No texto anterior, vimos como a unidade como indivisão é fundamental, tanto para compreender a pluralidade, quanto para entender os números. Neste sentido, como transcendental do ser, a matemática passa a ter um lastro ontológico em Deus, indiviso na sua simplicidade, indiviso por essência, como veremos nos próximos artigos desta mesma questão. Por ora, lembremo-nos que a pluralidade, para São Tomás, está baseada numa privação, que é a privação da completude. Neste sentido, a pluralidade só pode ser compreendida como algo que em algum momento habita a unidade e se reduz a ele, como o mal só pode ser compreendido como algo que habita o bem e, no limite, se refere a ele. O mal é um parasita do bem, como a pluralidade é uma privação do uno.
Vimos, no final do texto anterior, na resposta sintetizadora de São Tomás, que a unidade se opõe à pluralidade em dois sentidos: 1. Como fundamento de medida, a unidade se opõe à pluralidade como a medida se opõe ao que é medido. Sim, porque a pluralidade tem suia medida na unidade: nada mais é a pluralidade do que um conjunto de unidades, e é sempre na unidade que ela se mede. A unidade, que é critério de medida, portanto, é que dá inteligibilidade à pluralidade, transformando-a num conjunto. E 2. A unidade como indivisão, como inteireza entitativa, se opõe à pluralidade como fragmentação. Neste sentido, é a pluralidade que apresenta uma privação: a privação de inteireza, de individualidade.
Agora, vamos examinar as respostas que São Tomás dará aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor, como nos lembramos, é aquele que estabelece como princípio lógico a afirmação de que não se pode predicar de uma coisa aquilo que lhe é contrário. E o argumento prossegue, lembrando o artigo anterior, que toda pluralidade tem um princípio unificador em algum ponto. Assim, toda pluralidade de coisas é, sob algum aspecto, uma. É, diríamos, a unidade do conjunto, o critério que unifica seus elementos sob a mesma razão. Então o argumento nega que a unidade seja oposta à pluralidade.
São Tomás, na sua resposta, esclarecerá que a pluralidade, como já vimos, é sempre uma privação, a privação da inteireza, da completude e da indivisão. Mas qualquer tipo de privação é sempre a negação de algum aspecto no sujeito; vamos a um exemplo, para tornar as coisas mais claras. Se eu tenho um buraco na minha camisa, este buraco é uma privação da inteireza da camisa; mas o buraco tem que ser sempre menor do que a própria camisa: se o buraco consome a camisa inteira, então o próprio buraco deixa de existir. É por isto que São Tomás dirá que toda privação é sempre algo num sujeito. É por isto que a privação de um aspecto acidental do ser pode ser absoluta: pode haver alguém absolutamente cego, mas não pode haver alguém que absolutamente não exista.
É neste sentido que São Tomás nos diz que, uma vez que a unidade é um transcendental do ser, a privação da unidade é sempre relativa ao transcendental que ela nega, e jamais pode ser absoluta: do mesmo modo que o buraco absoluto não pode existir, porque todo buraco é sempre um buraco em alguma coisa, então também a pluralidade absoluta jamais pode existir, porque toda pluralidade é sempre a multiplicação de alguma unidade, seja pela reunião de diversos indivíduos, seja pela fragmentação de um indivíduo que era uno.
Em qualquer caso, há um critério, baseado na unidade originária, que é capaz de dar consistência à pluralidade. No caso da multiplicação dos indivíduos, teremos um conjunto qualquer que se unifica pel0o que seus elementos têm em comum; seja este conjunto formado por indivíduos reunidos pela espécie, ou pelo gênero, ou pela condição criatural. No caso da pluralidade formada pela fragmentação de um indivíduo, o conjunto se unifica pela origem: seus elementos são os pedaços de um mesmo ente. É por isto que São Tomás diz que toda pluralidade é uma certa unidade. Assim como o mal é um certo bem e o não-ser, um certo ser. Vale dizer, o mal só existe na medida que se dá num ente cuja existência é boa. O não-ser só pode existir como potencialidade num ser cuja existência está em ato.
Ainda assim, mesmo sabendo que os opostos de certa forma se resolvem naquele que é fundamento da oposição, não podemos predicar um do outro. Não se pode chamar de bom o que é mau, nem chamar de inteiro o que está quebrado. E há uma razão para que seja assim: o que é bom absolutamente não é mau sob nenhum aspecto, mas o que é mal absolutamente será sempre bom sob algum aspecto, diverso daquele que torna a coisa má. É por isto que a existência do diabo é um bem: ele é um anjo, e foi criado por Deus, e Deus não faz o mal. A sua existência, em si, é um bem. Mas a sua escolha é absolutamente má, porque ele escolheu contra Deus de modo total e irreversível. Assim, não posso chamar de boa a escolha do Diabo, nem de má sua existência. Do mesmo modo, não posso chamar de uno o que é plúrimo naquilo que constitui sua pluralidade, nem posso chamar de plúrimo o que é uno naquilo que constitui sua unidade. Neste sentido, estes são conceitos opostos, e não podem ser predicados um do outro.
