Não dá para encontrar madeira com um detector de metais. Não dá para encontrar-se com Deus, quer dizer, conhecê-lo em essência (para usar a terminologia de São Tomás) a partir de uma vida humana natural, com uma inteligência humana adequada a conhecer criaturas materiais. É este o debate que São Tomás quer fazer neste artigo.

E para controverter o assunto, pergunta-se: pode um ser humano, aqui nesta sua vida comum, ver a Deus em sua essência? E São Tomás admite, para provocar o debate, a hipótese afirmativa: parece que um ser humano, materialmente vivo, pode ver a Deus em sua essência, de modo natural.

quatro argumentos em favor desta hipótese adversa. O primeiro argumento é bíblico: cita Gênesis 32, 31, no qual Jacó exclama: “vi Deus face a face”. Segundo o argumento, ver Deus “face a face” significa encontrá-lo e vê-lo em sua essência; em apoio a esta afirmação, o argumento faz outra citação bíblica, de 1 Cor 13, 12: “agora vemos em espelho, de maneira confusa, mas depois será face a face”. E o argumento conclui que as passagens bíblicas provariam a possibilidade de que um ser humano, nesta vida, possa ver Deus em sua essência.

O segundo argumento também é bíblico. Cita Números 12, 8, em que, no episódio em que Aarão e Maria contestam a autoridade de Moisés, Deus declara que, com Moisés, “falo-lhe face a face, claramente e não em enigmas, e ele vê a forma de Iahweh”. Daí, o argumento conclui que isto descreve exatamente o que é “ver a Deus em essência”, e deduz que o ser humano pode, nesta vida terrena, ver a Deus em sua essência.

O terceiro argumento é retirado de Santo Agostinho, e portanto é um argumento patrístico. Segundo o argumento, aquilo pelo qual conhecemos e julgamos tudo o mais deve ser, a seu turno, conhecido por si mesmo. É fácil entender o que o argumento quer dizer; pensemos numa fita métrica. Para medir todas as coisas com ela, a primeira coisa que preciso fazer é descobrir e conhecer o sistema de medida que a fita usa. Se ela mede em centímetros, preciso conhecer o sistema decimal para usá-la, e com isto conhecer a medida das coisas. Se ela usa polegadas, preciso conhecer este sistema de medidas para que ela me seja útil. Portanto, para que algo seja critério para conhecer outras coisas, deve primeiro sere conhecido por nós em si mesmo.

E o argumento prossegue, afirmando que Santo Agostinho nos diz que, mesmo agora nesta vida, todo o nosso conhecimento real e objetivo se dá em Deus; Deus é, como interpreta o argumento, citando Santo Agostinho, o próprio fundamento de nosso conhecimento. A citação de Agostinho, retirado de suas “Confissões”, é assim: “Se nós dois vemos que é verdade o que dizes e o que digo, onde, pergunto, vimos que isto é assim? Nem em ti nem em mim, mas ambos o vemos na própria verdade imutável, superior aos nossos intelectos”. E o argumento cita ainda outro trecho de Santo Agostinho, em que ele afirma que é segundo a própria verdade divina que nós julgamos todas as coisas. E um terceiro trecho de Santo Agostinho diz: “É próprio da razão julgar as coisas corporais por meio de razões incorpóreas e eternas que, se não fossem superiores ao nosso mente, não seriam, então, imutáveis”. E o argumento conclui que destes fundamentos pode-se deduzir que podemos ver a Deus por essência nesta vida, porque é por ele que medimos e conhecemos todas as coisas.

O quarto e último argumento também é patrístico, e também usa uma citação de Santo Agostinho. O argumento resgata a teoria do conhecimento de Santo Agostinho (que, como sabemos, é um estudioso de Platão), e nos lembra que Santo Agostinho nos diz que as coisas estão no nosso intelecto por sua essência, e é este o objeto da nossa “visão intelectual”. Ou seja, o que conhecemos diretamente está realmente em nós por sua essência, e não por representações ou imagens nas nossas ideias. Ora, o argumento prossegue, lembrando que Deus está em nós, em nossa alma, por sua essência, aqui mesmo nesta vida terrena. Logo, o argumento conclui que ele pode ser conhecido por nós em sua essência desde já.

O argumento sed contra também é bíblico. É uma citação do Livro do Êxodo, 33, 20: “um ser humano não pode ver-me e continuar vivendo”. E cita em seguida a “Glosa Bíblica Ordinária” (que era uma coleção de citações patrísticas existentes nas margens do texto bíblico, na Idade Média), que diz: “enquanto aqui vivemos nesta vida mortal, podemos ver Deus por imagens, não porém pela própria species de sua natureza”.

Posta a questão, São Tomás passará à sua resposta sintética. Que ele inicia dizendo categoricamente, de abrupto, que o ser humano, durante esta vida terrena, por suas aptidões ordinárias, não pode ver a Deus essencialmente.

Isto se dá porque, como São Tomás nos lembra, o modo de conhecimento segue o modo da natureza daquele que conhece. “Semelhante conhece semelhante”, diz São Tomás. Assim, se somos criaturas corpóreas e inteligentes, por sermos inteligentes somos capazes de conhecer intelectualmente; mas, por sermos essencialmente corpóreos somos naturalmente adequados ao conhecimento das coisas que são corpóreas também. Nosso intelecto, portanto, é capaz de conhecer naturalmente as coisas hilomórficas, quer dizer, as coisas que têm forma na matéria; quer dizer, somos capacitados de modo natural a conhecer as criaturas materiais, ou aquilo que se pode conhecer por meio delas.

