Há um certo “democratismo religioso” em voga hoje em dia que torna muito complicado lidar com as diferenças na relação com Deus. De fato, Deus é infinito amor, mas ele não é uma máquina de amar, mas amor vivo e verdadeiro. Deus não é energia, para que alguma coisa nele seja como que “automática”. E as marcas da sua interioridade são a pessoalidade e a relação. Por isto, há dois princípios na relação de amor da criatura com Deus que são caríssimos a São Tomas e a toda a melhor tradição cristã: 1. O princípio de que a graça não destrói nem anula a natureza, mas a aperfeiçoa e eleva (gratia non tollit naturam, sed perficit); e 2. A gratuidade da eleição de Deus, que ama quem ele quer, como ele quer. Com isto, há diferenças na relação de amor da criatura com Deus, tanto por parte da liberdade de eleição em Deus, quanto por parte da própria capacidade natural de receber a graça, que varia nas diferentes criaturas. No presente artigo, São Tomás trata, portanto, desta capacidade natural, e de como ela influencia neste encontro de amor entre Deus e a sua criatura inteligente. O conhecimento direto da essência de Deus pela criatura é um incendiar-se no amor, como vimos nos artigos anteriores. Ser humano, graça e Deus unem-se nestas fogueiras de felicidade perfeita, em que, mantendo as respectivas essências, as criaturas participam da divindade, deixando-se consumir pelo amor. Resta perguntar, agora, se há diferença nas fogueiras que se formam!
Portanto, para provocar o debate, São Tomás admitirá a hipótese de que todos os que podem ver a essência de Deus fazem-no com o mesmo grau de perfeição. Não haveria, segundo esta hipótese inicial, diferenças entre o grau de perfeição com que cada bem-aventurado goza desta visão maravilhosa. Em resumo, o céu seria um lugar de igualdade plena na perfeição – ver Deus em essência seria sempre vê-lo de modo plenamente perfeito.
As consequências éticas de uma concepção assim são facilmente dedutíveis: a busca da santidade, que é tão rica e diversa em cada fiel, não faria diferença no gozo final da bem-aventurança. Nada que o ser humano fizesse, ainda que como resposta pessoal e consequente à ação da graça de Deus em sua vida, alteraria o grau da sua união com Deus na vida eterna. Esta é uma consequência que decorreria inevitavelmente da premissa agora adotada por São Tomás para polemizar e iniciar o debate.
Mas, por outro lado, admitir que a união com Deus é determinado simplesmente pelo esforço humano seria cair no inverso: o pelagianismo, que nega a necessidade da graça, da luz da glória (como discutimos no artigo anterior) para possibilitar o encontro essencial entre o ser humano e Deus. São Tomás não tem medo de provocar o debate e estabelecer este equilíbrio maravilhoso entre a gratuidade e a perfeição absoluta de Deus, por um lado, e a liberdade que ele tem em suas predileções, bem como a liberdade da resposta humana ao seu chamado, por outro. E o debate começa pela adoção da hipótese polêmica.
Em sustento a esta hipótese adversa inicial, São Tomás aduz três argumentos objetores. O primeiro argumento é bíblico: é uma citação da Primeira Carta de São João, 3, 2: “Nós o veremos tal como ele é”. E o argumento aduz: Deus tem apenas um modo de ser. Logo, não se pode pensar que algum bem-aventurado pode vê-lo mais ou menos perfeitamente que outro: e o argumento conclui que todos os bem-aventurados o verão da mesma maneira.
O segundo argumento é patrístico, retirado de Santo Agostinho. Segundo a citação agostiniana trazida por São Tomás, “uma mesma coisa não pode ser inteligida por alguém mais do que por outro”, ou seja, ninguém pode inteligir uma coisa mais do que outra pessoa intelige esta mesma coisa. A apreensão simples da essência de uma coisa se dá, portanto, de modo uniforme para todos os sujeitos que a apreendem intelectualmente. Ora, o conhecimento de Deus por essência é uma apreensão intelectual da essência de Deus, já que Deus se dá ao nosso intelecto, não aos nossos sentidos. Assim, este argumento conclui que não pode haver diferença no modo pelo qual se vê a essência divina: ninguém a vê mais claramente do que outro.
O terceiro argumento parte da noção de conhecer, em analogia com a visão. Para que algo seja visto por alguém de modo mais claro do que outra pessoa o vê, há duas possibilidades: 1. Da parte do objeto; quando ele é recebido pelo sujeito de modo mais perfeito, isto é, por uma semelhança mais perfeita. 2. Quando um sujeito que conhece possui mais capacidade intelectual do que outro.
O argumento prossegue, então, dizendo que a diferença do item 01, ou seja, que o conhecimento advenha de uma semelhança mais perfeita entre o objeto de conhecimento e a coisa conhecida, não se aplica ao caso do conhecimento de Deus por essência. De fato, aqui não há um objeto cuja semelhança nos proporcione um conhecimento de Deus, mas a presença do próprio Deus, em sua essência, no intelecto de quem o conhece. Há, pois, um conhecimento imediato, e não um conhecimento mediado, de Deus. Portanto, o argumento conclui que, quanto ao objeto de conhecimento, não pode haver diferença de perfeição entre os que veem a essência de Deus.
E por parte do sujeito? O argumento prossegue dizendo que, em tese, pode existir aí uma diferença de perfeição entre a visão de Deus por essência, já que pode, de fato, existir um sujeito mais intelectualmente capaz do que outro. No entanto, o argumento prossegue asseverando que a Revelação garante que os seres humanos serão, na bem-aventurança, iguais aos anjos; uma vez que os anjos são seres essencialmente intelectuais, os seres humanos serão igualmente intelectuais então. E que portanto não pode haver diferença na perfeição da visão da essência de Deus também pelo lado subjetivo.
