No artigo anterior, nós conversamos um pouco sobre a teoria do conhecimento tomista e sobre os paradoxos que podem causar a noção de conhecer a Deus em essência. Vimos que o conhecimento, em Tomás, implica a existência da mesma species, que surge na mente de Deus como um universal, ganha existência na matéria e é assimilada pelo intelecto cognoscente, no qual adquire existência intencional. Isto é fácil de pensar quando se trata do conhecimento de criaturas materiais, porque a species pode existir de várias maneiras, individualizando-se na matéria ou assimilando-se no intelecto. Mas quando se trata da essência de Deus, há um problema: a essência de Deus, como já vimos, é simples, e é a própria existência. Seria complicado imaginar como poderíamos conhecer a essência de Deus, ou seja, como poderíamos fazê-la existir intencionalmente em nosso intelecto, o que equivaleria a imaginar que ela tivesse, em nós, uma existência distinta da que tem no próprio Deus. Eis porque a hipótese inicial deste artigo é: parece que nenhum intelecto criado pode conhecer Deus essencialmente. No texto anterior, vimos os três argumentos que suportam esta hipótese inicial. E o argumento sed contraque nos fala do conhecimento de Deus “como num espelho [enigma]” e o conhecimento “face a face”, retirado da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios – trecho do chamado “hino paulino ao amor”, e comentado por Santo Agostinho: “os termos espelho e enigma designam quaisquer semelhanças aptas a nos levar ao conhecimento de Deus”. Não é deste conhecimento indireto, portanto, que estamos falando quando debatemos a capacidade do intelecto criado para conhecer Deus por essência. De que falamos então? São Tomás responderá agora, sintetizando o debate e resolvendo-o.

O que estamos dizendo, quando falamos em visão? Esta é a primeira lição de São Tomás. Falamos na visão sensível e, por analogia, na visão intelectual, para nos referirmos à capacidade de receber a species na nossa sensibilidade (nos nossos sentidos), quando tratamos da visão sensível; e na capacidade de receber a species intelectiva, ou seja, a forma no que ela tem de inteligibilidade, no nosso intelecto, na chamada visão intelectual. A palavra “visão”, aqui, está sendo usada, portanto, analogicamente: já vimos que a palavra species, de origem latina, como a palavra ideia, de origem grega, ambas têm raiz igual: são derivadas da palavra que, nas suas respectivas línguas, denotam visibilidade. Por isto, quando falamos de apreensão, seja a apreensão sensível, seja a apreensão intelectual, usamos, de modo genérico, a palavra visão para conotar, analogicamente, a assimilação da species. Para a visão, portanto, São Tomás explica que duas condições são necessárias:

1. A capacidade, ou potencialidade, de ver, no sentido de assimilar (sensivelmente ou intelectualmente).

2. A coisa a ser vista.

O encontro entre a coisa e a capacidade de vê-la gera a visão em ato, ou seja, faz com que a coisa, pela sua species, esteja de algum modo em quem a vê; ou seja, que a coisa seja assimilada pelo sujeito cognoscente.

E como se dá esta presença das coisas materiais naquele que vê? É claro que, se vejo uma pedra, esta pedra não vai parar no meu olho. Aqui eu preciso fazer uma distinção própria da filosofia escolástica: a essência de uma pedra, como a essência de qualquer coisa material, é o composto de matéria e forma. Mas o que o olho vê é apenas a forma, não a matéria. Quem já teve o desprazer de sofrer com um cisco ou uma pedrinha no olho sabe exatamente quão inconveniente seria se a visão dependesse da matéria, e não da forma.

Mas a visão, na sua dimensão sensitiva, depende da forma. No entanto, é um sentido material. A própria forma da pedra se dá a nós materialmente, por dois motivos:

1. Porque só vemos a pedra em razão da sua materialidade. Enquanto a pedra era só uma species na mente de Deus, ela não seria visível para nós, como a casa que está na cabeça do arquiteto não é visível ao pedreiro.

2. Porque todo o processo de ver a pedra é material: envolve a reflexão da luz na pedra, na retina, a transmissão de impulsos nervosos até o neurônio; resolve-se, portanto, materialmente.

Se é da matéria que recebemos, portanto, tanto o que é visto quanto a própria capacidade de ver, então a matéria é princípio da visão e sujeito da forma vista. É neste sentido que São Tomás está dizendo que “se a coisa vista é também princípio da visão, receberíamos dela tanto a capacidade de ver quanto a forma que é vista.” A coisa vista, sendo material, e a visão, sendo material, são, portanto, perfeitamente proporcionadas uma à outra. A matéria nos dá o sentido e nos dá a forma da coisa sentida. Uma pessoa que fosse totalmente transparente, como um “homem invisível”, necessariamente seria cego, porque não teria matéria para receber a luz que conduz a forma das coisas materiais e ver. Isto fica mais evidente com os outros sentidos: só porque a mão é material e a pedra é material é que eu posso tatear por sobre a superfície da pedra e perceber sua forma rugosa. Se a mão não fosse material, não haveria tato. Se a pedra não fosse material, não poderia ser tateada. Mas é a forma da coisa que nos é dada pelo sentido. A matéria, portanto, é princípio do sentido e suporte para a forma sentida. Tanto é assim que, ao sentido da visão, não há possibilidade de reflexão: o olho, por ser estritamente material, nunca poderá ver a si mesmo. Para ver a si mesmo, ele precisaria ter-se por meio e objeto, e ocupar simultaneamente dois lugares no espaço. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar, nem tampouco um corpo pode ocupar dois lugares. Limites da matéria.

