Depois de discutir, numa longa questão com 13 artigos, o problema do conhecimento de Deus, São Tomás nos introduz agora num problema linguístico: como podemos falar das coisas que conhecemos sobre Deus?
Esta relação entre o que falamos e o que conhecemos, para São Tomás, não podia ser acidental. No início desta questão, ele nos explica porque tratará agora do que ele chama de “os nomes divinos”: é lógico que discutamos agora a linguagem que podemos usar para falar sobre Deus, porque usamos a linguagem, segundo ele, em conformidade com o que conhecemos das coisas que nomeamos.
A posição de São Tomás é, portanto, uma posição completamente anti-nominalista. De fato, nós hoje em dia somos tão profundamente nominalistas que nem nos damos conta de que é possível não sê-lo. Como encaramos qualquer linguagem? Uma vez que não acreditamos mais no conhecimento no sentido que São Tomás dá à palavra (quer dizer, na assimilação, por nosso intelecto, daquilo que a coisa é) porque já não cremos que as coisas tenham uma inteligibilidade em si mesmas, não nos preocupa mais a relação entre a nossa linguagem e o conhecimento que temos das coisas.
Como São Tomás pensava? Fazendo um resumo com uma simplificação brutal, diríamos que São Tomás imaginava que Deus criou todas as coisas com uma inteligibilidade interna. Esta inteligibilidade está em Deus antes que nas coisas: ela é exatamente aquilo que São João chama de logos. O logos de todas as coisas estava em Deus, e era Deus, e se encarnou, morreu e ressuscitou por nós. Conhecer, portanto, era, para ele, descobrir o logos da coisa, que, antes mesmo de estar na coisa, estava em Deus. E, pelo processo de conhecimento, passava a residir em nosso intelecto, na forma de conceitos. Todo conhecimento, portanto, era, para ele, uma participação no próprio logos de Deus. E se expressava nas palavras que atribuímos aos conceitos, que por seu turno são similitudes das próprias coisas.
Ou seja, a coisa está em Deus, está em si mesma e está no nosso intelecto; está em Deus como logos, está na própria coisa como existente e está em nós intencionalmente, como coisa conhecida; como conceito. E sobre este conceito formamos palavras.
A questão é que as nossas palavras exprimem conceitos próprios daquilo que é objeto proporcionado ao nosso conhecimento: as coisas materiais que caem sob nossos sentidos. Como poderíamos utilizar estas mesmas palavras – que são as únicas que temos – para exprimir conceitos relacionados com Deus? E em que medida os conceitos significados por estas palavras – que também são os únicos conceitos proporcionados ao nosso intelecto – podem relacionar-se com Deus em nosso conhecimento? São perguntas dificílimas, que São Tomás tentará responder aqui.
Como eu já disse antes, nossa concepção de mundo, hoje, é completamente nominalista. Não há nenhuma inteligibilidade intrínseca nas próprias coisas, que reflita a inteligibilidade delas em Deus. Na verdade, todo conhecimento humano passa a ser uma doação de sentido, em que a inteligência humana faz com que as coisas, vazias de inteligibilidade em si mesmas, passem a significar algo exatamente por serem conhecidas, isto é, dominadas. Como se o logos divino fosse a inteligência pessoal de cada um de nós. A nossa mente passa a ocupar, na teoria do conhecimento de hoje, o lugar que cabia à mente de deus na teoria de Tomás. Não há, portanto, nesta teoria do conhecimento que cultivamos hoje, um conceito que seja compartilhado, a partir da mente de Deus, com as próprias coisas e com a nossa inteligência, mas apenas um domínio que o ser humano exerce sobre a coisa conhecida, de modo a impor a ela o sentido que está na mente humana. Neste sentido, um nome é um nomos, vale dizer, uma combinação, um pacto, uma norma consensual para designar uma coisa numa linguagem. E se fundamenta no poder de nomear, e não na capacidade de contemplar e apreender. Seja o universo mecânico e desprovido de qualidade e finalidade de Descartes, seja o númenon eternamente inalcançável de Kant, seja a construção dialética da realidade pela razão em Hegel, o logos foi banido do processo de conhecimento, porque ele foi banido da sua condição de fundamento último de toda a realidade. Ao preço de eliminar a própria inteligibilidade da criação.
Mas não é esta a visão de São Tomás. Ele não vive no universo do nomos, mas do logos. É um universo onde a razão humana de fato participa da inteligência divina, e somente num universo assim tem sentido a preocupação que São Tomás expressa aqui: como falar de Deus, como lidar com conceitos e palavras que derivaram da contemplação das criaturas por uma inteligência criatural, para falar com verdade daquele que é a própria inteligência e que não é criatura?
Com este espírito, deixemo-nos guiar pelos doze artigos que ele nos propõe aqui. Serão uma bela aula de lógica. No sentido tomista do termo “lógica”: o estudo do instrumental da razão humana aplicado ao conhecimento, e, aqui em especial, ao conhecimento que podemos ter de Deus nesta vida.
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