Aqui, neste artigo, aplicam-se as consequências do que foi estudado no artigo passado. Diferentemente do nosso conhecimento natural, que é sempre sucessivo, e, portanto, temporal, o conhecimento que têm os bem-aventurados não tem este limite: não se submete à sucessão.

De fato, é próprio da teoria do conhecimento em São Tomás que o nosso intelecto só é capaz de inteligir uma coisa de cada vez. Podem multiplicar-se os pensamentos rebeldes, as distrações e mesmo as imagens e nossa mente. Mas a intelecção é de uma coisa de cada vez. Pelo menos quando opera naturalmente.

E na visão beatífica? Esta é a questão trazida agora para debate por São Tomás. Há simultaneidade de intelecção, de modo que inteligiremos simultaneamente todas as coisas que virmos em Deus, ou há sucessão nesta intelecção, como se dá nas coisas inteligidas naturalmente?

Para provocar o debate, São Tomás adotará a hipótese controvertida: parece que aqueles que veem Deus em essência não podem ver simultaneamente tudo o que veem nele. São Tomás apresentará apenas dois argumentos nesta questão.

O primeiro argumento objetor parte da teoria aristotélica do conhecimento, e lembra que podemos saber muitas coisas, mas apenas podemos inteligir uma de cada vez. Ora, o argumento afirma que a visão beatífica é um inteligir, porque se dá intelectualmente na criatura. Então o argumento conclui que não se vê simultaneamente tudo o que se vê em Deus, na visão beatífica.

O segundo argumento parte de uma citação agostiniana: “Deus move a criatura espiritual no tempo”. A criatura espiritual é movida pela inteligência e pelas inclinações (affectionem em latim; é preciso cuidado com esta palavra. Ela não tem o sentido emocional de afeto que o cognato em português nos evoca; pode ser melhor traduzido para inclinação da vontade). E o argumento prossegue: as criaturas espirituais, no sentido próprio, são os anjos. Assim, se mesmo os anjos conhecem as coisas sucessivamente (no tempo, e não na simultaneidade da eternidade), também os bem-aventurados, na visão beatífica, inteligem e amam sucessivamente, porque, sendo também criaturas espirituais, são também movidos no tempo, e tempo significa sucessão.

Como argumento sed contra, mais uma citação de Santo Agostinho: “nossas cogitações não serão volúveis, indo e voltando de lá para cá; tudo o que soubermos, veremos com um único olhar”. Portanto, esta citação afirma que a nossa inteligência não verá as coisas em Deus de modo sucessivo, como no tempo, mas de modo simultâneo, como na eternidade.

São Tomás responderá simplesmente que esta visão beatífica (que ele chama aqui de “visão no Verbo”) não se dará de modo sucessivo, como no tempo, mas de modo simultâneo, próprio da eternidade. E ele passará a explicar como o nosso intelecto, que ele próprio demonstrará ser incapaz de inteligir mais de uma coisa em ato de cada vez, poderá, na bem-aventurança, inteligir aquilo que vê em Deus de modo simultâneo.

Como já explicamos em textos anteriores, inteligir, para São Tomás, é absorver a species da coisa inteligida, fazendo-a existir intencionalmente no nosso intelecto, a mesma species que existe materialmente no universo criado. Embora o modo de existir seja diferente, entre a coisa material e o nosso conhecimento existe uma identidade de species: abstraindo a forma, tornamo-nos um só com a coisa inteligida, e ela passa a existir intencionalmente em nós. É esta mesma existência intencional em ato no intelecto que Suma chama de existência similar, ou similitude da coisa, que existe em nós. Como cada coisa que inteligimos nos faz assimilar a sua respectiva species, então só é possível estar informado em ato por uma species de cada vez, daquilo que conhecemos de modo natural e direto. Se compreendo uma bola, meu intelecto não poderá estar informado por um cubo ao mesmo tempo. Isto se dá tanto na nossa inteligência quanto na matéria (chamada de matéria signata, ou especificada): o mesmo pedaço de matéria não poderá apresentar, ao mesmo tempo, a forma de bola e a forma de cubo. Apenas uma forma pode existir em ato em cada porção de matéria especificada, e apenas uma species pode informar um intelecto em cada ato de apreensão.

A exceção, diz Tomás, no caso do conhecimento natural, está naquelas coisas complexas, que são conhecidas no seu todo por uma única species; neste caso, todas as partes podem se inteligir simultaneamente. Assim, se eu entro numa loja de materiais de construção, conheço ali os diversos materiais de construção que podem compor uma casa, e o faço sucessivamente, assimilando a species de cada elemento. Mas se conheço a casa toda, terminada e existente, então no mesmo ato todas as partes ficam incluídas no meu intelecto pela mesma species, e eu posso conhecê-las todas simultaneamente. A species de casa já inclui em si as portas, as paredes, as janelas, o telhado, etc., tudo de modo simultâneo para o nosso intelecto. Assim, aquilo que é inteligido na mesma species é inteligido de modo simultâneo, não sucessivo.

E São Tomás conclui, então: no artigo anterior, ficou demonstrado que todas as coisas que são vistas em Deus são inteligidas por nós nele, pela sua essência una, e não pelas species de cada coisa que se pudesse formar em nós. Por isto, inteligimos estas coisas do mesmo modo que as conhecemos: simultaneamente na essência de Deus.

Ele passará a responder às objeções. A primeira é aquela que nos lembra daquele limite natural do intelecto: podemos saber muitas coisas, mas inteligir a cada vez uma só. Então mesmo os que veem a Deus não poderiam ver nele muitas coisas simultaneamente. São Tomás responderá dizendo que, de fato, por meio de uma só species inteligimos um só objeto; mas aquilo que é inteligido através da mesma species pode ser inteligido simultaneamente; São Tomás nos dará dois exemplos disto, um deles conceitual, o outro factual. O exemplo conceitual é o conceito de ser humano (animal racional). Ao compreendê-lo, inteligimos na mesma species o que é animal e o que é racional.

O outro exemplo é factual: ao inteligir a species de casa, inteligimos simultaneamente a parede e o teto.

O segundo argumento objetor é aquele que, citando Santo Agostinho, lembra que os anjos inteligem sucessivamente, e não simultaneamente, e equipara o conhecimento dos bem-aventurados ao conhecimento dos anjos, para concluir que também eles apenas conseguiriam inteligir sucessivamente aquilo que veem em Deus. São Tomás afirmará que o modo natural dos anjos, para inteligir os objetos do seu conhecimento, é sucessivo de fato; mas aquilo que eles podem ver em Deus eles inteligem de maneira simultânea, pelas razões já explicadas na resposta sintetizadora, acima. Do mesmo modo funciona a inteligência humana: aquilo que intelige naturalmente está submetido à sucessão, mas aquilo que vê em Deus, na visão beatífica, verá com simultaneidade.

Estas questões parecem pouco interessantes e mesmo desnecessárias, agora. Mas elas preparam toda a consistência para a antropologia de São Tomás e, por consequência, para a sua ética, que, como veremos, é eudemônica, isto é, pressupõe a felicidade de plenitude em Deus como o fim do ser humano. Então somente lá, e quando estudarmos a escatologia (a questão da salvação final) de São Tomás é que compreenderemos a importância deste artigo e a solidez que ele está construindo.