Falávamos no texto anterior sobre a visão que os bem-aventurados têm de todas as coisas, a partir da visão que têm da essência de Deus. Vimos como a hipótese levantada por São Tomás, para controverter e iniciar o debate, é que as coisas que vemos em Deus tornam-se individualmente conhecidas por nós, de maneira direta, como se as estivéssemos vendo naturalmente, materialmente, diretamente através de nossos sentidos. A hipótese, e seus argumentos derivados, diz que, neste caso, a similitude da coisa que é vista em Deus se forma em nossa inteligência, do mesmo modo que quando a conhecemos diretamente.
O argumento sed contra, no entanto, afirma que quando olhamos um espelho, vemos, com um mesmo olhar, as coisas que estão refletidas nele, mas nem por isto formamos um conhecimento individual para o espelho e outro para cada coisa que se reflete nele. Há uma só assimilação, que envolve o espelho e aquilo que ele reflete. As coisas que são conhecidas por estarem refletidas no espelho, portanto, não são conhecidas direta e materialmente, mas apenas pelo modo com que estão refletidas no espelho, e numa visão conjunta com o próprio espelho. Por analogia, então, São Tomás diz que ocorre de modo similar com o olhar de quem vê as coisas refletidas, em sua inteligibilidade, na essência de Deus: não há, aí, a assimilação de cada coisa, com a species delas adquirindo existência intencional separadamente em nós. Há a recepção da própria essência de Deus em nosso intelecto, e não de uma similitude sua. Não há species de Deus na visão beatífica, mas presença do próprio Deus no bem-aventurado. Portanto, tampouco há formação de similitude das coisas que se vê na essência de Deus, porque não as estamos conhecendo por species, mas na e pela própria essência divina, que as inclui.
Colocados os argumentos a favor e contra a hipótese inicial, São Tomás passa à resposta sintetizadora.
A sua resposta nos apresenta um modo especial de conhecer as coisas, quando vistas pelos bem-aventurados como incluídas na visão da essência de Deus.
Não se trata;
1) de um conhecimento por absorção, por assimilação, em que a forma da coisa que é diretamente conhecida, quando abstraída, ganha existência intencional em nós.
2) Tampouco se trata de um conhecimento indireto, quando, ao conhecermos um objeto semelhante àquele outro que não nos foi exposto, formamos dele um conhecimento aproximado, imperfeito; como o conhecimento que Aleijadinho teve da species dos leões, quando esculpiu seus célebres Leões de Essa.
Simplesmente não há esta assimilação, nem esta aproximação. Há a visão direta da essência divina, que contém em si todas as coisas, e é nesta visão, e não em formas assimiladas ou aproximadas, que consiste o conhecimento que eles têm das coisas que veem refletidas ali. Este conhecimento, se assim podemos dizer, não está propriamente localizado em nosso intelecto, mas na própria essência divina que habitará em nós. A rigor, poderíamos dizer que Deus conhece todas as coisas em si, e nós conheceremos todas as coisas nele, com ele e por ele. Isto joga por terra qualquer possibilidade de um individualismo cognitivo, na bem-aventurança.
Isto, que parece tão inaudito, terá consequências muito interessantes na antropologia e na escatologia, porque o conhecimento por meio da visão da essência divina não está sujeito à sucessão temporal nem eviterna, mas à simultaneidade de conhecimento, que é a forma pela qual as coisas estão em Deus. Veremos isto nos próximos artigos. Por agora, vamos examinar as respostas de São Tomás às objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor era aquele que simplesmente equiparava o conhecimento natural, em que a forma da coisa (species) que se apresenta aos sentidos do ser humano é assimilada pelo intelecto e ganha existência intencional ali, com aquele conhecimento das coisas que são vistas ao se ver a essência divina na bem-aventurança; o argumento diz que, também neste último caso, as species das coisas vistas são assimiladas e ganham existência intencional (similitudes) em nosso intelecto. São Tomás, respondendo, afirma que as coisas que são vistas pelo bem-aventurado no intelecto de Deus são conhecidas ali mesmo onde estão, ou seja, ficam no próprio intelecto de Deus e não ganham existência intencional em nosso intelecto. São conhecidas em Deus pelo bem-aventurado que está unido a ele na visão beatífica. Usando uma metáfora grosseira do mundo da informática, que São Tomás não conheceu mas que certamente usaria muito bem, este conhecimento fica na nuvem, no HD de Deus, e não no nosso cartãozinho de memória pessoal, e temos acesso a ele, na beatitude, na exata medida que estamos conectados essencialmente com ele.
O segundo argumento objetor é aquele que cita a passagem bíblica em que São Paulo foi arrebatado aos céus e teve uma visão beatífica, relatada em 2Cor 12, 4. O argumento insiste em que, uma vez que possuía memória das coisas que vira ao ser arrebatado, isto implicaria dizer que a visão beatífica forma similitudes em nós das coisas conhecidas em Deus.
São Tomás vai nos dar uma aula magna da sua fantástica teoria do conhecimento, aqui, ao responder a este segundo argumento. Ele nos explica que a nossa imaginação e a nossa inteligência têm a capacidade de formar species novas a partir de species que elas já têm em si. E dá um exemplo que envolve a imaginação: a partir da species da montanha, e da species do ouro, a imaginação pode conceber uma montanha de ouro. No caso do intelecto, ele dá outro exemplo, profundamente intelectual: da species de gênero e da species de diferença, o intelecto forma a species da diferença específica.
Assim, ele nos explica que, no caso da visão beatífica por arrebatamento, a inteligência humana é capaz de formar species a partir das coisas que viu em Deus; estas species, porém, formadas no caso da visão beatífica por arrebatamento (da qual São Tomás falará um pouco, nesta mesma questão, adianta), são diferentes tanto da própria visão com que as coisas são vistas em Deus, que as origina, quanto da species que formamos pela nossa visão natural das coisas. É por causa delas, da sua peculiaridade – digo eu, numa pequena digressão neste bate-papo com São Tomás – que o testemunho da visão tida em arrebatamento é tão complicada a ponto de São Paulo referir-se a si mesmo em terceira pessoa, quando a menciona aos seus amados coríntios.
Quão diferente é a teoria do conhecimento de São Tomás, com relação à filosofia do conhecimento que pauta a nossa pedagogia do século XXI. Seria bom se os nossos pedagogos tivessem a coragem de resgatá-la.
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