Mas e quanto à inteligência? Certamente, a nossa inteligência não precisa necessariamente que uma forma esteja ligada à sua matéria para recebê-la. Somos capazes de entender que um cubo é um cubo, seja abstraindo sua forma a partir, digamos, de um jogo de dados, onde a forma está estritamente ligada à matéria formando um composto, ou de um livro de geometria, onde haja apenas o conceito de cubo.

Ora, se a inteligência humana pode lidar com as formas independentemente da existência dos respectivos compostos no mundo material, isto significa que, diferentemente dos nossos sentidos, a nossa inteligência não tem a matéria como princípio. O seu princípio, portanto, é estritamente formal. Recebemos na inteligência a species que é inteligível, e que é inteligível, como já vimos, por ser uma instanciação material, existente na sua individualidade material, da species que preexiste, com perfeição, na mente de Deus. Se a matéria não é princípio da nossa inteligência, então o princípio da nossa inteligência é pura forma, e, como já vimos em questões anteriores, Deus se caracteriza por ser pura forma. A visão sensível, corporal, portanto, pode ser totalmente explicada a partir dos seus princípios materiais. Mas a visão intelectual não pode. Da matéria não pode brotar uma capacidade estritamente formal. Ela é explicada, então, como uma participação na própria inteligência de Deus. Que a visão intelectual é imaterial, é fácil de perceber, com a seguinte observação: o intelecto pode refletir sobre si mesmo, porque não é material. Não tem o limite da matéria que impede a reflexão.

Daí, São Tomás conclui que, se Deus é o princípio da visão intelectual, ele pode ser visto por ela. Não repugnaria, pois, às potencialidades da visão intelectual, a visão da essência de Deus.

Ocorre que, sendo a inteligência humana apenas uma participação da divina – e não a própria essência da visão divina, ela não pode ver Deus simplesmente por reflexão, olhando para si mesma. Ora, se o princípio da visão intelectual não é a própria essência divina, então para ver a essência divina ela precisaria absorver a forma divina, e como já vimos, não há como conceber que haja uma forma divina com um modo de existência diverso da própria existência divina. Se é divino, é Deus. Como conceber, então, a segunda condição necessária para que haja a visão, qual seja, a presença da coisa vista ao intelecto que vê?

Por isto, para que um intelecto criado possa ver Deus, seria necessário que o próprio Deus se unisse a essa criatura, dando-lhe, digamos assim, olhos divinos para ver a Deus em sua essência. Donde se pode concluir que o intelecto criado tem potencialidade para ver a Deus, mas somente à luz do próprio Deus: ou seja, só a graça nos eleva à visão de Deus. Que é a glória do ser humano. Mas a graça, como sabemos, pressupõe a natureza. Não poderíamos ser elevados, se a nossa natureza humana não tivesse a potencialidade para ser elevada: aquilo que os escolásticos chamam de “potentia obedientialis”. Em conclusão: São Tomás está dizendo que o intelecto criado tem potencial para receber a graça que permitirá a visão de Deus na glória, sem que isto viole a inteligência nem a natureza da criatura. E ele cita o Salmo 36 (35), 10: em vossa luz veremos a luz! Já uma criatura simplesmente sensível, mas não intelectiva, não tem sequer a possibilidade de receber a graça para um dia ver a Deus em essência. Que lamentável para o Totó!

São Tomás passa, agora, a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento, como nos lembramos, cita a Bíblia (1 Jo 3, 2) para afirmar que o veremos tal como ele é. São Tomás diz que de fato será assim, para os que receberem, por graça, a coroação da glória para o intelecto criado: a visão da glória de Deus.

O segundo argumento, retirado de Santo Agostinho, afirma que, quando vemos Deus, forma-se em nós uma representação dele. Isto parece contradizer tudo o que São Tomás diz até agora, mas ele retrucará dizendo simplesmente que Santo Agostinho não está falando, aqui, em ver a essência de Deus, que é exatamente o objeto do nosso artigo. Para São Tomás, Santo Agostinho está tratando apenas da visão indireta, limitada, que temos de Deus nesta vida terrena, antes de entrar na glória.

A terceira objeção é aquela filosófica, que diz que aquele que vê se transforma, em alguma medida, naquilo que é visto, ainda que com outro modo de existência. E que portanto, uma criatura jamais poderia ver a própria essência de Deus, já que isto significaria atualizar-se como divino. Restaria a nós somente o conhecimento indireto de Deus, por representação.

São Tomás responde que, do mesmo modo que as formas se unem aos sentidos e ao intelecto de modo intencional, ou seja, adquirindo um modo de ser próprio do intelecto ao atualizá-lo, e não da coisa assimilada, quando vemos a essência de Deus pelo lume da graça, é a própria essência divina que se une ao intelecto elevado pela graça, atualizando-o pela atualidade plena que é o próprio Deus. De certo modo, ao nos conceder a graça de vê-lo na glória, Deus está nos adotando: está nos dando os seus olhos para poder nos dar a sua essência. Seremos deuses por adoção, por participação, sem perdermos a nossa própria personalidade e sem simplesmente sermos absorvidos na essência divina. Eis uma matemática maravilhosa!