas afirmações que poderia fazer dela (de que se trata de uma mulher, de que estava na idade fértil quando o concebeu, de que o fez através do contato íntimo com algum gameta masculino, etc), são informações verdadeiras sobre ela, embora limitadíssimas. Mas não por serem limitadíssimas são desprezíveis, ou irracionais.