Que o ser humano é capaz de chegar, pela razão natural, à noção de que há um Deus, isto ficou bem estabelecido no artigo anterior a este, que estudamos em dois textos. Este é um fato que parece comprovado pela própria história da humanidade: nunca houve um povo cuja cultura fosse simplesmente ateia. Todos os povos, em todos os tempos, perceberam a existência de Deus e o cultuaram da maneira como conseguiram percebê-lo.
É claro que a razão humana não conseguiu simplesmente chegar nas cinco vias tomistas para o conhecimento de Deus; se o fizessem, na esteira do pensamento aristotélico-tomista, teriam formado uma noção de Deus bastante elevada, transcendente, muito próxima da visão que têm as grandes religiões monoteístas do mundo. Mas a razão humana nem sempre se desincumbe de sua tarefa com tanta facilidade, e, em matéria religiosa, o erro decorre, ademais, do fato de que reconhecer Deus assim como as cinco vias nos apontam implica reconhecer-se pequeno, criatural, dependente; isto é algo que o ser humano, imerso no pecado, faz com dificuldade. O Papa Pio XII, na sua encíclica “Humani Generis”, citada pelo Catecismo da Igreja Católica (§ 37) nos diz o seguinte:
“Com efeito, para falar com simplicidade, apesar de a razão humana poder verdadeiramente, pelas suas forças e luz naturais, chegar a um conhecimento verdadeiro e certo de um Deus pessoal, que protege e governa o mundo pela sua providência, bem como de uma lei natural inscrita pelo Criador nas nossas almas, há, contudo, bastantes obstáculos que impedem esta mesma razão de usar eficazmente e com fruto o seu poder natural, porque as verdades que dizem respeito a Deus e aos homens ultrapassam absolutamente a ordem das coisas sensíveis; e quando devem traduzir-se em atos e informar a vida, exigem que nos demos e renunciemos a nós próprios. O espírito humano, para adquirir semelhantes verdades, sofre dificuldade da parte dos sentidos e da imaginação, bem como dos maus desejos nascidos do pecado original. Daí deriva que, em tais matérias, os homens se persuadem facilmente da falsidade ou, pelo menos, da incerteza das coisas que não desejariam fossem verdadeiras.”
De modo bastante interessante o Livro da Sabedoria de Salomão já registrava estas preocupações mesmo antes do nascimento de Nosso senhor, no seu capítulo 13:
1 De fato, são fúteis por natureza todos os humanos nos quais não há o conhecimento de Deus. Porquanto, partindo dos bens visíveis, não foram capazes de conhecer Aquele que é; nem tampouco, pela consideração das obras, chegaram a conhecer o Artífice. 2 Entretanto, tomaram por deuses, por governadores do mundo, o fogo ou o vento, ou o ar fugidio, o ciclo das estrelas, a água impetuosa, os luzeiros do dia. 3 Se, encantados por sua beleza, tomaram essas criaturas por deuses, reconheçam quanto o seu Dominador é maior do que elas: pois foi o Princípio e Autor da beleza quem as criou. 4 Se ficaram maravilhados com o poder e a energia dessas criaturas, concluam daí quanto mais poderoso é aquele que as fez. 5 De fato, partindo da grandeza e beleza das criaturas, pode-se chegar a ver, por analogia, o seu Criador. 6 Contudo, estes merecem menor repreensão: talvez se tenham extraviado procurando a Deus e querendo encontrá-lo. 7 Com efeito, vivendo entre as obras dele, põem-se a procurá-lo, mas se deixam levar pela aparência, pois são belas as coisas que se veem! 8 Mesmo assim, nem estes têm desculpa. 9 Pois, se chegaram a tão vasta ciência, a ponto de investigarem o mundo, como não encontraram mais facilmente o seu Senhor?
Estas mesmas preocupações, inclusive com a relação estreita entre os equívocos na busca por Deus por meio da simples razão humana, por um lado, e o abandono da ética, por outro, foram registradas por São Paulo, na Carta aos Romanos, 1, 20-28:
20. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. 21.Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. 22.Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos. 23.Mudaram a majestade de Deus incorruptível em representações e figuras de homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. 24.Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. 25.Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! 26.Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. 27.Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario. 28.Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno.
Mas a questão de que falaremos aqui neste artigo 13 não é menos importante: trata-se de saber se há, pela graça, um conhecimento de Deus ainda mais elevado do que aquele que a humanidade pode alcançar pela razão natural. A questão é importantíssima, porque toca outro ponto muito contemporâneo: como a filosofia pós iluminista seguiu pelo caminho de negar completamente a possibilidade de que a razão humana possa relacionar-se com Deus, remetendo o mero conhecimento de que há um Deus para o campo da fé, ficamos com dificuldades, contemporaneamente, de situar a fé no campo da inteligência humana. De fato, a fé era considerada uma virtude intelectual, embora infusa. A graça aperfeiçoaria, portanto, aquele conhecimento natural que as pessoas podem ter de Deus, mas não o excluiria. A graça não destrói a natureza, mas a eleva e aperfeiçoa, dizia um aforisma muito comum na época de Tomás, e que ele repete muitas vezes na Suma Teológica. Assim, era por aperfeiçoar o conhecimento natural de Deus que a fé tinha seu lugar no intelecto humano. Mas, uma vez excluída, pelos ramos prevalecentes da filosofia pós-iluminista, qualquer possibilidade de um conhecimento natural de Deus, não havia mais, para os defensores desta posição, a possibilidade de situar a fé no intelecto humano, como uma virtude intelectual infusa. Com isto, a fé foi relevada ao campo das emoções, gerando o pietismo – que é aquela linha teológica, ligada ao protestantismo, que relaciona a fé com o sentimento de Deus apenas.
Com isto, excluiu-se, até mesmo em tese, a possibilidade de admitir que a inteligência humana fosse capaz de discernir o bem, e implantou-se o relativismo e o discurso sobre valores. Toda a ética foi jogada igualmente no campo das emoções. A piedade, que na filosofia tradicional é uma virtude relacionada à virtude cardeal da justiça, e consiste no impulso racional de, uma vez reconhecendo que há um Deus, louvá-lo pelo que devemos a ele (o que faz com que a religião seja uma virtude moral natural importantíssima), é transformada num simples transbordar de emoções irracionais, e retira da religião qualquer dignidade de virtude – ela passa a designar um ritualismo ao qual se adere em nome das emoções divinas que alguém sente, sem nenhuma possibilidade de justificação intelectual, ou um desprezo a ritos e tradições em nome das emoções individuais. Colocar a fé no campo da emoção priva a fé de qualquer fundamento social ou comunitário que não esteja lastreado no poder de provocar emoções – ou de manipulá-las. Emoções são uma dimensão estritamente individual do ser humano, embora possam ser provocadas, amplificadas ou mesmo compartilhadas coletivamente. Entre religião, hipnose e manipulação, a linha fica muito tênue. Tenhamos cuidado, pois, com as experiências religiosas muito fundamentadas no emocionalismo; que ressoe em nossos ouvidos a velha advertência de São Paulo aos Coríntios (povo que devia ser muito emocional em matéria de religião): Satanás sabe se disfarçar em anjo de luz! (2Cor 11, 14). Não é pequena, pois, a necessidade de estudar de novo a velha teoria das virtudes e a maneira que São Tomás, e com ele toda uma tradição eclesial, encarava a relação entre a inteligência humana e a graça, em matéria de religião. É isto que faremos neste artigo. Que abordaremos no texto seguinte a este.
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