No texto anterior, vimos a hipótese debatida, de que a unidade “acrescenta alguma coisa ao ser”, ou seja, que ela se constitui numa noção que tem uma distinção, na ordem das coisas, relativamente à noção de ser, e portanto, não é uma verdadeira noção transcendental do ser. Foram três os argumentos adversos. O primeiro argumento parte da afirmação de que a unidade é o princípio da quantidade, e portanto se insere no gênero do acidente “quantidade”. Ora, se é do gênero da quantidade, não pode ser um transcendental.
O segundo argumento contrapõe unidade a multiplicidade, como noções que dividem entre si a noção de ser; o subconjunto dos seres unos estaria contraposto ao subconjunto dos seres múltiplos, e portanto a noção de uno não se aplicaria a todos os seres. Ele estaria fora, portanto, da condição de transcendental do ser. O terceiro argumento afirma que, se a noção de unidade não acrescenta nada de real à noção de ser, então ter-se-ia forçosamente que concluir que as noções de “ente” e de “uno” seriam sinônimas, e falar que o “ente” é “uno” seria uma simples redundância, uma tautologia. Ora, este argumento diz que obviamente a expressão “o ente é uno” não é tautológica, então estas duas noções separam-se por alguma diferença real; logo, para este argumento, o uno não é um verdadeiro transcendental do ser.
Vimos também que São Tomás cita o [pseudo] Dionísio, que diz que não há nenhum ente que exista e não seja uno, ou seja, não há entre estas duas noções uma diferença real, e elas têm a mesma extensão. Agora visitaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
São Tomás nos afirma, logo de saída, que a noção de “unidade” não acrescenta nenhuma coisa à noção de ser; apenas ressalta a negação da divisão de todo ente. Dizer que um ente é uno, como explica São Tomás, significa afirmar que ele é indiviso. A noção transcendental de unidade, portanto, não envolve quantidade, mas inteireza, indivisão, identidade substancial. É neste sentido que o ente e o uno são convertíveis entre si, ou seja, são transcendentais do ser: eles designam exatamente a mesma realidade, mas sob pontos de vista diferentes.
São Tomás nos relembra que os entes dividem-se em simples e compostos, conforme sejam seres materiais ou imateriais. Os seres simples não têm composição material, são puras formas. Não se pode dividir uma forma. Imaginemos, por exemplo, a forma do triângulo; uma figura geométrica cuja soma dos ângulos internos é 180°. Eu posso até dividir o desenho de um triângulo em dois triângulos menores, mas neste caso eu estou dividindo apenas uma representação material do triângulo, não a própria forma conceitual do triângulo. Dividir o próprio conceito de triângulo é impossível. É neste sentido que São Tomás nos diz que os seres simples são indivisíveis tanto atual quanto potencialmente: não dá para dividi-los de fato (atualmente) porque eles não são divisíveis nem em tese (potencialmente). Na categoria dos seres imateriais, e portanto indivisíveis, estão o próprio Deus, os anjos e as almas dos humanos que já morreram.
Mas com os seres materiais é diferente: eles se apresentam sempre como indivisos, mas podem ser divididos. Ou seja, todo ser material é potencialmente divisível, porque sua origem se dá sempre por composição; há muitas coisas separadas que, reunidas sob certa ordem, adquirem unidade sob a forma superior que os identifica. Pensemos numa casa sendo construída: a areia, o cimento, as pedras, o metal, as tintas, os pisos, os canos, os fios, nada disso forma uma casa enquanto não se submete ao projeto e sua execução. Depois de construída, estas coisas são absorvidas pela forma da casa, que as unifica sob a razão de uma nova unidade: a da casa. Enquanto a casa existir, seus materiais de construção estão incorporados, perderam a individualidade. Quando a casa for demolida, ela perde a unidade, e os materiais voltam a existir, como entulho. Um monte de entulho não é mais uma casa, porque perdeu sua unidade e, portanto, sua forma substancial. E São Tomás conclui: todo ente conserva seu ser enquanto conserva sua unidade. Daí, tiraremos uma importante conclusão: os seres simples são indestrutíveis. Apenas os seres materiais, exatamente por serem potencialmente divisíveis, podem ser destruídos.
