São Paulo, na sua Carta aos Romanos, proclama, (1, 19) que o fundamento da responsabilidade ética de todos nós, crentes e descrentes igualmente, com Deus e com os outros, é que “aquilo que é possível conhecer de Deus foi manifestado ao homem; e foi o próprio Deus quem o manifestou”. Fundamentada nesta passagem, a Igreja Católica sempre declarou “que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas; pois as perfeições invisíveis tornaram-se visíveis depois da criação do mundo, pelo conhecimento que as suas obras nos dão dele [Rom 1,20]” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius sobre a Fé Católica, 24.04.1870). E o Catecismo da Igreja Católica (1993) reafirma, no § 50, que”pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras.”

Isto não significa, é claro, que todas as pessoas cheguem a este conhecimento na prática. O fato de que um determinado teorema matemático pode ser conhecido e demonstrado racionalmente não determina que todas as pessoas automaticamente o conheçam. Nem todos conhecem o Teorema de Pitágoras. Mas, uma vez que um matemático o postula para resolver um problema geométrico, ninguém pode objetar que este teorema não é racional porque pode ser desconhecido por alguém, digamos, que não foi alfabetizado. Há uma outra consequência de afirmar a cognoscibilidade sobre Deus a partir da razão natural: não é preciso compartilhar da mesma fé para conversar sobre liberdade religiosa, sobre respeito à piedade das pessoas e mesmo sobre os deveres comuns que surgem para uma humanidade capaz de reconhecer que existe um Deus. Em suma, o que se está postulando aqui é que não há razoabilidade no ateísmo, porque é razoável, diante do quanto se apresenta à nossa razão natural, perceber ao menos que há um Deus. É o que São Tomás demostrou na questão 2, quando tratou, como lembramos, das cinco vias: para negar as cinco vias, é preciso negar as próprias noções de causalidade, de ato e potência, de perfeição, de contingência e permanência, enfim, é preciso negar tudo aquilo que desde tempos imemoriais a humanidade teve como fundamento da própria racionalidade. A modernidade percebeu isto, e o projeto pós-medieval de filosofia pode ser descrito como uma incessante tentativa de construir um modelo filosófico que permita fundamentar a razão humana de tal forma que possa excluir qualquer via para Deus, ou simplesmente negar o que classicamente se entendeu por razão humana.

Não se está tratando aqui do chamado “conhecimento de Deus por essência”, ou seja, do encontro direto entre uma pessoa humana e Deus. Trata-se de discutir o que se pode saber sobre Deus, a partir da nossa capacidade natural de conhecer, e pressupondo a certeza, comprovada no artigo anterior a este, de que nenhum encontro direto entre a nossa inteligência e o próprio Deus pode se dar nesta vida, e mesmo após ela isto só é possível mediante a luz da glória criada na inteligência do bem-aventurado.

Como se dá isto? Como se entende que a razão natural possa levar-nos ao conhecimento de Deus? É o que São Tomás quer debater agora. E, para provocar este debate, ele vai propor a hipótese adversa: parece que Deus não pode ser conhecido pela razão natural. Esta é a posição agnóstica clássica, que remete a própria possibilidade de conhecer que há um Deus ao campo da . Estes agnósticos, que partem desta mesma hipótese que São Tomás agora adota, defendem que toda declaração sobre Deus está além da razão humana: mencionar Deus já põe alguém mais além da racionalidade.

Claro que há o outro extremo: o chamado fideísmo. É a posição daqueles crentes que, por acharem que Deus é tão completamente transcendente, acham que não há vestígio nem ponto de contato entre ele e a sua criação, e que portanto é desrespeitoso e arrogante que o ser humano declare que se pode saber com certeza qualquer coisa, mesmo indireta, mesmo negativa, a respeito de Deus, fora do campo da fé. São os fideístas. Neste ponto, agnósticos e fideístas concordam.

São Tomás traz três argumentos objetores em favor de sua hipótese inicial. O primeiro argumento parte de uma citação do filósofo cristão Boécio: “a razão [ou seja, a inteligência humana] não capta uma forma simples”. Nós já discutimos bastante sobre o que é uma forma simples quando dialogamos com São Tomás, aqui, sobre a simplicidade de Deus, na questão 3 desta primeira parte. Por ora, basta que lembremos que tudo o que é criado é composto de algum modo (seja uma composição entre essência e existência, seja uma composição entre matéria e forma). E o argumento conclui: uma vez que a nossa inteligência é proporcionada ao conhecimento do que é composto, ela é totalmente incapaz de saber qualquer coisa sobre Deus por caminhos estritamente naturais. E daí o argumento conclui que de fato Deus não pode ser conhecido de nenhuma maneira pela razão natural.

O segundo argumento também é filosófico, e cita a obra “De Anima” de Aristóteles. Ali, o filósofo afirma que, sem formar “phantasmata”, quer dizer, representações imaginativas daquilo que foi experimentado pelos sentidos, a alma humana não é capaz de conhecer nada. Ora, o argumento prossegue: Deus é incorpóreo; logo, não podemos formar representações imaginativas dele em nós. Então, o argumento conclui que não podemos conhecer nada sobre Deus de modo natural por nossa inteligência.

O terceiro argumento é patrístico; é um argumento de fundo moralista. Cita Santo Agostinho para declarar que o conhecimento de Deus é reservado aos de alma pura: “o olhar da mente humana não pode penetrar numa luz tão sublime, se não estiver purificado pela justiça da fé”, diz o Santo Padre Agostinho. Mas a capacidade natural da razão é comum aos bons e aos maus, e por isto admitir que a razão possa conhecer qualquer coisa sobre Deus a partir das suas capacidades naturais seria admitir que Deus pode ser conhecido de alguma maneira tanto por bons quanto por maus. E daí o argumento conclui que não se pode admitir que a razão natural humana possa, por suas próprias forças, chegar a qualquer conhecimento válido sobre Deus.

Em sentido contrário, São Tomás cita exatamente a Carta aos Romanos, no trecho que transcrevemos no início deste texto (1, 19): “aquilo que é possível conhecer de Deus foi manifestado ao homem; e foi o próprio Deus quem o manifestou”. Ou seja, este argumento se apoia num texto bíblico para afirmar que há algum conhecimento verdadeiro sobre Deus que é alcançável pelas forças naturais da razão humana.

Veremos a resposta de São Tomás no próximo texto.