Como vimos no texto anterior, a hipótese controvertida deste artigo afirma que aqueles que veem a essência de Deus veem nele todas as coisas. Será que os bem-aventurados têm onisciência? Passam a saber de tudo, conhecem o futuro, o passado, os segredos dos outros, as intimidades e até mesmo o que Deus poderia ter feito e não fez?
A resposta de São Tomás é negativa sem hesitações. O intelecto criado, ao ver a essência divina, não vê nela, automaticamente, tudo o que Deus faz ou pode fazer. São Tomás nos lembra que há coisas que podem ser vistas em Deus por quem lhe vê por essência, já que todas as coisas que não são Deus – as criaturas, portanto – encontram-se em Deus de modo virtual. Esta noção de presença virtual é alguma coisa que nós, de hoje em dia, apenas com muita dificuldade conseguimos compreender, porque perdemos contato com a metafísica que era familiar a São Tomás. Hoje, quando falamos de alguma coisa virtual, pensamos logo no mundo da informática, no qual encontramos coisas como dinheiro virtual, amizades virtuais e até uma realidade virtual. Então pensamos no virtual como uma simulação, uma fantasia, ou entes de razão que não têm existência no mundo material. Na metafísica do tempo de São Tomás, a expressão tinha um significado mais amplo: a expressão presença virtual descrevia, por exemplo, todas as coisas que estão presentes nos efeitos que causam, de tal modo que, cessada a ação da causa, cessaria também a existência do efeito. É assim, por exemplo, que o instrumento musical está virtualmente presente na nota que soa, mesmo que eu esteja num ambiente completamente diferente daquele em que está o músico; se a ação do músico sobre o instrumento cessa, o som da nota cessa também. É neste sentido que se diz que Deus está virtualmente presente, como causa criadora, em todas as criaturas: se Deus cessa de exercer seu poder criador aqui e agora, todas as coisas voltariam ao nada.
Neste mesmo sentido, pode-se dizer que o efeito está virtualmente presente na sua causa, quando a causa possui em si a capacidade de gerar o efeito. Assim, a árvore está virtualmente presente na semente, e o tijolo, que se incorpora a uma parede como causa material, perde a existência autônoma, mas está virtualmente presente para retomá-la no dia em que a parede for eventualmente demolida. Assim, neste sentido, todas as coisas que existem, todas as criaturas, existem primeiro virtualmente em Deus, que é sua causa primeira e seu fim último, como origem e perfeição.
No plano da lógica, podemos dizer que todas as conclusões estão virtualmente presentes nas suas premissas, não só porque já está de certo modo contida neles, mas porque ela é resultado do desenvolvimento do raciocínio a partir delas.
É neste sentido que São Tomás está falando aqui. Vendo Deus em essência, o bem-aventurado vê, também, aquilo que está nele virtualmente presente, ou seja, as criaturas. Deus conhece as criaturas em si mesmo, porque seu conhecimento a respeito delas não é consequência da existência delas – como é o nosso. Na verdade, o conhecimento de Deus sobre as coisas causa a própria a existência das coisas. Neste sentido, os bem-aventurados veem as coisas em Deus virtualmente, na medida que ele é a causa de todas elas e, portanto, tem a existência delas como o efeito próprio de seu poder de causalidade.
E São Tomás nos explica, então, que, quando contemplamos alguma causa, os efeitos que nela estão contidos virtualmente se tornam tão mais claros para nós quanto mais claramente podemos ver a causa. Um exemplo vai nos clarear um pouco o que São Tomás está nos tentando dizer. Se eu vejo um palito de fósforo, de certa forma eu contemplo neste palito de fósforo o seu efeito virtual, que é a chama de fogo que ele gerará quando adequadamente aceso. Se vejo este palito de fósforo nas mãos de uma pequena criança, prestes a esfregá-lo na caixa e próxima a um galão de combustível, posso ver ainda mais claramente os efeitos virtuais da tragédia que se avizinha. Por isto, quanto mais clara for a minha visão, e quanto mais capacidade intelectual eu tiver para associar as causas e os efeitos virtuais nela contidos, tão mais facilmente eu conhecerei os efeitos das causas, e tão mais facilmente eu compreenderei as razões desses efeitos. Uma visão menos clara, por um intelecto mais limitado, não permitirá conhecer os efeitos tão claramente, então.
Isto se vê muito claramente, digamos, numa classe de matemática: alguns alunos, mais rápidos no raciocínio, são capazes de deduzir rapidamente as conclusões e resolver o problema que o professor propõe. Outros, mais lentos, precisam que se lhes explique cada passo do raciocínio, para compreender suas implicações. Assim se dá com o conhecimento que teremos, na bem-aventurança, das razões e dos efeitos das coisas que veremos em Deus. A diferença é que a claridade da nossa visão não dependerá da capacidade do nosso intelecto, mas da profundidade da união com Deus por meio da luz da glória, como discutimos há alguns artigos atrás. Quanto mais uma pessoa tiver caridade, mais anseia por Deus; mais recebe a luz criada que lhe permite encontrar a Deus na glória e, dispondo desta intimidade de amor tão profunda, mais é capaz de perceber os planos de amor que Deus tem para as suas criaturas. Mais conhecerá, portanto, de todas as coisas que vir em Deus. Porque saberá não por bisbilhotice ou curiosidade, mas por pura participação no amor.
