Quando nos deparamos com um artigo como este, é então que nos damos conta de quão complexa é a visão de mundo de Tomás, e quão distante estamos dela. A teoria do conhecimento, ou epistemologia, tomista, é completamente diferente da nossa teoria do conhecimento. São Tomás não leu descartes nem Kant, nem debateu filosofia da mente com dualistas e monistas contemporâneos, mas certamente tem uma epistemologia muito mais sólida, muito mais coerente que a deles. Quando estudarmos a estrutura do ser humano, mais à frente aqui na primeira parte da Suma, teremos a oportunidade de aprofundar. Mas este artigo já representa uma incursão bem forte nesta epistemologia.
Vamos nos lembrar que o mundo, a criação, para São Tomás, não somente é transparente para Deus, como recebe dele toda a inteligibilidade. Neste sentido, quando olhamos para a criação, olhamos para aquilo que antes existe na mente de Deus; conhecer é, assim, participar de algum modo da mente de Deus. O conhecer não está apartado do ser, como na filosofia moderna; tudo o que é tem uma species, termo que vem do latim specere, olhar, de onde vêm os termos especular e espelho. Assim, a espécie é aquilo que se dá ao olhar, seja ao olhar de Deus, que, contemplando sua própria inteligência conhece todas as coisas (em Deus conhecer é causar espécies), seja ao olhar sensível dos animais, seja ao olhar da inteligência de seres humanos e de anjos. Não podemos estranhar o fato de que a palavra ideia, em grego eidos, também vem de idein, que significa “ver”, e que gerou o verbo eidenai, que quer dizer conhecer. Assim, o conhecimento e a visão, seja a visão como sentido, seja a visão intelectual, estão profundamente relacionados. E a inteligibilidade é uma participação criada na própria inteligência de Deus. As espécies, que se individualizam pela matéria, tornam-se visíveis pela sua natureza de species em Deus, ou seja, é porque Deus pensa que nós conhecemos. Conhecer é participar, portanto, da inteligência de Deus. Existir também. Cada indivíduo que existe é a instanciação de uma species que está na inteligência divina, e que se individualiza na matéria. A species é o universal realmente existente numa mente: na mente de Deus, como origem, e na nossa como conhecimento. Em contato com os indivíduos materiais, que são instanciações particulares da species, abstraímos da matéria e recebemos a species em nosso intelecto; esta species está em nosso intelecto do mesmo modo que está na mente de Deus e está nas coisas. Na mente de Deus, ela está como perfeição, como princípio e como fim. Ou seja, é causa exemplar e, portanto, causa final. Na coisa, ela está materialmente, quer dizer, existe em ato mas é perfeita apenas potencialmente, já que a matéria é princípio de potencialidade, e nunca esgota todas as perfeições da forma em cada indivíduo. A mesma species existe em nossa inteligência, por abstração, também de modo derivado e imperfeito, já que nosso conhecimento, embora normalmente seja verdadeiro, nunca é perfeito, já que inteligimos derivadamente assimilando a species a partir de suas instanciações individuais, materiais, sempre imperfeitas.
É certo que quando pensamos em species, pensamos sempre na classificação dos animais da biologia. Mas para a filosofia aristotélico-tomista, não apenas os animais têm species, mas todas as coisas materiais têm-na. E é pela abstração da species das coisas que conhecemos, isto é, chegamos a vislumbrar um fiapo da luz que tem em Deus sua origem.
Podemos dizer, então, que não apenas nosso intelecto é semelhança do intelecto de Deus, porque é capaz de comportar species; também a species é semelhança, de modo derivado, imperfeito e intencional, daquilo que em Deus é princípio de existência e de inteligibilidade: o universal, a própria forma que dá inteligibilidade às coisas materiais.
Não pensemos, porém, que o termo semelhança, aqui, significa aquilo que hoje entendemos por esta palavra. Não é uma cópia, nem uma fotografia, nem um tipo de reprodução mental daquilo que existe na natureza: a species é a mesma, tanto na mente de Deus, quanto nas coisas, quanto, por fim, em nosso intelecto. Seu modo de existência é que é diferente: em Deus existe como universal, como perfeição, como causa exemplar e causa final. Na coisa, existe como causa formal, dando inteligibilidade ao ente. Em nós, existe como intenção, ou seja, a sua existência no nosso intelecto se dá de maneira imaterial, e aponta para as coisas materiais das quais aquela forma é abstraída.
Por sermos essencialmente seres materiais e simultaneamente seres espirituais, a nossa inteligência está, digamos, ajustada para conhecer por abstração a partir das impressões sensoriais que as coisas materiais provocam em nós. Semelhante conhece semelhante. Somos semelhantes à matéria, por sermos matéria, e por isto somos ajustados para conhecer a partir do que é material. Mas somos espirituais, de modo que, a partir do conhecimento do que é material, somos capazes de abstrair e assimilar as próprias formas das coisas, cuja inteligibilidade é espiritual.
A partir destes conceitos iniciais, vamos ao artigo.
Esta problemática é tão distante de nós que a hipótese inicial, com a qual São Tomás quer provocar o debate, não nos causa ímpetos de debater. São Tomás nos propõe a seguinte hipótese controvertida: parece que a essência de Deus é vista pelo intelecto criado através de alguma semelhança (similitudine).
