O debate agora é saber em que sentido podemos compreender a unidade de Deus. Será que podemos falar de unidade, em Deus, no mesmo sentido que falamos da unidade nas criaturas? Já vimos, nos outros artigos, que a unidade, como indivisibilidade, é um transcendental do ser, e por isto ela se apresenta substancialmente em todos os seres.

Quando estudamos outros atributos de Deus, sempre nos deparamos com um artigo em que São Tomás debatia em que sentido aquele atributo se predicava de Deus. E sempre concluímos que o atributo se predicava propriamente de Deus, e apenas analogicamente das criaturas. A situação é similar aqui, com uma peculiaridade: os outros atributos, que em Deus são substanciais (a bondade, a infinitude, a onipresença, etc), são acidentais nas criaturas. No caso da unidade, não é assim. Como vimos quando estudamos o artigo 1 desta questão, toda criatura é una por essência, porque só é um ente na medida que está inteiro. Assim, a indivisibilidade está nas criaturas substancialmente, e não acidentalmente, como é o caso dos outros atributos. Um copo quebrado já não é um copo, senão como memória; perdendo a unidade, virou uma pilha de cacos de vidro.

O debate, então, segundo São Tomás, se estabelece quando alguém resolve propor a seguinte hipótese: parece que Deus não é a suma unidade. Ou, diríamos, parece que Deus não é a própria unidade no seu sentido mais absoluto [maxime unus, diz São Tomás].

São três os argumentos para negar que Deus seja a suma unidade, ou seja a unidade no seu sentido máximo. O primeiro argumento objetor parte da noção de indivisibilidade. O argumento afirma que não há graus de indivisibilidade: ou uma coisa é indivisa, ou não é. A noção de indivisibilidade não se sujeita a graduação; ou, como diz São Tomás, a indivisibilidade não aceita o mais e o menos. A indivisibilidade seria, assim, como a morte: não há como pensar em alguém mais morto ou menos morto: ou se está vivo, ou se está morto, sem gradação possível entre os dois estados. Portanto, se não há gradações de indivisibilidade, não se pode afirmar que Deus é mais indivisível do que qualquer ente, e, não havendo gradação possível na indivisibilidade, tampouco seria possível graduar a unidade. E o argumento conclui dizendo que não se poderia afirmar que Deus seria mais uno do que qualquer ente indiviso.

O segundo argumento lembra que há coisas que são indivisas em ato, mas são divisíveis em potência, como os entes materiais. Mas há entes que, por sua própria natureza, são indivisos em ato e indivisíveis em potência, vale dizer, são indivisos e sequer podem ser divididos. Exemplo disso seria o ponto, esta entidade geométrica sem dimensões. O ponto é indivisível por definição. Também a unidade, na matemática; ela é indivisa e indivisível por definição. E o argumento conclui que estas duas entidades, a unidade na matemática e o ponto na geometria, sendo indivisos em ato e indivisíveis mesmo em potência, também estão no grau máximo de unidade. Assim, não se pode afirmar que Deus tem a indivisibilidade em grau máximo, porque há, pelo menos, dois outros entes que estão na mesma situação.

O terceiro argumento lembra que, quando discutimos a bondade como transcendental do ser, vimos que aquilo que é bom por essência seria bom em grau máximo. Então poder-se-ia concluir que aquilo que é uno por essência também é uno no sentido máximo. Mas neste passo o argumento cita o Filósofo (que, como já sabemos, é Aristóteles) para afirmar que todo ente é uno por essência. Então, conclui o argumento, todo ente é uno ao máximo, e portanto ser uno ao máximo não é um aspecto próprio apenas de Deus.

São Tomás cita, agora, como argumento sed contra, São Bernardo, que diz: “entre tudo aquilo que se diz uno, a unidade da Divina Trindade ocupa a posição mais elevada”. Se São Bernardo afirma tão categoricamente a unidade como absoluta apenas em Deus, então os argumentos anteriores não podem ser simplesmente admitidos. É hora da resposta sintetizadora de São Tomás.

São Tomás passa, então, a estabelecer as condições para que se pudesse falar numa “suma unidade” de algo. O uno é um transcendental do ser; portanto, dizer uno é dizer ente sob a razão da indivisão.