Ora, a essência divina não é material, como já vimos, nem é criatura. Assim, não há proporção entre ela e a nossa inteligência, na nossa vida terrena.

São Tomás usa, como demonstração do que ele está dizendo, o fato de que determinados estados psíquicos, como a sonolência ou a concentração que nos desliga dos sentidos exteriores, favorecem a percepção daquilo que não é facilmente perceptível em estado de vigília plena. E, de fato, muitas vezes nós temos iluminações e compreensões muito agudas nestas situações; não é incomum que cientistas e matemáticos narrem que tiveram insights muito valiosos em estado de sonolência ou alheamento. São Tomás admite inclusive que estes estados possam permitir eventuais revelações particulares, e mesmo previsões do futuro; e daí ele conclui que somente num estado que represente o total desligamento entre a alma intelectual e o corpo a visão de Deus poder-se-ia dar, e mesmo assim, como já vimos, pela luz da glória nos bem-aventurados.

São Tomás tratará, nos artigos subsequentes, da visão miraculosa de Deus pelos vivos, no arrebatamento. Mas de logo podemos dizer que ela será sempre momentânea, temporária e limitada, porque miraculosa. Assim, encontrar-se com Deus de modo essencial e permanente é algo que acontecerá aos bem-aventurados apenas após a morte. Somente então a alma intelectual terá proporção para receber a luz da glória que permite o encontro essencial com Deus.

Quando estudarmos a antropologia tomista, ainda nesta parte primeira, veremos como se dá o conhecimento nas almas humanas após a morte, segundo São Tomás.

Por ora, fiquemos com as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é o argumento bíblico da visão de Jacó, em que ele diz que viu Deus face a face e sobreviveu. São Tomás responderá que há aí três possibilidades: 1) Citando o [pseudo-] Dionísio, ele diz que quando as Escrituras afirmam que alguém viu Deus face a face nesta vida, ela quer significar que alguma imagem sensível ou imaginária foi formada, de modo a revelar algo de divino por semelhança. É, portanto, um caso de conhecimento indireto, e não de encontro essencial. Ou então 2) Trata-se de um encontro profético de grau elevadíssimo, de que São Tomás tratará mais profundamente quando falar especificamente da profecia e seus graus, na segunda parte da segunda parte da Suma. Trata-se, ainda, de uma visão indireta, no entanto, embora sublime. E, por fim, 3) Trata-se de um caso de contemplação intelectual elevadíssima, que supera o estado normal. Em qualquer caso, é um encontro indireto.

O segundo argumento é o que traz a citação de Números 12, 8, em que o próprio Deus assegura que trata com Moisés “face a face, claramente, e não em enigmas, e ele vê a forma de Iahweh”. No primeiro argumento, o anterior, trata-se de um personagem bíblico, Jacó, afirmando que viu Deus. Aqui, neste argumento, as coisas se invertem um pouco: é o próprio Deus quem afirma que Moisés o viu. São Tomás esclarecerá que nada impede que Deus opere milagres de ordem sobrenatural no mundo corpóreo, e eleve, por arrebatamento, até a visão da essência divina. Esta visão, porém, não se dá de maneira sensorial, mas de forma direta, intelectual, por pura graça e de modo miraculoso, e sempre temporário. Não se trata de entrar na bem-aventurança ainda em vida, o que seria inadequado, mas de ter um vislumbre da essência divina, como ocorreu com São Paulo e com Moisés, como nos ensina aqui São Tomás, prometendo-nos que aprofundará o tema adiante.

O terceiro argumento é aquele que diz que, uma vez que Deus é a medida da verdade de todo conhecimento humano, então necessariamente, ao conhecermos a verdade, estamos conhecendo a própria essência de Deus, ainda em vida. São Tomás nos explica que, de fato, a inteligência humana é uma certa participação na inteligência divina, e que qualquer conhecimento verdadeiro implica uma certa visão da verdade assim como ela é em Deus. Mas do mesmo modo que não é necessário olhar diretamente para a essência do sol quando alguma coisa se torna visível para nós se iluminada por seus raios, tampouco se pode concluir que o simples fato de que toda verdade tem seu lastro final em Deus implique em que vejamos a própria essência de Deus quando adquirimos algum conhecimento verdadeiro em nosso intelecto.

O quarto e último argumento parte daquela citação de Santo Agostinho, que diz que Deus está presente a nós por essência sempre, para concluir que tudo o que está presente à nossa alma está ali porque foi inteligido por nós. São Tomás nos explica que Deus está por essência em todo lugar, em todas as criaturas, em toda a criação, inclusive em nossa alma, como vimos quando estudamos os modos de presença de Deus na criação. Isto não significa que ele está em nossa alma como conhecido por nós. Este é o modo com que ele está nas almas dos bem-aventurados, como vimos quando estudamos o artigo anterior a este.

Mas o fato é que temos algum conhecimento de Deus nesta vida. Será que este conhecimento é sempre sobrenatural, revelatório, miraculoso? Ou há algum conhecimento natural de Deus, alcançável pela razão humana? É o que debateremos no próximo artigo.