Mais uma vez, a velha teoria do conhecimento de Tomás de Aquino não vai facilitar a nossa compreensão sobre este artigo. É bom, então, que falemos um pouco sobre ela.
As formas, na teoria aristotélica, especificam a matéria, dando a ela o ser. Ou seja, a matéria, ao receber a forma, ganha existência como um ente, uma coisa. Assim, existir, para um ente qualquer, é possuir efetivamente uma forma individualizada pela matéria.
E como conhecemos? Esta forma, que especifica a matéria, é abstraída da matéria pelo nosso intelecto. E a mesma forma, assim abstraída, passa a informar nosso intelecto. A forma passa a existir em nós; é a mesma forma que existe na coisa, não outra. Então, nosso intelecto ganha a forma da coisa. Neste sentido, ele assimila a coisa, quer dizer, torna-se similar, ganha a forma que a coisa tem. A diferença é que, na coisa, a forma existe materialmente. Na nossa inteligência, a forma existe intencionalmente, vale dizer, ela tem um modo imaterial de existir, que aponta para a existência das coisas materiais que deram origem ao conhecimento. Esta forma que passa a existir em nós intencionalmente, sendo a mesma forma que existe na coisa, tem um modo de existir diferente, em nós. Isto que existe em nós como forma assimilada é a similitude da coisa; a similitude é aquilo que permite a assimilação da coisa por nós. O que existe no mundo materialmente, preexiste virtualmente em Deus (falamos sobre isto no texto anterior a este) e passa a existir em similitude em nós, aós o conhecimento (assimilação). A species, ou similitude da coisa, possui origem em Deus, individualiza-se na matéria e assimila-se em nós. É a mesma species. A um tempo, as coisas são cognoscíveis para nós porque foram pensadas por Deus, então têm um sentido (logos) em si mesmas; e ganharam existência na matéria. Cada coisa que existe é como que uma carta de Deus para nós, que nos revela um pouquinho do logos que está em Deus e é Deus. Esta é a raiz do conhecimento intelectual, em primeiro lugar. Aqui a similitude que se forma no intelecto é causado diretamente pela própria coisa conhecida.
Mas há outra forma de conhecer, para nós, seres humanos: o conhecimento indireto de alguma coisa através da species de outra coisa que é semelhante àquela. Assim, por exemplo, alguém que nunca viu um leão pode formar uma similitude imperfeita de um leão em si ao juntar, no intelecto, a forma do gato com a ideia de tamanho. Este conhecimento humano é indireto, mas é válido. Para compreender o que ele significa, é só pensar nos chamados “Leões de Essa”, esculpidos por Aleijadinho para uma Igreja de Ouro Preto: sem ter a menor referência visual de leões de verdade, em tempos em que não havia fotografia e os livros eram raríssimos, Aleijadinho esculpiu leões que parecem macacos com pose de gato e garras de gavião. Mas há, sem dúvida, algo de leonino ali, embora muito remoto. É este conhecimento indireto, quando a similitude de uma coisa é formada no intelecto através da similitude de outra coisa que lhe é semelhante, um dos tipos de conhecimento humano dos quais São Tomás nos falará neste artigo.
O debate aqui é o seguinte: será que aqueles que veem a essência de Deus, e veem nela as criaturas, conhecem estas criaturas que são vistas ali? E que tipo de conhecimento é este, é um conhecimento direto, como aquele em que a similitude do intelecto é formada pela própria species da coisa com que o conhecedor teve contato, ou este conhecimento é do tipo indireto, em que a similitude se forma a partir da semelhança de outras coisas?
Para iniciar o debate, portanto, São Tomás adota, mais uma vez, a hipótese que ele considera adversa, e que quer nos apresentar para o debate: parece que aqueles que veem a essência divina veem nela as coisas através de suas similitudes. Serão apenas dois argumentos opositores.
O primeiro é filosófico: todo conhecimento se dá por uma assimilação entre o conhecedor e o conhecido. Como dizia Aristóteles, de certa maneira aquele que conhece assimila a coisa conhecida, faz com que ela exista em seu próprio intelecto, ainda que intencionalmente; é por isto que Aristóteles disse, no seu Tratado Sobre a Alma, que a alma é, de certa maneira, todas as coisas.
Naquele que conhece (ou seja, no intelecto em ato), o intelecto que conhece torna-se a própria coisa conhecida em ato, conforme explicamos acima. No conhecimento sensível isto ocorre também: de certo modo, a retina ocular torna-se similar à cor conhecida, ou seja, assimila a cor, ao ser exposta a ela. O olho que perdeu a capacidade de receber a cor, por exemplo, por causa de um daltonismo, já não consegue mais enxergá-la adequadamente. A pele adquire em si a aspereza da coisa tateada, e assim por diante.
E o argumento conclui, a partir daí, que o intelecto de quem vê a essência de Deus assimila em si as coisas que veem ali, vale dizer, recebe as formas, é informado pelas coisas que vê em Deus, forma em si a sua similitude, e é assim que as conhece.
O segundo argumento é bíblico. Ele começa com uma afirmação de senso comum: guardamos na memória as coisas que já vimos. E em seguida, nos lembra que São Paulo, na 2ª carta aos Coríntios, descreve de memória muitas coisas que viu em seu arrebatamento, quando teve, no dizer de Santo Agostinho, a oportunidade de contemplar a essência de Deus. Assim, o argumento conclui que muitas coisas que ele viu em seu arrebatamento foram assimiladas em seu intelecto, ou seja, ele viu as species das coisas em Deus e formou, em seu intelecto, similitudes delas.
O argumento sed contra não é, como de costume, um argumento de autoridade, mas de senso comum: São Tomás nos traz o exemplo de um espelho: quem vê um espelho, forma uma só similitude do espelho e das coisas que nele estão refletidas. Também em Deus, analogicamente, todas as coisas que existem estão como que refletidas em sua inteligibilidade. Como não vemos a essência de Deus por imagens e semelhanças (ver o art. 2 desta questão), mas pela sua própria essência que se apresenta ao intelecto bem-aventurado através da luz da glória, então também as coisas que são vistas ali não são vistas por species ou similitudes, mas pela própria visão da essência de Deus que as inclui. Difícil para nós formar uma noção precisa do que isto significa… De fato, devemos ter bem claro que a ciência de Deus, que São Tomás debaterá adiante, na questão 14, não é causada pelas coisas, mas as causa. Assim, as coisas criadas é que formam similitudes daquilo que está em primeiro lugar no intelecto de Deus, e não contrário, como se dá na ciência humana. A rigor, não há similitudes na mente divina, como há na nossa: as criaturas é que são similitudes do que existe ali em primeiro lugar. Assim, o conhecimento humano, quando se dá naturalmente, forma em si similitudes daquilo que existe materialmente, e que é, por seu turno, uma similitude do que há em Deus. Ao ver a essência de Deus, portanto, não vemos similitudes, mas o logos de todas as coisas como fonte primeira e fim último daquilo que existe e não é Deus. Este é um conhecimento integral, pleno, simultâneo, diverso, portanto, do conhecimento por meios empíricos das coisas materiais que nos interpelam. É uma forma de pensar no conhecimento completamente diferente da que nos chegou do medievo tardio, com suas tendências nominalistas, e do renascimento e iluminismo, com suas infindáveis discussões entre empirismo e racionalismo, entre percepções, fenômenos e ontologias. Toda a filosofia do conhecimento pós-medieval é filha, em algum grau, do nominalismo do medievo tardio, e retirou qualquer fundamento divino para o conhecimento humano.
Colocada a questão, São Tomás vai passar à sua resposta sintetizadora. No próximo texto.
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