Deus é onisciente, e sua vida se caracteriza pelo gozo perfeito da simultaneidade total. Não há sucessão de acontecimentos, em Deus. Como nós havíamos visto quando estudamos a eternidade de Deus, na questão 10 desta primeira parte da Suma, a eternidade não é um tempo infinito, mas a perfeita e plena simultaneidade.

A questão que se põe agora, pois, tem a ver com o fato de que Deus contempla todas as coisas em si mesmo; não conhece sucessividade e não há segredos para ele na criação. Assim, poder-se-ia imaginar que todos aqueles que, chegados à bem-aventurança final, encontrassem Deus naquilo que São Tomás chama de “visão de Deus por essência”, fossem capazes de conhecer absolutamente tudo sobre tudo, ou seja, absorvessem em si todo o conhecimento de Deus – inclusive aquele conhecimento que Deus tem sobre os mexericos e intimidades de tudo e de todos. A beatitude seria, pois, acompanhada do descobrimento de todos os segredos, de todas as razões e mesmo de todo o futuro da criação. Conhecendo a essência de Deus, receberíamos todo o conhecimento dele sobre tudo e participaríamos de sua onisciência e da sua visão da simultaneidade eterna. Não haveria mais segredos, não haveria mais intimidade que não estivesse exposta aos que veem a essência de Deus, não haveria mais fato passado ou futuro ou qualquer evento que lhes fosse oculto. Seria um grande estímulo para curiosos e fofoqueiros, que certamente gostariam muito de viver uma vida eterna assim.

E esta a hipótese controvertida que São Tomás adota para iniciar o debate: parece que aqueles que veem a Deus por essência podem ver tudo em Deus. São quatro argumentos objetores, em apoio a esta hipótese inicial.

O primeiro argumento em favor da hipótese objetora inicial parte de uma citação de São Gregório Magno, que foi Papa entre 590 e 604, e que poderia ser traduzida mais ou menos assim: o que não seria visível àqueles que veem a quem tudo vê? E o argumento conclui: se Deus vê tudo, então aqueles que podem ver a essência divina também podem ver tudo.

O segundo argumento parte de uma analogia física; afirma que “quem vê um espelho, vê tudo o que nele se reflete”. A partir daí, o argumento afirma que tudo aquilo que Deus fez, faz ou fará, tudo aquilo que ocorre na criação está presente primeiro em Deus, e se reflete nele como num espelho. E mais, o argumento afirma ainda que Deus conhece todas as coisas em si mesmo; onde, aliás, elas estão em primeiro lugar. Portanto, o argumento conclui que quem vê a Deus por essência vê nele tudo o que existe, existiu e pode vir a existir. Ver a Deus por essência implica, para este argumento, adquirir a plenitude da sua onisciência.

O terceiro argumento parte do aforisma aristotélico que diz: “quem intelige o mais, intelige o menos”. E acresce: tudo o que Deus já fez, fará ou pode fazer é menos do que a sua essência. Logo, quem intelige o mais (a essência de Deus), diz o argumento, necessariamente conhecerá também tudo o que Deus fez, faz ou fará.

O quarto argumento parte de um argumento filosófico que fundamenta a própria visão de mundo de São Tomás, e se encontra também, de certo modo, no capítulo 1 do livro 1 da Metafísica de Aristóteles: a criatura racional deseja naturalmente saber tudo (Aristóteles diz ali que todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer). O argumento prossegue então afirmando que, a menos que a criatura seja capaz de ver todas as coisas em Deus, não repousará numa felicidade perfeita, porque seu desejo natural não restaria saciado. Mas, uma vez que a bem-aventurança consiste, por definição, numa felicidade perfeita, então é necessário admitir que os bem-aventurados veem tudo, sabem tudo, ao verem a essência de Deus.

Argumentos poderosos para sustentar um artigo cuja hipótese inicial é uma afirmação, e não uma negação, como é mais usual. Há quase um suspense em imaginar como São Tomás responderá a eles.

Neste ponto nos chega o argumento sed contra, ou seja, aquele que nos impede frontalmente de acolher a hipótese inicial. O argumento contrário, aqui, parte dos anjos: os santos anjos veem a Deus por essência, mas não sabem tudo. É certo que São Tomás só estudará os anjos nas questões 50-64 desta primeira parte, e que ele está fazendo afirmações que ainda não nos são familiares no momento. Mas aceitemo-las. Ele as demonstrará adequadamente no tempo oportuno. Por enquanto, ele cita apenas um trechinho do [pseudo]-Dionísio, que afirma que “os anjos inferiores são purificados de sua ignorância pelos superiores”, o que indica que, embora tenham a visão beatífica, eles nem por isto são oniscientes. Ademais, o argumento sed contra prossegue, afirmando que há duas coisas das quais os anjos não têm conhecimento, ordinariamente: os chamados “futuros contingentes” (ou seja, o que acontece como resultado não necessário de escolhas livres) e os segredos dos corações humanos, que somente à pessoa que os possui (e a Deus) são visíveis. De certo modo, é tranquilizador saber que os anjos não conseguem invadir a intimidade das cogitações humanas. E o argumento conclui, dizendo que, uma vez que ocorre assim com os santos anjos, está provado que aqueles que veem a Deus em essência nem por isto passam a conhecer tudo.

São Tomás passa, então, à sua resposta sintetizadora.

Ficou muito longo. Veremos a resposta de São Tomás no próximo texto.