A segunda objeção é a que afirma que a unidade e a multiplicidade não podem ser opostos, porque a multiplicidade é composta de unidades. Enfim, São Tomás responderá que há dois modos pelos quais a unidade se estabelece naquilo que é potencialmente divisível: ou o todo, que é a unidade, é homogêneo, ou é heterogêneo.
Se o corpo é homogêneo, isto significa que o todo tem sempre a mesma forma que suas partes: um pouco de água é água, como muita água também é água. Neste caso, a água, como corpo, é sempre um contínuo, e sua medida se dá como um mero fato de razão: mil litros de água são água, como um litro de água é água. Aqui, não se pode imaginar as partes da água como unidades, senão de modo estritamente virtual.
Nas coisas heterogêneas, porém, as partes não têm a mesma forma do todo. Assim, de certa forma, há uma individualidade nos componentes dos corpos heterogêneos, que lhes dá unidade até serem integrados na forma superior. As partes de uma casa não são casa; são tijolos individuais, sacos de cimento, pedras individuais, tábuas de madeira individuais, que, reunidas pelo engenheiro, incorporam-se na composição que é a casa, perdendo nela sua individualidade e ganhando a forma superior de casa. Neste sentido, pode-se dizer que os seres heterogêneos são pluralidades compostas de indivíduos; no entanto, adquirem sua entidade na unidade superior que as torna um novo ente – a casa.
Neste sentido, enquanto os indivíduos que formam o todo existem em si mesmos, eles são plúrimos, uma mera coleção de materiais de construção. Mas quando, reunidos, formam a casa, deixam de ter sua própria individualidade de partes e adquirem uma nova unidade, mais alta. Então podemos concluir que eles são plúrimos exatamente ali onde não são unos, mas uma mera reunião de indivíduos. E vice-versa, são unos ali onde são integrados numa nova forma superior, deixando de lado sua individualidade anterior. Ou seja, este argumento não exclui a oposição entre unidade e pluralidade.
O terceiro argumento opõe um indivíduo a outro, e o muito ao pouco, para dizer que a oposição real não é entre o individual e o plúrimo, senão dos indivíduos entre si, e do que é muito ao que é pouco.
São Tomás responderá que há duas maneiras para se entender o múltiplo. A primeira é absoluta: o múltiplo é aquilo que está dividido, que foi privado da sua inteireza ontológica. Neste sentido, plural é aquilo que perdeu sua individualidade. É neste sentido que o plúrimo se opõe ao uno. Mas há uma outra oposição, que caracteriza o plúrimo como aquilo que está multiplicado, que existe em quantidade, cuja medida é sempre maior que a unidade. Plúrimo, aqui, tem sentido de abundante, de muito. Neste sentido, de fato a pluralidade se opõe ao pouco, porque não se pode chamar de plúrima a medida dos elementos de um conjunto vazio, por exemplo.
O quarto argumento, afinal, é aquele que estabelece um círculo vicioso entre as definições de unidade e de multiplicidade. São Tomás estabelecerá, então, uma ordem adequada entre o uno e o múltiplo, para evitar este círculo vicioso de definições.
São Tomás diz que nossa inteligência, que é proporcionada ao que é composto, parte do múltiplo, como aquilo que é dividido, e apreende o uno como privação: o uno, individual, íntegro, é aquilo que é privado de divisão. É assim também que compreendemos o ponto, a partir da linha e do plano, como algo que não tem partes, ou seja, como uma privação de partes, quando na verdade, sendo indivisível e sem dimensões, o ponto é o princípio da linha e do plano. Não devemos confundir, portanto, a ordem com que nosso intelecto apreende as realidades – do composto para o simples – com a ordem intrínseca da própria realidade, que é do simples para o composto.
No entanto, ele prossegue nos afirmando que, mesmo para a nossa razão, entendemos a multiplicidade a partir do uno, porque somente compreendemos que as coisas sejam múltiplas exatamente porque atribuímos a unidade a cada um dos componentes da pluralidade.
É por isto que, embora nós falemos da unidade como indivisa, dando a impressão de que é a pluralidade, na divisão, a realidade mais fundamental, é a unidade quem estabelece o padrão para a definição de pluralidade, e não vice-versa. E a divisão, assim, é apreendida como a negação do ente, pela perda da sua individualidade constitutiva: primeiro aprendemos que isto aqui é um copo, depois aprendemos o que são cacos de vidro!
São Tomás estabelecerá a ordem gnoseológica, ou seja, a ordem pela qual nós aprendemos as noções de unidade e de pluralidade. A primeira coisa que aprendemos é o ente: as coisas nos interpelam, porque preexistem à nossa inteligência. Depois aprendemos que esta coisa aqui não é aquela coisa ali, e portanto aprendemos que a realidade é fragmentária, e portanto plural. Em terceiro lugar, percebemos que esta coisa aqui tem uma individualidade, que a torna distinta de todas as outras coisas: é o uno, como transcendental do ser. E, por fim, aprendemos que a distinção entre as coisas individuais constitui-se em multiplicidade de coisas.
E assim terminamos mais um artigo árido da Suma, embora, paradoxalmente, ele esteja cheio de água!
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