É a nossa inteligência que encontra Deus, e a nossa vontade nele repousa. De fato, entrando na bem-aventurança, nós o veremos com os nossos olhos espirituais, vale dizer, com a nossa inteligência; isto é exatamente a consumação de todos os nossos desejos e representa o repouso da nossa vontade no pleno amor que nos preenche completamente. É por isto que São Tomás começa sua resposta sintetizadora citando Santo Agostinho: nenhuma inteligência criada pode compreender a Deus; mas alcançá-lo de qualquer maneira é uma grande felicidade. Vale dizer: os bem-aventurados de fato conhecerão a própria existência de Deus, mas jamais a esgotarão. Deus não se deixa aprisionar, nem dominar, nem esgotar. Nenhuma criatura pode abarcar Deus ao conhecê-lo, ou seja, pode-se conhecê-lo, mas ninguém pode compreendê-lo. Este é exatamente o conceito de mistério: não é aquilo que não se conhece, mas aquilo que jamais se esgota. E não poderia ser diferente: Deus é infinito, e a inteligência criada é sempre limitada.
São Tomás passa a nos dar uma aula de teoria do conhecimento, para nos explicar como pode ser que conheçamos a Deus por essência e não o esgotemos jamais na sua cognoscibilidade. O exemplo que ele usa é prosaico; ele o retira da geometria. Trata-se da definição de triângulo. O triângulo é definido como a figura geométrica cujos ângulos internos somam 180º. Ou seja, a soma dos ângulos de qualquer triângulo é sempre igual a dois ângulos retos. Um professor de geometria sabe desta verdade por demonstração, e sabe demonstrá-la de modo científico. Mas um aluno pode ter decorado esta informação apenas para passar na prova; ele não saberia demonstrá-la, mas está seguro de que as coisas são assim, porque ouviu esta definição da boca do professor e a copiou do livro. O aluno, portanto, tem apenas um conhecimento imperfeito sobre esta verdade, ou seja, ele tem a opinião, baseado nas autoridades com que teve contato, de que a soma dos ângulos internos do triângulo é sempre igual a dois ângulos retos. Ou seja, embora ele conheça esta verdade, e embora sua opinião seja objetivamente verdadeira, o seu conhecimento não a esgota no que ela tem de inteligibilidade. O conhecimento do professor, porém, esgota a inteligibilidade deste postulado geométrico, porque ele o conhece por demonstração, não por argumento de autoridade. Pode-se dizer que o aluno, neste exemplo, conhece o postulado geométrico, mas não o compreende. O professor, porém, não só conhece este postulado como o compreende, já que é capaz de esgotar o que nele existe de inteligibilidade.
Este exemplo é importante. Embora seja apenas analógico, ele é capaz de revelar como podemos conhecer alguma coisa, como este conhecimento pode ser verdadeiro e como pode, igualmente, ser um conhecimento que não esgota a inteligibilidade da coisa conhecida. Transposto para o nosso conhecimento de Deus por essência, que advirá na glória (assim esperamos e cremos), isto garante que não seremos “dissolvidos em Deus” panteisticamente, mas nos manteremos com o nosso próprio ser criatural, embora tocados e habitados por Deus, pelo verdadeiro Deus. É assim que São Tomás prossegue sua resposta: Deus é ato infinito, perfeição infinita. Nenhuma criatura pode esgotar o que em Deus é cognoscível, somente Deus, por ser ele próprio infinito, é capaz de conhecer-se inteiramente. (Em Deus não há inconsciente ou algo como o “subconsciente” em termos freudianos; Deus é totalmente transparente para si mesmo). Mas para nós, Deus é alcançável, mas não esgotável. A nossa criaturalidade, que se mantém integralmente na beatitude, determina que seja impossível que possamos esgotar a divindade de Deus no conhecimento que teremos dele. A própria luz da glória é criada em nós; sendo criatura, ela também é finita, embora nos abra ao infinito. Isto nos garante que a eternidade será tudo menos monótona – jamais nos entediaremos de Deus, porque jamais o esgotaremos em seu mistério infinito. Jamais abarcaremos Deus. Jamais o dominaremos. Neste encontro em que ele se dará a nós assim como é, permaneceremos, a um tempo, nós mesmos, e ao mesmo tempo seremos deiformes, porque o teremos em nós assim como ele é em si mesmo. Estaremos em Deus. Deus estará em nós. Mas ao mesmo tempo continuaremos outros com relação à própria essência divina. Jamais o compreenderemos, no sentido de abarcá-lo, de entendê-lo totalmente, de esgotá-lo em nós. Nós seremos nós. Estaremos em Deus, mas Deus não estará em nós, pelo menos não por uma relação de identidade. Seremos dele. Mas ele jamais será nosso, no sentido possessivo do termo. E jamais nos dissolverá nele, no sentido panteísta do termo.
