Um galho seco é capaz de pegar fogo. Mas para isto são necessárias duas condições externas ao galho: o oxigênio e a ignição. De fato, o galho não pega fogo na ausência de oxigênio, ou sem a elevação da temperatura que dê a ignição na queima. Será que poderíamos dizer que o galho seco não é capaz de incendiar-se, apenas fundamentando-se no fato de que duas condições externas a ele – o oxigênio e a ignição – são necessárias para que ele seja incendiado? Não. A potência para queimar está no galho, embora somente se atualize na presença destas condições: o fogo em ato e o comburente. Com os sentidos ocorre uma coisa semelhante: é preciso que haja o próprio órgão em sua perfeita potencialidade para funcionar, a coisa a ser percebida e o meio que faça com que a coisa entre em contato com o órgão. Isto fica bem claro nos casos da visão e da audição; na visão, são necessários a coisa, a luz e os olhos. No caso da audição, são necessários a fonte de ruído, o ar e o ouvido. No olfato, a fonte de odor, o ar e o nariz.

Nem por isto, por precisar de condições alheias ao próprio órgão, diríamos que o olho não tem a potencialidade de ver. Sim, de fato ele a tem, desde que haja algo para ser visto e a devida luz que ilumina a coisa. É a própria coisa que é vista pelo olho, sob a claridade da luz que a coloca em contato com o sentido da visão.

E no caso da visão de Deus? Já vimos que o nosso intelecto tem potencialidade para ver a Deus; mas sob quais condições? Estamos usando aqui de analogia entre a visão sensorial, a visão intelectual e a visão beatífica. A visão beatífica, como sabemos, é a visão de Deus pela criatura dotada de inteligência. Como descrever esta possibilidade, conciliando a um só tempo, a realidade da possibilidade de um dia vermos Deus em sua essência, por um lado, e a limitação da nossa inteligência criada, por outro? Por um lado, precisamos nos assegurar de que é o próprio Deus que veremos, e não um reflexo, uma imagem, ou mesmo uma ideia de Deus. Mas por outro lado precisamos descobrir como isto pode se dar, ou seja, como é que um intelecto criado pode chegar a encontrar-se realmente com a essência de Deus. É o que São Tomás discutirá neste artigo. O tema é difícil, porque a estrutura do conhecimento humano somente será estudada, aqui na Suma, muito mais adiante, na parte mais específica da antropologia – primeira parte, questões 85 a 89. E os limites deste encontro somente serão estabelecidos nos próximos artigos desta mesma questão que estamos estudando agora. Portanto, mais uma vez, temos que ter paciência com a Suma. Recebamos cada gotinha deve ser recebida com gratidão, mas as perguntas que esta gotinha gera serão respondidas mais adiante. Esta é a pedagogia da Suma, profunda e bela, que a nossa época de superficialidade eletrônica perdeu.

O que está em jogo, aqui, portanto, é o conjunto de condições necessárias para que as criaturas inteligentes vejam a essência de Deus – isto é, encontrem-se com o próprio Deus, e não com notícias dele, ou mesmo com imagens ou reflexos dele. Para estabelecer o debate, São Tomás adota a hipótese adversa: parece que a inteligência da criatura não precisa de nenhuma luz criada para ver Deus essencialmente.

E são três os argumentos adversos, que apoiam esta hipótese inicial controvertida. O primeiro é um argumento físico: o sentido da visão não precisa de nenhuma luz adicional criada para enxergar as coisas que são em si mesmas luminescentes. Aquilo que produz sua própria luz, como as estrelas, pode ser visto mesmo na ausência absoluta de qualquer outra fonte de luz. Assim, usando da analogia, o argumento diz que as coisas inteligíveis que são, elas próprias, fontes de inteligibilidade, não precisariam de outra luz para serem vistas. Então o argumento prossegue, lembrando que Deus, por definição, é a fonte de toda inteligibilidade da criação, porque é, em si mesmo, inteligibilidade plena. Por isto, nenhuma luz adicional, muito menos uma luz criada, seria necessária para que nosso intelecto o contemplasse de modo essencial.

O segundo argumento adverso lida com a ideia da visão direta de Deus, por essência. Ver Deus essencialmente significa encontrar o próprio Deus, e não uma imagem ou reflexo seu. Ora, o argumento lembra que Deus é incriado. Se, para vermos Deus, precisássemos de uma luz criada qualquer, então estaríamos vendo apenas uma imagem ou reflexo de Deus, e não o próprio Deus em sua essência. Seria algo como uma fotografia, e não um encontro. E o argumento conclui que, se admitirmos que uma luz criada qualquer é necessária para que o intelecto criado possa de fato contemplar a Deus em essência, então este encontro com Deus não é imediato, essencial, mas apenas mediato e indireto. Assim, não se poderia admitir, segundo este argumento, que a visão de Deus em essência dependa de uma luz criada qualquer.

O terceiro argumento objetor equipara a palavra “criada” à palavra “natural”; o argumento começa afirmando que nada impediria que uma coisa “criada” fosse “natural” a alguma criatura. Então, do mesmo modo que algumas criaturas marinhas têm órgãos emissores de luz que iluminam naturalmente as coisas que estas criaturas precisam ver, nada impediria que alguma criatura inteligente possuísse uma “emissão natural da luz criada necessária para ver Deus por essência”, e que esta luz fosse natural a esta criatura. Neste caso, esta criatura veria Deus naturalmente, sem necessidade de que o próprio Deus lhe adicionasse, através de uma relação real, os meios necessários para vê-lo. Mas ver a essência de Deus apenas através das suas propriedades naturais, como vimos no artigo passado, é impossível a qualquer criatura. Assim, não se pode falar da necessidade de uma certa “luz criada” para ver Deus por essência.

Como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação bíblica, em que as Escrituras proclamam a necessidade da concessão, por Deus, de uma certa luz divina para que o possamos ver em essência; Salmo 36 (35), versículo 10b; “em tua luz veremos a luz”.

Que luz é esta? Tema complexo. Perdemos toda a teoria gnoseológica medieval, depois de filósofos modernos como Kant, Hume, Descartes e Locke. Nós reconstruiremos lentamente esta gnoselogia tomista da Suma, nos artigos que falam do ser humano. Mais uma vez, será necessária muita paciência. Por enquanto, veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.