Para que alguma coisa fosse sumamente una, portanto, seria preciso que fosse, a um só tempo, sumamente existente e sumamente indiviso.

Que Deus é o sumamente existente, já sabemos. Sua essência é existir; ele não recebe a existência de outra coisa nem de outro lugar: a existência é a própria essência de Deus. Se é assim, isto significa que em Deus a essência não é uma particularização da existência, como é nas criaturas. U cão existe de uma maneira limitada: existe como cão. É com a sua caninidade que ele recebe a existência, ou seja, um cão não existe como qualquer coisa, mas definidamente como cão. Uma pedra existe como pedra, e não como baleia. Pode-se dizer que a essência contrai a existência, dando-lhe modo e limite. Em Deus não é assim: ele existe como existente, a sua existência não está contraída por uma essência qualquer; a sua essência é existir. Então ele é a plenitude da existência, característica que, como já vimos ao longo dos nossos debates, ele não compartilha como nenhum outro ser. A primeira condição para ser a suma unidade está posta, então.

A segunda condição seria a indivisibilidade absoluta. Ora, Deus é simples, como estudamos na questão 3 da Suma. Sendo absolutamente simples, não há como pleitear nenhuma divisão em Deus, nem em ato, nem sequer em potência. E São Tomás conclui: ele é ao máximo indiviso e indivisível. Condição que ele tampouco compartilha com qualquer outro ser. A segunda condição para ser a suma unidade está posta. Pode-se afirmar, então, que Deus é a suma unidade.

São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é aquele que diz que a indivisibilidade não tem gradações; logo, a unidade também não poderia tê-las, de modo que se pudesse afirmar de algum ser que ele é a suma unidade.

São Tomás nos explica que, embora uma privação não seja suscetível de gradações, pode ser que seu contrário o seja. Um exemplo ajudará a tornar claro: de fato, não há gradações em estar morto, isto é, a morte é a simples privação da vida. Mas a vida, cujo ápice é a boa saúde, pode ter gradações: eu posso estar vivo, mas gravemente doente. Neste sentido, eu posso dizer que um ser que não está privado da vida pode sujeitar-se a gradações de saúde: sumamente vivo seria um ser com saúde perfeita, enquanto um ser vivo muito doente não estaria vivo no mesmo grau do que aquele perfeitamente saudável.

Assim, o sujeito que não está privado da unidade, analogicamente ao que não está privado da vida, pode ter gradações na sua indivisibilidade: pode estar completamente indiviso, ou mesmo pode ter sofrido alguma divisão acidental; ou pode ser potencialmente divisível, conforme tenha extensão material. Assim, é possível considerar um bem mais divisível ou menos divisível, e portanto é possível afirmar que um ser é sumamente indivisível: uno ao máximo.

O segundo argumento afirma que o ponto e a unidade são indivisos e indivisíveis por essência, logo também são sumamente unos, e esta não seria, portanto, uma característica apenas de Deus. São Tomás responderá de modo curto e grosso: o ponto e a unidade nem sequer são entes substanciais, senão apenas entes de razão ou, no máximo, acidentes de outra coisa. Ora, se nem sequer o sujeito de acidentes, ou seja, a própria substância, é indivisível no grau máximo, porque é composta por si e por seus acidentes, como se poderia afirmar que um mero acidente possa ser sumamente indivisível, quando ele nem sequer pode ser dito como um existente, um ente em sentido próprio?

O terceiro argumento é aquele que, fazendo um paralelismo entre o bem e o uno como transcendentais do ser, afirma que, se todo ente que é bom por essência é sumamente bom, logo todo ente que é uno por essência é sumamente uno. Então todo ente é sumamente uno.

São Tomás responderá que de fato todo ente é uno por essência, porque se não estiver essencialmente indiviso, não é um ente. Mas isto não significa que toda essência seja igualmente indivisível: aquelas essências que comportam composição (como toda essência criatural) são potencialmente divisíveis, enquanto uma essência sumamente simples seria sumamente indivisível, e portanto sumamente una. Provado está, portanto, que só Deus é uno no sentido excelso da palavra.

A próxima questão e a questão 12. Longa, complexa e profunda. Ficaremos muito tempo nela, creio. Paz de Cristo a quem conseguiu chegar até aqui, além da Beatriz! :-)))