Os argumentos adversos, portanto, são bastante robustos e convincentes.
Como argumento sed contra, São Tomás traz uma discussão bíblica bem interessante. Ele começa citando o Evangelho de João, 17, 3. – um trecho do qual São Tomás gosta muito (e torna a sua gnoseologia bastante consistente com a palavra de Jesus) em que Jesus diz: “esta é a vida eterna, que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro…”; com isto, ele quer deixar claro que, de fato, há um aspecto em comum a todos os que têm a vida eterna: o conhecimento de Deus por essência. Mas o argumento traz outra citação bíblica que demonstra que este aspecto em comum não implica igualdade absoluta entre a perfeição com que cada um vê a essência de Deus; em 1 Coríntios 15, 41, São Paulo assegura que “de estrela para estrela há diferença de brilho”, passagem que é interpretada, neste argumento, como indicando que há diferença na visão beatífica entre os que estão na glória de Deus.
São Tomás passa, agora, à sua resposta sintetizadora. Ele começa logo afirmando que há, de fato, diferença entre os que veem a Deus por essência; uns o veem mais perfeitamente do que outros. O céu, portanto, não é igualitário, mas maravilhosamente diverso no brilho dos que lá habitam.
São Tomás ensina que isto não se dá por diferença no objeto visto, como se a representação de Deus em alguém fosse mais perfeita do que a representação de Deus em outro. A visão beatífica da glória não se dá por representação. Não é uma imagem ou um símbolo, nem mesmo uma ideia de Deus que se forma no intelecto dos bem-aventurados: é o próprio Deus que se apresenta ali em suia essência. Não é da parte do objeto, portanto, que há diferença na perfeição da visão beatífica.
Mas esta diferença existe. Deve decorrer, portanto, da parte subjetiva, ou seja, da capacidade do sujeito que vê. É preciso lembrar, porém, daquilo que discutimos nos artigos anteriores: embora a potencialidade da visão beatífica seja natural no ser humano, a capacidade desta visão não o é. Portanto, não são aqueles cujo intelecto seja naturalmente mais dotado, ou seja, os mais inteligentes (intelectualmente falando) que verão a essência de Deus mais perfeitamente. Pensar assim seria gnose, ou seja, seria admitir uma salvação pelo mero acúmulo pessoal de conhecimento, de informação. Longe de São Tomás tal concepção.
A capacidade de ver a essência de Deus é dada, como vimos no artigo anterior, pela luz da glória, que Deus cria em nosso espírito para que tenhamos a capacidade de vê-lo por essência, tornando-nos semelhante a ele. Mas Deus em si mesmo é amor, como nos ensina 1João 4, 8b – Deus caritas est. Assim, quem tem em si mais amor anseia mais por Deus. E este anseio nasce da caridade e busca a caridade; o anseio pela caridade torna a alma mais capaz de receber a luz da glória, numa espécie de círculo virtuoso: quanto mais se ama, mais se recebe amor. Como diz São Tomás, de modo a um só tempo místico e profundamente coerente, o desejo que nasce pela caridade torna, de certo modo, aquele que deseja mais apto e preparado para receber o objeto desejado. Assim, aquele que ama mais verá a Deus mais perfeitamente e será mais feliz. E depois dizem que São Tomás é um intelectualista áspero!
São Tomás passa a responder às objeções iniciais. A primeira, como lembramos, é o argumento bíblico retirado de 1Jo 3,2: “então o veremos tal como ele é”. O argumento interpreta a passagem como se ela dissesse que todos veremos a Deus assim como ele é, em toda a sua perfeição, e portanto a visão beatífica será igual para todos. São Tomás responde que, da parte de Deus, isto é verdade: é o mesmo Deus, em toda a sua perfeição, que será visto em essência. Mas São Tomás responde que esta interpretação não esgota o assunto; a diferença não está naquele que é visto, mas naquele que vê. Embora seja o mesmo Deus perfeito que é visto, a visão de cada um não esgota a perfeição de Deus; da parte do que vê, a maneira de ver não é perfeita como é perfeito aquele que é visto. Veremos mais sobre isto no artigo seguinte.
A segunda objeção é a citação de Santo Agostinho, que, tratando da simples apreensão intelectual, afirma que ninguém pode apreender alguma coisa mais do que outro. São Tomás explica que este “mais”, ou “plus”, significa apenas que ninguém pode conhecer uma coisa senão apreendendo o que a própria coisa é. Se eu apreendo a essência de uma coisa e você, olhando para a mesma coisa, apreende uma essência diferente, um de nós não conhece a coisa verdadeiramente. Temos, pois, que apreender a mesma essência, se conhecemos a mesma coisa. Mas isto não significa que conhecemos a coisa com a mesma profundidade: a minha apreensão, embora recaia sobre o mesmo objeto, pode ser mais ou menos perfeita que a sua.
A terceira objeção é aquela que nega que a visão possa diferir em perfeição por parte do objeto (Deus) que é perfeição plena, ou por parte do sujeito (ser humano bem-aventurado), que será semelhante aos anjos, na glória. São Tomás admite que de fato não pode haver diferença de perfeição quanto ao objeto, que é o mesmo: a essência divina, perfeitíssima. Também não pode haver “diferenças de semelhança” na apreensão, porque a visão beatífica não atinge semelhanças de Deus, mas o próprio Deus. Há, no entanto, diferença de perfeição no conhecimento, não segundo a natureza do sujeito cognoscente, mas segundo a glória, conforme a caridade – como São Tomás explicou quando relacionou a intensidade do amor com a perfeição final da união entre Deus e o bem-aventurado, acima.
Este artigo é muito belo. Mostra quão rico é o céu.
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