Lembremo-nos de duas coisas: 1. a noção de semelhança a que eu me referi alguns parágrafos atrás; não é cópia, nem reprodução mental, nem nenhuma espécie de desenho ou fotografia da coisa. É a própria species da coisa que está em nós, com um modo diverso de existir com relação à coisa material que a individualiza. 2. Quando São Tomás está falando da essência de Deus, ele está falando de uma maneira de Deus estar nas coisas, ou seja, daquilo que hoje chamamos de onipresença. Como vimos quando estudamos ali, a presença é uma das formas de proximidade entre Deus e as criaturas. As outras duas formas pelas quais Deus está nas coisas é por essência e por poder. Então, quando falamos em alguém que vê a essência de Deus, falamos em alguém em quem, ou para quem, o próprio Deus está, da maneira mais efetiva possível.
De que maneira pode dar-se, portanto, a visão intelectual, espiritual, de Deus para a criatura? A visão intelectual que temos das outras criaturas se dá pela assimilação da species, ou seja, absorvemos em nossa inteligência, de modo intencional, a própria species que é causa formal do ente que conhecemos. E que por sua vez é instanciação particular da species universal que está na mente de Deus. Há uma similitude, em nós, com relação à mente de Deus: a mesma species existe lá como origem e existe em nós como efeito. São semelhantes, por participação.
Mas como conhecer Deus, então? Como conceber que formaríamos a species de Deus em nosso intelecto, de modo a assimilá-lo em nós? Esta é a questão que está em jogo. São Tomás, então, na sua hipótese controvertida inicial, provoca o debate afirmando que é assim mesmo que conhecemos a Deus, assimilando-o a nós pela absorção de sua species, que formaria em nós uma similitude, uma semelhança de Deus em nosso espírito. E ele vai nos dar três argumentos no sentido da sua hipótese objetora inicial.
O primeiro argumento é bíblico: cita-se a Primeira Epístola de São João, 3,2: “Sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é”. Ora, deste versículo o argumento conclui que vemos a Deus mediante alguma semelhança dele que assimilamos intelectualmente. O segundo argumento é patrístico; São Tomás cita Santo Agostinho, que diz: “quando conhecemos a Deus, forma-se em nós certa semelhança [similitudo] dele”. Então, é pela absorção da species, que cria em nós esta semelhança, a maneira própria de a criatura intelectual conhecer a Deus.
E, por fim, o terceiro argumento objetor é filosófico mesmo, e faz uso da epistemologia escolástica. De fato, a epistemologia de Tomás concebe a inteligência como a potencialidade de assimilar a species inteligível, ou universal, da coisa conhecida, assim como concebe os nossos sentidos como a potencialidade para assimilar a species sensível das coisas. Quando os olhos são atingidos pela luz, portanto, a potencialidade de ver as cores se atualiza, ou seja, torna-se efetiva: a cor é vista. Não se trata simplesmente de ser atingido pelos raios luminosos que têm esta ou aquela frequência ondulatória: é a própria cor, na sua natureza qualitativa, ou seja, assim como sua essência existe em Deus, que é vista pelo olho. É a cor que atualiza a capacidade de ver, como é a textura que atualiza a capacidade de tatear, e o som que atualiza a capacidade de ouvir. Com relação à nossa potencialidade intelectual, é a própria semelhança da coisa, em sua species, que atualiza nosso intelecto. Assim, o argumento conclui que o intelecto criado vê a Deus por sua similitude, ou seja, pela semelhança dele que assimilamos em nós.
Os argumentos objetores pleiteiam, portanto, o surgimento de uma certa “forma de Deus” em nós, criada em nosso intelecto como uma forma intencional, com uma existência de razão, uma multiplicação de Deus como o nosso conhecimento representa, de certa maneira, uma multiplicação da species da coisa conhecida. Conheceríamos Deus pela criação da sua forma em nosso intelecto de maneira participada e intencional. Este conhecimento não seria, portanto, uma certa forma de Deus estar em nós, mas o surgimento de uma forma criada em nós, assimilada em nós, que seria semelhante a Deus. No caso das criaturas, não há problema em que a mesma species se multiplique na matéria e nas inteligências, em diversos modos de existir. Mas em Deus isto seria um problema: a essência de Deus é existir; como conceber a existência da própria forma de Deus em nosso intelecto criado, de uma maneira diferente da própria existência de Deus, se em Deus a essência e a existência são indissociáveis em absoluto?
Como argumento sed contra, São Tomás nos traz um argumento patrístico retirado de uma citação bíblica. A partir da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, 13, 12 (“Agora vemos em espelho e de maneira confusa [enigmática]”), Santo Agostinho comenta: “os termos espelho e enigma designam quaisquer semelhanças aptas a nos levar ao conhecimento de Deus”. Mas ver Deus essencialmente, quer dizer, tê-lo efetivamente presente à nossa inteligência, não é vê-lo por espelhos e confusamente, enigmaticamente; portanto, não é por semelhança [similitudines] que o conheceremos em essência. Enquanto estivermos vendo apenas semelhanças, ou seja, species que se criam em nossa inteligência, o nosso conhecimento de Deus é indireto; é certo que Deus está sempre maximamente em nós, presente a nós que somos suas criaturas. Não se faz, porém, essencialmente presente em nossa inteligência, enquanto tivermos apenas semelhanças, formas intencionais, species, nela. Usando uma analogia para esclarecer, somos como um cientista que estudou tudo sobre a cor vermelha, mas pessoalmente está preso num quartinho escuro e monocromático, de onde nunca saiu. Pode até colecionar todas as informações sobre o vermelho, mas nunca viu nada vermelho na vida. Não pode dizer que conhece essencialmente a cor vermelha ainda. Esta é nossa situação. Mal comparando, quando colecionamos informações, semelhanças e analogias sobre Deus, mas não o temos essencialmente em nosso conhecimento ainda.
Teremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto.
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