“Aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. É assim que termina o famoso “Tractatus Logico-Philosophicus” de Wittgenstein; é um veto à linguagem religiosa, ou mais especificamente, a qualquer pretensão científica de discursos teológicos. E um veto forte: segundo ele, não há linguagem possível para falar sobre Deus. Toda fala sobre Deus, para as correntes linguísticas e filosóficas, em especial aquelas ligadas à filosofia analítica no século XX, é uma fala vazia, sem sentido, sem significado. Não é possível haver nenhum conhecimento válido sobre Deus, segundo eles defendem. Logo, não pode haver nenhuma fala significativa sobre Deus, e portanto toda palavra que se refere a Deus deve ser simplesmente evitada.
Este é o veto, portanto. Nenhuma palavra humana é adequada para referir-se a Deus, porque nenhum discurso sobre Deus pode jamais ser significativo, uma vez que nenhum conhecimento sobre Deus é válido. É neste ponto que parecemos estar, na nossa contemporaneidade. A fé é apenas emoção incomunicável – embora induzível. A religião seria, assim, uma espécie qualquer de hipnose, um jogo de provocar sentimentos e emoções; estas emoções representam tudo o que podemos admitir, hoje em dia, sob o nome de “misticismo”; tudo isto encontra-se, portanto, completamente fora do campo da razão. Falar de Deus, neste contexto, é, alternativamente, 1) mistificar, no pior sentido da palavra, ou 2) emocionar, despertar emoções alcançando o outro além do controle racional dos envolvidos: uma hipnose. Todo discurso sobre assuntos divinos seria, portanto, ou uma enganação dominadora, ou pura poesia.
Na questão 12, São Tomás passou longos artigos tratando do que podemos conhecer validamente sobre Deus nesta vida. Na questão 01, que examinamos já há algum tempo, ele discute exatamente sobre o valor do discurso teológico, e estabelece a abertura para o desejo salvífico do ser humano. A Revelação, como debatemos ali, é a abertura do ser humano ao chamado salvífico de Deus, e envolve o ser humano inteiro, suas emoções, sensações, seu querer e sua razão.
O debate, aqui, é portanto importantíssimo. E com sua coragem indômita, São Tomás propõe logo iniciá-lo admitindo logo a hipótese de Wittgenstein – que, obviamente, São Tomás não conheceu, tendo vivido mais de seiscentos anos antes dele. O fato de que a discussão seja feita na Suma parece nos indiciar que, ou a) São Tomás era um grande profeta, ou b) esta discussão não é algo que surgiu no século XX. Eu marcaria a letra b, ressaltando que depois do Renascimento, da Reforma e do Iluminismo, os mesmos temas que tinham sido debatidos na era clássica e na chamada idade média foram repropostos, mas qualquer possibilidade de dar uma resposta adequada – a resposta que pressupõe Deus no seu lugar próprio – tinha sido afastada. Então eu poderia afirmar que a discussão proposta por Wittgenstein não era exatamente nova, mas o quadro em que ele a repropõe era; já não havia, no século XX, todo o contexto cultural que permitiu a São Tomás chegar às soluções que ele chegou no século XIII. E não digo isto como uma lamúria, mas para registrar uma necessidade – a de repropor que talvez as respostas do século XIII nos tirem dos atoleiros em que caímos devido à falta de respostas no século XX. esta é, por exemplo, a proposta de Elisabeth Anscombe e de Alasdair Macintyre no campo da ética: para voltar a tornar a ética inteligível, precisamos construir um contexto cultural em que ela volte a fazer sentido! O mesmo se poderia dizer da razoabilidade da fé.
Eu queria traduzir a hipótese que São Tomás propõe agora com termos mais adequados para hoje. O que está sendo proposto por São Tomás, como hipótese adversa, é a total inadequação da linguagem humana para falar sobre Deus. A hipótese ficaria assim: parece que toda a linguagem humana é inadequada para falar sobre Deus. É isto eu entendo do que São Tomás nos diz aqui. E ele oferecerá três argumentos objetores em defesa desta hipótese adversa inicial, que soa tão contemporânea para nós.
O primeiro argumento cita o [pseudo-]Dionísio, que é, para os contemporâneos de São Tomás, um grande mestre da mística, com sua teologia apofática. Ele aponta sempre a chamada “via negationis” para chegar a Deus, algo que soa também para nós, hoje em dia, muito atraente. A citação diz o seguinte: Não se pode dar a Deus nenhum nome, nem formar qualquer opinião a seu respeito”. “Dar um nome”, aí, significa, para este argumento, usar qualquer palavra humana para referir-se validamente a Deus. E o argumento prossegue, citando uma passagem bíblica que parece ir no mesmo sentido; trata-se do Livro dos Provérbios (30, 4c): “Qual o seu nome, e o nome do seu filho, se é que sabes?”
Esta citação, se me permitem uma digressão, é impressionante, em dois sentidos. Um, porque é uma profecia extraordinária sobre jesus num tempo em que falar de “Filho de Deus” era só uma maneira de bajular reis e imperadores. Dois, porque revela uma concepção de mundo em que “nomear” alguma coisa não era simplesmente impor um rótulo arbitrário em razão do poder do nomeante de controlar as dimensões da comunicação, como acreditamos hoje, mas envolvia, de fato, expressar com verdade algum aspecto do que estava sendo nomeado. Uma realidade em que o nosso “nominalismo”, que hoje é posição padrão da mentalidade prevalecente, seria recebido como aquilo que realmente é, uma loucura ou um desejo de domínio.
