Esta é uma questão peculiar no interior do chamado “Tratado de Deus Uno” da Suma. Esta parte trata basicamente dos atributos de Deus, na sua unidade. Não há, é claro, esta diferença real entre Deus uno e Deus trino. É o mesmo Deus. A diferença é pedagógica apenas: trata-se de estabelecer uma ordem que respeita o modo de funcionar da inteligência humana, incapaz de discorrer sobre o assunto com a simultaneidade que o objeto exigiria.

Uma consequência muito interessante, e que foi um resultado um tanto inesperado (para mim) de passear nesta visita turística que estamos fazendo à catedral que é a Suma, é que, ao ler as coisas que São Tomás escreveu sobre Deus, eu pude entender melhor sobre mim mesmo, e sobre a criação em geral. É genial a forma com que São Tomás discorre: há uma interligação geral, que de um lado dificulta acompanhar o raciocínio dele (já que uma parte das informações necessárias para compreender as questões só serão esgotadas nas questões seguintes) mas de outro lado nos dá a exata sensação de que aprofundar um aspecto da Suma é aprofundar no conhecimento de tudo. Olhar uma salinha desta catedral de certa forma nos insere no prédio todo.

No caso desta questão 12, poderíamos dizer que há um giro antropológico na caminhada: é como se entrássemos num desvão da Suma em que nos é oferecido um espelho, ou um par de óculos melhores, para que reflitamos sobre a forma com que a Suma é olhada por nós. Esta é, portanto, uma questão de natureza gnoseológica, para usar anacronicamente uma terminologia que São Tomás não conheceu. Refletiremos, aqui, não tanto sobre como Deus é, mas sobre como nós o conhecemos. Trata-se, pois, de uma abordagem que, de certo modo, é muito moderna, a preocupação sobre os limites da capacidade humana de conhecer e a validade do nosso conhecimento. Esta não é uma preocupação estritamente pós kantiana, portanto. Está presente desde as discussões mais antigas, em sofistas como Górgias, e em filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. Santo Agostinho e São Tomás retomarão esta discussão, e toda a escolástica se preocupou com ela.

A diferença de abordagem, no entanto, da filosofia escolástica para a filosofia idealista pós-kantiana, é que os escolásticos partem de dois pressupostos que são diferentes dos pressupostos da filosofia moderna e contemporânea: eles partem do princípio de que o ser antecede o conhecer, e o conhecer pressupõe o ser. A crítica kantiana do conhecimento, no entanto, antecede ao ser, e de certa forma condiciona a própria relação do ser com o conhecedor. Conhecer, para os modernos e contemporâneos, não é refletir sobre as coisas que te interpelam, mas pensar sobre os objetos, sobre as ideias que formamos em nossa mente. Criticar o conhecimento, hoje, não é mais uma reflexão, mas é um ponto de partida. A filosofia, na nossa contemporaneidade, não nasce mais do espanto, mas constrói-se a partir do pensamento do filósofo. Cada filósofo contemporâneo reescreve o Livro do Gênesis sob a pressuposição de que é ele próprio quem deve pronunciar o fiat fundamental que criará o mundo.

Para São Tomás não é assim: ele se percebe uma criatura no meio das criaturas, e sabe que as coisas o antecedem e o interpelam antes mesmo que ele possa pensar. Se há um fiat, ele sabe que não foi ele que o pronunciou. A sua filosofia, então, parte da interpelação que o mundo faz ao filósofo, e caminha em busca dos fundamentos últimos para este mundo. E, nesta caminhada, faz as paradas para refletir a respeito de si mesmo, dos equipamentos cognitivos que a natureza colocou à sua disposição para conhecer o dom que a natureza é, e tatear em busca do fundamento último para este dom: conhecer Deus. E a razão, em Tomás, não despreza, de antemão, a possibilidade de que Aquele mesmo que nos fez o dom da natureza possa nos doar também a graça de encontrá-lo. A razão, interpelada por uma realidade da qual ela não é fundamento, considera perfeitamente razoável que o próprio fundamento da natureza, tendo feito dela um dom para nós, possa doar-se a si mesmo, revelando-se sobrenaturalmente de modo a tornar completo o conhecimento que temos sobre ele naturalmente. Talvez São Tomás tenha uma posição mais sólida do que a nossa.

E quais os instrumentos que temos, em nós, para receber esta interpelação natural, e mais, para nos abrirmos à revelação sobrenatural? Este é o objeto desta questão que vamos debater. Há nada menos do que 13 artigos, que cobrirão um leque imenso de reflexões sobre a capacidade da nossa inteligência de descobrir os fundamentos da realidade em Deus, seja pela reflexão natural, seja pela revelação sobrenatural, caminhos complementares, é certo, mas nunca contraditórios entre si. Refletir sobre estas questões tem, ademais, a vantagem de nos prevenir contra enganos e erros, culposos ou dolosos, que podem nos enredar em matéria tão importante: descobrindo os limites e os caminhos da nossa própria inteligência não necessariamente nos levará pelo caminho certo, uma vez que o caminho certo só se abre pela graça. Mas nos ajudará a reconhecer os caminhos errados, e preparará adequadamente o terreno da nossa inteligência para que o Bom Semeador possa fazer seu trabalho de modo frutífero.

Os temas a serem estudados são fascinantes. Debateremos se a nossa inteligência criada pode ver a essência divina, e por quais processos. Se a essência divina está ao alcance dos nossos olhos materiais, ou mesmo das nossas potências cognitivas sensoriais e intelectuais. Também debateremos com São Tomás se algumas pessoas podem chegar a uma visão de Deus mais perfeita do que outras, se esta visão possibilitará que compreendamos a essência de Deus e vejamos nela a nós mesmos e à criação, se obteremos, nesta visão, a simultaneidade de olhar que caracteriza a eternidade, como já estudamos na questão 10. Se é possível ver Deus ainda durante a nossa caminhada terrena, e se poderemos esperar vê-lo apenas com a nossa inteligência natural, ou se a graça é necessária para conhecê-lo, ou ao menos para conhecê-lo melhor.

Não é fácil caminhar pela teoria do conhecimento humano de São Tomás, que na verdade ele só enfrentará de modo mais completo quando estudar o próprio ser humano, no tratado antropológico desta Primeira Parte, questões 75 e seguintes. Não entenderemos tudo ainda, e muita coisa será bem difícil, porque a gnoseologia que dispomos hoje, e que usamos mesmo sem refletir muito, é completamente diversa daquela de Tomás. Mas tenhamos paciência com ele – e mais ainda comigo. Ficaremos muito tempo, creio, nesta questão 12.