E, para finalizar sua resposta, São Tomás nos lembra que, como foi debatido no artigo anterior, mesmo a criatura mais perfeita no amor, e portanto mais profundamente ligada a Deus (cremos que é Maria Santíssima) pode compreendê-lo totalmente, assim como ele compreende a si mesmo. Portanto, necessariamente, o seu conhecimento daquilo que contempla em Deus tem algum limite, por mais amplo que seja. É o limite criatural.
Neste ponto, São Tomás passará a responder às objeções. A primeira objeção é retirada dos escritos de São Gregório Magno, e parece implicar que nada escapa à visão daqueles que veem a Deus, que tudo vê. São Tomás nos explicará que, de fato, aqueles que veem a Deus podem ver aquele que vê todas as coisas. Mas não pode, dado o limite criatural que foi debatido no artigo anterior, compreender totalmente aquilo que vê. Logo, não pode conhecer em Deus todas as coisas.
A segunda objeção é aquela que alega que quem vê o espelho deve poder ver tudo o que nele se reflete; então quem vê a Deus deve ver nele todas as coisas, tornando-se onisciente com Deus. São Tomás responderá com muita simplicidade, dizendo que isto seria assim, se pudermos abarcar todo o espelho com o nosso olhar. Ou seja, o limite da capacidade de conhecer todas as coisas em Deus relaciona-se sempre com a nossa impossibilidade de compreendê-lo totalmente, mesmo estando na visão beatífica.
A terceira objeção, como nos lembramos, é uma citação de Aristóteles: quem intelige o mais, intelige também o menos. Se os bem-aventurados podem inteligir a própria essência de Deus, devem necessariamente poder inteligir o fazer de Deus, que é necessariamente menor que sua essência. São Tomás nos responde assim: de fato, ver a Deus por essência é mais do que ver todo o resto. Mas vê-lo de modo a conhecer nele todas as coisas, ou seja, tudo o que há para conhecer sobre o próprio Deus e sobre a sua criação, passado, presente e futuro, é mais do que, vendo-o, conhecer nele poucas coisas ou muitas coisas. E São Tomás já demonstrou, num dos artigos anteriores, que a visão que os bem-aventurados têm da essência de Deus é variável conforme o amor, pela luz da glória que neles foi criada. Assim, o bem-aventurado conhecerá mais ou menos a respeito das causas que estão contidas em Deus conforme o veja mais ou menos perfeitamente.
A última objeção afirma o desejo natural de toda criatura racional de saber tudo. E conclui que, a menos que a bem-aventurança nos dê todo o conhecimento sobre tudo, não saciaremos este desejo, e portanto não seremos totalmente felizes, o que seria contraditório com a própria noção de bem-aventurança. São Tomás reponderá que o desejo natural da criatura racional corresponde não à vontade desordenada da criatura decaída, com seus impulsos de curiosidade vã, de controle e de bisbilhotice; a perfeição do intelecto criado está, ao contrário, no conhecimento adequado das espécies, dos gêneros e das razões, ou seja, daquilo que Tomás tem como objeto próprio da ciência perfeita. Isto será visto em Deus por quem lhe vir a essência. Mas conhecer os seres singulares, ou seja, as pessoas em sua liberdade individual, com suas contingências, sua intimidade e suas inclinações mais íntimas, nada disso corresponde à perfeição dos intelectos criados – não é dado sequer aos anjos mais elevados. A curiosidade vã sobre a intimidade alheia não cabe na beatitude final.
O outro limite do conhecimento, no sentido da perfeição, é a pura especulação sobre o que Deus poderia fazer mas não fez ou não fará. Esta especulação gratuita também não corresponde à perfeição do intelecto criado, mas às más inclinações pecaminosas do orgulho intelectual sem sentido. Tampouco isto será dado aos que alcançam a bem-aventurança. Os mestrados e doutorados, os títulos honoris causa e os currículos alentados terão pouquíssimo valor no céu.
Mas estas coisas não farão a menor falta, porque a perfeição da bem-aventurança afasta o desejo deste tipo de conhecimento, porque pressupõe a retificação das más inclinações. É a visão do próprio Deus, e não o conhecimento sobre as criaturas que decorre desta visão, que constitui o núcleo da bem-aventurança final. E São Tomás arremata citando as Confissões de Santo Agostinho:
“Infeliz do homem que, conhecendo-as todas [as criaturas], te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as ignore! Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa de seu saber [científico], mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá graças, e não se desvanece em seus pensamentos.”
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