Passamos às respostas de São Tomás às objeções iniciais. O primeiro argumento objetor, como nos lembramos do texto anterior, é o argumento bíblico, consistente na citação de São Paulo, retirada da tradução Vulgata, em que “compreender” tem o sentido de “alcançar”. São Tomás nos lembrará que, na língua da Vulgata, a palavra “comprehendere” tem de fato este outro sentido, de “alcançar”. E alcançar é exatamente o conteúdo, a perfeição da virtude teologal da esperança. O que São Paulo está dizendo, portanto, é que a virtude teologal da esperança, que consiste no desejo de alcançar Deus um dia, não é vazia; nós de fato o alcançaremos, na bem-aventurança. Mas o outro sentido de “comprehendere”, , de abarcar completamente com a inteligência o objeto de conhecimento, esgotando a sua cognoscibilidade, (que foi o sentido que chegou a nós hoje em dia), este está além da possibilidade da criatura, no seu encontro com Deus. E São Tomás passa a nos dar uma bela lição sobre o objeto das três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade. A fé se aperfeiçoará pela visão, a esperança se aperfeiçoará pelo encontro de quem alcança a Deus e a caridade se aperfeiçoará pela fruição do amor de Deus na beatitude. Para reforçar sua argumentação, São Tomás resgata uma passagem do livro dos Cânticos de Salomão (3, 4), em que o amante alcança aquele a quem buscava, o seu amado: “agarrei-o e não o soltarei”. É neste sentido, diz São Tomás, que devemos entender a palavra paulina que ele cita.
São Tomás faz, então, uma comparação entre o objeto das nossas virtudes teologais e o objeto das nossas vontades naturais: enquanto caminhamos na terra, vemos coisas que não alcançamos, e alcançamos coisas que não fruiremos; e mesmo aquilo de que fruiremos jamais saciará totalmente a nossa vontade. Mas na nossa relação com Deus não é assim: ao receber a luz da glória, nós o veremos realmente, alcançaremos aquilo que vemos de Deus e fruiremos com plenitude o que alcançamos, saciando totalmente a nossa vontade. Mas sem esgotar jamais o que em Deus é infinito.
O segundo argumento objetor é aquele retirado de Santo Agostinho, que, ao falar de compreensão, afirma que “aquilo que é totalmente visto é totalmente compreendido”. O argumento lembra então que Deus é simples, e é visto pelos bem-aventurados assim como ele é. Portanto, ao v~e-lo como ele é, em sua simplicidade, os bem-aventurados veem-no todo, e portanto forçosamente o compreendem totalmente.
