Conhecer, dizem os modernos, é dominar. Conhecimento é poder. Portanto, conhecer alguma coisa implica ter poder sobre ela. Saber é poder, diz um conhecido aforisma atualíssimo. Assim, poderíamos imaginar que conhecer Deus por essência deveria implicar dominá-lo, controlá-lo, abarcá-lo, ter poder sobre ele. Esta é a ideia de conhecimento que nos vem logo à cabeça, na era cientificista que vivemos. Que valor teria um conhecimento, se não fosse científico, ou seja, catalogável, controlável, reproduzível em laboratório? Que valor tem conhecer sem dominar? Que vantagem há em saber sem obter poder sobre o objeto conhecido?
Estes problemas afloram a partir da visão pós-medieval de conhecimento. Conhecer, hoje, não é mais absorver uma species, fazer-se um com o conhecido, ter em si intencionalmente aquilo que existe realmente fora de si; conhecer, hoje, não se relaciona mais com a verdade, vale dizer, com a identidade entre o ser conhecido e o ser existente. Conhecer relaciona-se com a capacidade de desvendar os mecanismos, dominar o funcionamento, controlar as forças de modo a fazê-las trabalhar em nosso favor. A categoria da verdade é denunciada como dogmatista e obscura, e foi substituída pela categoria do controle: não mais o conhecimento verdadeiro: agora falamos do conhecimento eficaz. Se antes a filosofia falava de um conhecimento contemplativo daquilo que existe, e de um pensamento que era fundamento da nossa praxis e da nossa poiesis, ou seja, de uma diferença entre o conhecimento de quem contempla e o pensamento de quem age e faz, hoje ficamos apenas com a categoria do pensamento, e não aceitamos mais a contemplação. O ser humano da nossa contemporaneidade é um ser que pensa, mas não é um ser que contempla. É alguém que se preocupa com o fazer, mas não com o receber e admirar-se. Neste sentido, a filosofia contemporânea não começa com o espanto, mas com a ansiedade. Não somos mais curiosos, hoje. Somos simplesmente ávidos!
Triste, de certo modo. Porque não se pode pensar em Deus, neste sentido, mas apenas contemplá-lo. E esta, segundo São Tomás, é a expressão mais alta de felicidade: a contemplação de Deus. Ver Deus é contemplá-lo, mas não se pode pensar em Deus (no sentido contemporâneo, prático, da palavra pensar). Deus pensa em nós. Nós apenas o contemplamos.
Esta é a questão a ser debatida agora: de fato, já sabemos que conheceremos Deus em essência, mas o que significa isto? Qual a extensão e a natureza deste conhecimento? Trata-se de um conhecimento relacional, de amizade? Trata-se de um conhecimento positivo, de dominação e controle, à maneira cientificista? Trata-se de uma absorção do conhecedor no conhecido, à maneira panteísta, em que o ser humano perderia sua identidade para ser absorvido em Deus, como uma gota é incorporada no oceano?
Há uma outra questão a ser debatida aqui: o termo comprehendere tem mais de um sentido, no latim. O sentido que nós perdemos, quando traduzimos para o português, é o sentido de alcançar. Compreender, em português, tem apenas o sentido de entender completamente, abarcar com o conhecimento. São Tomás esclarecerá esta ambiguidade no decorrer da questão.
A hipótese que São Tomás admitirá, aqui, para provocar o debate é a que equipara o conhecimento de Deus por essência, próprio dos bem-aventurados, com a compreensão; vale dizer, conhecer a essência de Deus significa abarcar Deus completamente pelo conhecimento? Conhecê-lo, na bem-aventurança, significa dominá-lo, compreendê-lo, esgotá-lo como objeto de conhecimento? Assim, a hipótese inicial controvertida afirma: parece que aqueles que veem a Deus por essência o compreendem.
O primeiro argumento é bíblico. Trata exatamente da ambiguidade do termo compreender, no latim da Vulgata. Ela cita São Paulo, que em Filipenses 3, 12, segundo a Vulgata, diz: “corro para ver se o compreendo”. Nas traduções modernas, o trecho usa o verbo “alcançar”, no mesmo sentido com que a Vulgata usa “comprehendere”. Mas este argumento tem a Vulgata e a ambiguidade de comprehendere, e provoca o debate a partir daí. O argumento traz mais duas citações paulinas, para reforçar a ideia de que São Paulo defende que se pode “comprehendere” Deus. O primeiro texto é 1 Cor 9, 26, em que São Paulo diz:”não corro em vão”, e 1 Cor 9, 24, em que ele nos exorta a “correr de modo a alcançar [o prêmio]”. Portanto, São Paulo estaria, na verdade, dizendo que compreender a Deus é o verdadeiro sentido de vê-lo em essência, segundo a exegese deste argumento. Assim, este argumento objetor conclui que os que veem Deus em essência também o compreendem.
O segundo argumento traz uma citação de Santo Agostinho. Ele, em sua correspondência, afirma que compreender alguma coisa consiste em vê-lo completamente, de tal modo que nada do que está no que é visto fique oculto ao que vê. O argumento, então, nos lembra que Deus é simples, e, portanto, se é visto em sua essência, é visto totalmente, e nada do que ele é fica oculto àquele que o vê. Assim, o segundo argumento objetor conclui que quem o vê em sua essência necessariamente o compreende.
O terceiro argumento parte da distinção entre “ver todo” e “ver totalmente”. O argumento nega que seja possível fazer esta distinção. A expressão “ver totalmente” poderia referir-se: 1) ao modo de quem vê ou 2) à coisa vista. Ele afirma categoricamente que aquele que vê a Deus por essência o vê exatamente como ele é, e não outra coisa. Então, segundo este argumento, ele o vê todo. E o intelecto daquele que vê a Deus por essência o vê totalmente, isto é, com toda a capacidade que possui. Assim, o argumento conclui que ver a Deus em essência implica necessariamente compreendê-lo.
No argumento sed contra, São Tomás traz outra citação bíblica. Trata-se do Livro de Jeremias (32, 19), que na versão Vulgata afirma de Deus: “Tu és grande em teus desígnios e incompreensível em teus pensamentos”. Assim, o argumento conclui que Deus não pode ser compreendido.
São Tomás responderá, sintetizando as suas considerações. Veremos no próximo texto.
Deixe um comentário