Voltando para o argumento, ele conclui que há fundamentos, tanto na Tradição quanto nas escrituras, para afirmar que não há linguagem humana válida sobre Deus: Deus não pode ser nomeado.
O segundo argumento é gramatical. Ele parte da classe gramatical dos nomes, que são os substantivos, para estabelecer que há duas espécies de substantivos, ou seja, de nomes, na linguagem humana: os concretos e os abstratos. E prossegue: substantivos concretos são inaplicáveis a Deus, porque pressupõem uma individualização incompatível com a simplicidade da natureza divina. Como um ser que se apresenta como simples poderia, ao mesmo tempo ser designado por um termo concreto, que pressupõe um critério qualquer de individualização externo à sua própria essência? Por outro lado, o argumento prossegue, tampouco os substantivos abstratos seriam adequados a Deus, porque tais substantivos não podem designar algo que é perfeito e subsistente. Vamos pensar num exemplo concreto para entender o que o argumento está tentando dizer; cavalo é um substantivo concreto, mas animalidade é um substantivo abstrato. Um cavalo pode ser chamado de cavalo porque a sua “cavalidade” está individualizada numa porção de matéria que constitui seu corpo; mas Deus não tem corpo, e a rigor não pode ser classificado como “um indivíduo”, e por isto quando eu uso o substantivo “Deus” como um substantivo concreto, eu estaria, segundo o argumento, fazendo um uso inadequado, abusivo, da linguagem. Eu colocaria Deus como “mais uma coisa no meio das coisas”, como denunciava Heidegger, reduzindo aquele que é o próprio “ser” à mera condição de mais um “ente”. Mas se eu falo de Deus usando o termo “divindade”, que é abstrato, tampouco faria justiça à determinação de Deus, comunicando-o como algo difuso, impessoal, indeterminado, do mesmo modo que eu não estaria, digamos, falando de Aristóteles se me referisse a ele como “humanidade”. E o argumento conclui que, se não podemos usar nenhum substantivo concreto para Deus, e tampouco podemos usar os substantivos abstratos, não há palavras humanas adequadas para mencioná-lo, e logo não se pode falar sobre ele validamente.
O terceiro argumento é ainda gramatical. Será que, excluídos os substantivos, ainda nos restaria alguma outra classe gramatical adequada para falar sobre Deus? O argumento considera três classes: os “nomes”, ou substantivos, cuja inadequação o argumento já considera provada pelo argumento anterior, os verbos e seus relacionados, que significam basicamente alguma atividade que se protrai no tempo, e os pronomes, que significam demonstrativamente ou relativamente. Mas nada que se refira a Deus envolve qualidades ou acidentes, nem se alonga no tempo, nem pode ser objeto dos nossos sentidos, para ser designado por um verbo, ou mesmo por um adjetivo ou advérbio, digamos. Tampouco os pronomes poderiam ser usados para Deus, porque referem-se sempre a algo que já foi referido antes por um substantivo, por um verbo ou por uma palavra de outra classe gramatical qualquer. Então, conclui o argumento, não há nenhum tipo de palavra que possa ser utilizada para se referir a Deus.
Depois de trazer estes argumentos adversos tão fortes, São Tomás nos brinda com um argumento sed contra, de natureza bíblica: Êxodo 15, 3, em que o Povo de Deus, salvo miraculosamente na travessia do Mar Vermelho, canta feliz, segundo a tradução da Vulgata: “o Senhor é como um guerreiro, o Seu nome é onipotente”. A tradução de Jerusalém redobra, neste ponto, a menção ao nome de Deus revelado a Moisés na sarça ardente. Em todo caso, a Revelação claramente se refere a Deus nomeando-o humanamente, de um modo que ele próprio determinou em Ex. 3, 14.
Veremos a resposta sintetizadora e maravilhosa de São Tomás no próximo texto, em que ele nos ensinará quais são as três maneiras, ou três vias, pelas quais os seres humanos podem obter conhecimentos válidos, racionais, de Deus: a via da causalidade, a via da remoção e a via da excelência. Estas três vias parecem fechadas pelas filosofias pós-renascentistas, iluministas e pós-modernas em geral, que puseram em questão exatamente as noções de causalidade, de perfeição e de fim; vale dizer, a filosofia que se desenvolveu após o tomismo parece ter se esmerado em destruir exatamente as vias que nos permitiriam falar de Deus com razoabilidade. Para fazer isto, no entanto, destruíram as três categorias mais fundamentais da própria razão humana, que são a causalidade, a perfeição e o fim. E entre resgatar estas categorias e ter que admitir a razoabilidade da fé, por um lado, ou recusar consistência à própria razão humana para negar razoabilidade à fé, por outro, nós, hoje em dia, preferimos esta segunda hipótese. Viramos niilistas para não corrermos o risco de admitir qualquer fresta para Deus na inteligência humana. Mais sobre isto no nosso próximo texto.
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