No texto anterior, vimos a hipótese adversa, que afirma que não é possível nenhum conhecimento de Deus pela razão natural. E vimos os argumentos, basicamente filosóficos, em favor da hipótese.
Agora São Tomás passa a responder, sintetizando. E inicia concedendo algo de verdade à hipótese objetora inicial. De fato, diz ele, nosso conhecimento natural se inicia nos sentidos. Portanto, ele pode se estender até onde possa ser conduzido pelos sentidos. A origem, pois, de todo conhecimento natural humano é empírica, disto São Tomás não tem dúvida.
Posto isto, São Tomás afirma categoricamente: não é possível alcançar naturalmente a visão da essência divina a partir das forças naturais do nosso intelecto, porque nenhum objeto sensível pode nos apresentar a essência divina assim como ela é em si mesma. Não há nenhuma proporção entre qualquer criatura (sensível naturalmente a nós), que é efeito do poder criador de Deus, e o próprio Deus, sua causa. Por isto, a partir do conhecimento que podemos obter naturalmente delas não conseguimos conhecer todo o poder de Deus, e portanto não podemos chegar por esta via, de modo natural, a conhecer sua essência. Eis uma afirmação profundamente anti-idolátrica!
Mas São Tomás não se detém aí. Ele prossegue, para nos ensinar que há pelo menos uma coisa que podemos saber com certeza, do fato de que nenhuma coisa criada pode nos revelar naturalmente a essência de Deus (pela desproporção absoluta entre a causa e os efeitos): é que estas coisas não se explicam por si mesmas; portanto, sabemos que elas devem ter alguma causa fora de si mesmas, e portanto podemos saber que há Deus. E deste dado irrefutável podemos chegar a algumas informações necessárias: podemos saber quais são as coisas próprias a uma causa primeira, universal e transcendente de todas as criaturas, que são seu efeito. E principalmente sabemos que Deus não tem nada em comum com estes efeitos criados, ou seja, ele não é nada do que são as criaturas. Vale dizer, podemos a partir do fato positivo da causa primeira transcendente e última, chegar a um conhecimento negativo de Deus, negando dele tudo o que é inconveniente afirmar dele, tudo o que é deficiente, contingente, causado, imperfeito, enfim, impróprio de Deus, e desconforme à sua excelência. Ou seja, podemos pela força natural da nossa razão saber de Deus que ele é, e podemos também saber dele o que ele não é nem pode ser. Mas o que, ou quem, ele é, a nossa razão, por suas forças naturais, não pode alcançar.
Assim, São Tomás passará a responder às objeções iniciais. A primeira é aquela citação de Boécio, que lembra que o intelecto humano é naturalmente adequado para o conhecimento do que é composto, mas totalmente inadequado para conhecer naturalmente aquilo que é simples. São Tomás responderá que de fato não podemos conhecer, de algo simples, aquilo que ela é. Mas podemos saber que ela é, ou seja, ao menos podemos saber que há algo simples, ainda que não venhamos a conhecer-lhe naturalmente a essência.
A segunda objeção é a que lembra a lição de Aristóteles, de que não podemos conhecer nada se não temos uma representação imaginativa (phantasmata) dela em nossa mente, e que não é possível formar representações imaginativas de Deus, porque ele não se dá de nenhum modo aos nossos sentidos. São Tomás admite que isto é verdade, mas lembra que, uma vez que conhecemos naturalmente de Deus apenas que ele é, e isto por meio dos efeitos que ele cria, então podemos afirmar que Deus é conhecido naturalmente pelas representações imaginativas dos seus efeitos, que são perfeitamente proporcionados à nossa inteligência.
E por fim a terceira objeção, aquela objeção de fundo moral, que nega que as pessoas tenham qualquer conhecimento natural sobre Deus porque neste caso este conhecimento seria possível também às pessoas más, porque também são racionais; o conhecimento de Deus, que seria reservado apenas aos bons, não seria, portanto, aberto à razão. São Tomás vai lembrar que o próprio Santo Agostinho retratou-se deste trecho citado nas suas “Retratações” ao final da vida, admitindo que mesmo os que não são puros podem conhecer naturalmente muitas verdades. Assim, nada impede que os bons e os maus venham a alcançar algum conhecimento natural sobre Deus.
Aliás, completaríamos, isto torna o mal ainda mais grave: não há desculpa para cometê-lo a pretexto de que conhecer qualquer coisa de Deus – e portanto o bem absoluto – é impossível quando não se é puro – e nenhum ser humano, no estado da sua razão natural, pode sê-lo.
Sim, algo de Deus pode ser conhecido pela razão natural. Não, porém, o próprio Deus em si mesmo.
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