São Tomás explicará, em resposta, que Deus não pode ser totalmente compreendido, no sentido de “totalmente abarcado”, não porque haja alguma parte dele que é vista enquanto outra não o é. Este “limite de compreensibilidade” se dá porque Deus não é visto pela criatura de modo tão perfeito quanto é visível em si mesmo! E São Tomás retoma o exemplo de alguém que conhece uma proposição científica e a aceita como verdadeira por confiança nos cientistas que a apresentam, embora pessoalmente não saiba como demonstrá-la. Ele pode até conhecer a proposição inteira: sujeito, predicado e composição. Mas seu conhecimento, conquanto verdadeiro, não esgota o que esta proposição tem de conhecível em si mesma. Esta é a nossa situação com a maior parte das coisas que sabemos, hoje em dia; poucos de nós, talvez ninguém, pode gabar-se de conhecer toda a medicina e toda a bioquímica a ponto de conhecer tudo o que há para ser conhecido no campo dos remédios capazes de tratar doenças, e, ao mesmo tempo, conhecer tudo o que há para ser conhecido no campo da rede mundial de computadores. Mas aceitamos os conhecimentos que nos são transmitidos como verdadeiros pelos especialistas destas áreas, que tampouco conhecem as áreas afeitas aos outros especialistas. É assim que São Tomás, usando mais uma de suas analogias geniais, nos explica como pode ser que venhamos a conhecer a Deus por essência de modo verdadeiro, mas jamais o compreendamos, no sentido de abarcá-lo completamente, perceber seus limites, descobrir sobre ele tudo o que há para ser descoberto. Podemos dominar algum campo da ciência assim; mas jamais compreenderemos Deus assim.
O terceiro argumento objetor, como nos lembramos, é aquele que procura eliminar a distinção entre ver tudo e ver totalmente. O argumento diz que, do ponto de vista do objeto visto, que é Deus, nós o veremos todo, porque nos encontraremos com ele por essência. E do ponto de vista do conhecedor, que seremos nós, nosso intelecto estará completamente tomado por essa visão, ou seja, esta será uma visão que nos ocupará totalmente. E o argumento conclui que esta visão é total, e portanto não pode deixar de ser compreensiva.
São Tomás nos explica que este encontro nos dará, de fato, a possibilidade de contemplar a Deus totalmente, no sentido de que nos permitirá compreender que ele é infinito em sua existência e em sua cognoscibilidade. Mas em nós, como sujeitos deste encontro de conhecimento, não se produzirá jamais o esgotamento desta cognoscibilidade que conhecemos como infinita. Voltando ainda ao exemplo daquela proposição científica que eu conheço como verdadeira apenas por confiança nos cientistas que a ensinaram; eu posso até saber que a proposição E-MC2 é uma proposição demonstrável, e que Einstein foi o cientista que a demonstrou adequadamente. Mas o simples fato de conhecer a proposição, saber que ela é verdadeira e saber que ela é demonstrável cientificamente não significa que eu saiba pessoalmente como demonstrá-la. Do mesmo modo, saber que Deus é infinito em sua cognoscibilidade não implica esgotar o conhecimento de tudo que é conhecível em Deus.
Como estamos vendo, chegamos a um salão bem largo da catedral da Suma. Talvez um dos pontos em que São Tomás mais foi negado e desconstruído pela filosofia pós-renascentista – a teoria do conhecimento, ou gnoseologia. E é por isto que esta questão parece tão difícil para nós, e os aspectos levantados por Tomás parecem às vezes exagerados, às vezes desnecessários, às vezes ultrapassados. Não são. Somos nós que não nos deixamos encaminhar por uma teoria do conhecimento muito mais razoável que as contemporâneas, mas que, por ter como ponto de partida a mente de Deus e a semelhança do nosso intelecto com o dele, parece piedosa demais para ser aceita hoje. Falso. Não há possibilidade de construir uma teoria do conhecimento coerente sem partir da relação entre o conhecimento de deus e o conhecimento humano. O problema é que São Tomás parte do Deus verdadeiro e explicita os seus pontos de partida. As filosofias de hoje partem de outros deuses (ou mesmo deificam a humanidade ou o indivíduo) e escamoteiam seu ponto de partida, blindando-nos ao mesmo tempo até contra a possibilidade de considerar a alternativa tomista.
No próximo artigo, veremos outro aspecto importantíssimo desta noção de encontro beatífico com Deus que nos preenche totalmente mas preserva a integridade da nossa alteridade criatural. São Tomás debaterá se ver a essência de Deus implica conhecer tudo o que Deus conhece e da mesma forma que Deus conhece.
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