Estamos na velha questão do uno e dos muitos, que vem desafiando a filosofia – e a teologia – desde Parmênides e Platão. Como é possível que haja uma pluralidade de seres? De onde vem tal pluralidade? O que é isto que os unifica, que os torna todos relacionados entre si? O que é que, em última instância, unifica todo o ser e o que é que causa sua multiplicação sem romper a sua unidade? São questões difíceis, e São Tomás não temerá enfrentá-las aqui. Então, o que está em jogo aqui é a relação entre o uno, a unidade, compreendida como indivisão e como numeração, por um lado, e a pluralidade, compreendida como fragmentação e como multiplicidade, do outro. Esta questão é importantíssima, portanto, para estabelecer a verdadeira noção de unidade em Deus e compreender como a medida da unidade, que é quantitativa, pode nascer da unidade de Deus, que é qualitativa – representa a indivisão. É neste sentido que a unidade é conversível com o ser e com o bem, e portanto representa a totalidade. E é neste sentido que a pluralidade é uma certa privação, a privação da indivisão, e é imperfeita, como o mal é uma privação do bem.

E é por isto que a pluralidade é sempre redutível a uma unidade, como o mal é redutível ao bem do qual ele é privação. Toda pluralidade se unifica, como vimos no texto anterior, ou num ente composto, como a substância está para os acidentes e as partes estão para o todo, ou num conjunto, em que os elementos estão unificados por algum critério específico ou genérico. A pluralidade absoluta, como o mal absoluto, é impensável.

Há, aqui, também mais um admirável exemplo da dialética tomista. Não só na construção do seu raciocínio, mas na própria caminhada do seu debate, ele vai mostrar, num apanhado de teses e antíteses, como o próprio problema do uno e do múltiplo pode ser resolvido como um problema de tese e antítese, com a indivisão servindo como princípio e como síntese final. Magistral.

São Tomás começa propondo que quem quer debater esta questão propõe a seguinte hipótese: não há oposição entre o que é uno e o que é múltiplo. E apresentará quatro argumentos objetores, que tentarão provar que na verdade não existe esta oposição entre uno e múltiplo. São argumentos sutis, que, respondidos, constituirão uma base para o fundamento teológico e metafísico não somente da unidade de Deus, mas da própria matemática, no sentido damultiplicidade da criação e sua mensurabilidade. Nesta questão, como em tantas outras, nós podemos admirar a integridade da síntese tomista, que transita entre o teológico, o metafísico, o matemático e o científico de modo gracioso e integrado, dando conta, de uma vez, dos dados revelados, dos dados filosóficos, das abstrações racionais e do mundo empírico dentro do mesmo contínuo de reflexão. Não é à toa que a metáfora da catedral, para a Suma Teológica é tão adequada.

O primeiro argumento objetor afirma uma regra lógica: nenhum oposto pode ser predicado daquilo que se opõe a ele. Mas tudo o que é múltiplo resolve-se em alguma unidade superior, como foi visto no artigo anterior. Seja esta unidade um ente, seja ela um conjunto que reúne diversos elementos sob o mesmo critério. Ora, se todo múltiplo se resolve numa unidade que o sintetiza, então o argumento conclui que não se pode dizer que a unidade se opõe à multiplicidade. Este argumento, então, admite que, se há possibilidade de uma síntese superior entre a tese e a antítese, isto quer dizer que no fundo a tese e a antítese não são opostas entre si, mas de alguma forma são idênticas. Há, aqui, a negação da dialética pela presunção de identidade entre os opostos.

O segundo argumento também tem natureza lógica. Afirma, como princípio, que nenhum oposto é constituído por seu oposto. Ora, o argumento constata que o uno constitui a multiplicidade, como seu princípio. Então, não há entre eles uma relação de oposição, mas de derivação.

O terceiro argumento opositor quer deslocar a discussão de lugar. Ele afirma que aquilo que é um, ou seja, que tem em si a individualidade, opõe-se a outra coisa que também é una, ou seja, o que na verdade representa uma oposição é aquela de um indivíduo a outro indivíduo. Os conjuntos têm outra oposição, não baseada na distinção da individualidade, mas da quantidade: o muito se opõe ao pouco, como os conjuntos de número infinito de elementos podem se opor aos conjuntos vazios. Assim, a verdadeira oposição seria entre os indivíduos, por distinção; ou, ainda, entre os conjuntos, por quantidade. Logo, segundo este argumento, não há verdadeira oposição entre a unidade e a pluralidade.

O quarto argumento tenta estabelecer um círculo vicioso entre a definição de uno como indivisão, por um lado, e a definição de múltiplo como conjunto de unidades, por outro. O argumento afirma que, se o uno é uma indivisão, então ele está sendo definido como uma síntese de múltiplos. Logo, a definição de unidade, para este argumento, pressupõe a noção de multiplicidade. Mas, diz ele, ocorre que a própria definição de multiplicidade pressupõe a noção de unidade, porque a multiplicidade é definida como um conjunto de unidades. Assim, se admitirmos a oposição entre a unidade e a multiplicidade, caímos num círculo vicioso, em que os conceitos de cada uma destas noções pressuporá o conceito da outra. Logo, o argumento conclui que não há oposição entre a unidade e a pluralidade.

Como argumento sed contra, São Tomás trará o próprio conceito de oposição: opostas são as coisas cujas razões são opostas. A razão da unidade contém a indivisão, e a razão da multiplicidade contém a divisão. Logo, a unidade e a pluralidade são opostas.

São Tomás inicia sua resposta sintetizadora afirmando o seguinte: o uno e o múltiplo são, de fato, noções opostas, mas não por uma razão só. São duas as razões de oposição, exatamente porque o a noção de uno traz em si duas noções, uma derivada da outra: a noção de indivisibilidade e a noção de quantidade. A noção de indivisibilidade é o princípio da própria noção de quantidade, já que é contando os indivíduos que surge a própria noção de medida. Assim, são duas as oposições entre o uno e o múltiplo, segundo São Tomás;

1. A unidade, como princípio quantitativo, se opõe à multiplicidade quantitativa, como a medida se opõe ao que é medido – é uma oposição entre o que principia e o que deriva. De fato, a unidade é o princípio da medida, e a multiplicidade nada mais é do que a pluralidade medida pela unidade.

2. A unidade, como negação da divisão, é conversível com o ser. Assim, ela se opõe à pluralidade como o indiviso se opõe ao que é dividido. Neste sentido, a pluralidade representa uma privação, a privação de inteireza existencial, de integridade, de totalidade no ser. Representa, pois, aquilo que em si não tem individualidade, e portanto não existe como ente. Assim, a pluralidade se opõe, de certa forma, ao ser, porque aquilo que não tem inteireza não existe como ente. É por isto que o conceito de pluralidade, (como o conceito de mal, que se opõe a outro transcendental do ser, o bem) é relativo ao transcendental que a ele se opõe, e portanto nunca haverá a pluralidade absoluta: há sempre, em alguma altura, uma síntese que unifica aquilo que é plúrimo numa certa unidade, como vimos no artigo anterior. Isto ficará mais claro na resposta ao primeiro argumento objetor, de que trataremos no próximo texto.