São Tomás passará a responder às objeções iniciais. Quanto à primeira objeção – que confunde a unidade (transcendental de indivisibilidade) com a unidade que é princípio de numeração, São Tomas responderá que esta é uma confusão conceitual antiga, e aponta Pitágoras e Platão dentre aqueles que não fizeram claramente esta distinção.
São Tomás explica que Pitágoras e Platão perceberam que a unidade é uma propriedade transcendental, ou seja, não acrescenta nada ao ser, quando exprime a noção de indivisão substancial. Estavam certos quanto a isto, e o próprio São Tomás se alinha a eles no particular. Mas então eles confundiram esta noção de unidade como indivisão, que está no centro da própria substancialidade das coisas, com a noção numeral de unidade, e passaram a defender que, uma vez confundida a indivisão com a numeração, isto queria significar que o número é a própria substância das coisas. Este erro se repete, de certa forma, no cientificismo contemporâneo, que defende que toda a realidade é constituída apenas das coisas quantificáveis. Lamentável reducionismo.
Precisamos distinguir: a indivisibilidade da unidade realmente é a origem da noção numérica, que é fundamento da matemática, através do número um. Mas a noção numérica quantitativa, ou seja, o número um, é princípio de quantidade, e portanto não é, neste sentido, conversível com o ente. É fácil imaginar isto: pensemos num conjunto com apenas um elemento, como por exemplo o conjunto dos animais de uma espécie que, acidentalmente, esteja em extinção e tenha apenas um exemplar. Não é por ter acidentalmente um elemento apenas que este conjunto é igual ao ser do animal que o compõe como elemento único. Ele tem o número um como medida quantitativa e não como característica de indivisibilidade.
O número um não é um transcendental do ser, é um padrão quantitativo. Por isto, não se pode dizer simplesmente que o número, em seu sentido quantitativo, é a própria substância da coisa, pura e simplesmente. O mundo é muito mais do que matemática coisificada.
O erro matematizante, portanto, foi, ao reconhecer que a unidade é conversível com o ser, declarar que o ser é número (no sentido quantitativo), pura e simplesmente; há, porém, um erro inverso, que São Tomás imputa a Avicena: dando-se conta de que o número não é simplesmente a substância das coisas, Avicena declarou que a unidade, conversível com o ente, acrescenta ao ser alguma coisa, e portanto as coisas não são unas por substância. Assim, se não é a substância que dá ao ente a indivisibilidade, todo ente é indivisível por alguma outra coisa que não sua própria substância, como uma parede é branca pela tinta e não por ser parede. São Tomás responde a Avicena que isto não pode ser assim, porque provocaria uma aporia, um regresso ao infinito. De fato, se as coisas são unas por causa de alguma outra coisa que não é sua própria substância, então esta coisa que torna as coisas unas também seria una por causa de uma outra coisa que não sua substância, e assim por diante, até o infinito. Isto prova, portanto, que a posição de Avicena leva ao absurdo, enquanto a posição de São Tomás resolve tudo de maneira fácil e elegante: se as coisas são unas por sua própria substância, não há necessidade de recorrer a outra coisa senão à substância da coisa para justificar sua unidade, e o regresso ao infinito nunca acontecerá. Distinguindo, pois, tais características da noção de unidade, São Tomás responde à primeira objeção.
Quanto à segunda objeção, é aquela que diz que o ser se divide entre o uno e o múltiplo, e portanto o uno não é conversível com o ser; o uno seria apenas um subconjunto que contém os seres que não são múltiplos em si mesmos. São Tomás nos dará uma aula de matemática, para responder a esta objeção.
Ele diz que se pode, de fato, falar em unidade e em multiplicidade de diversas realidades, em diversos sentidos. Há diversos fatores que podem apresentar determinada realidade como una ou múltipla; cabe-nos examinar, com São Tomás, se de fato os entes estão divididos entre o uno e o múltiplo como em subconjuntos distintos. São Tomás vai examinar, então, diversas realidades que são múltiplas sob certos aspectos, e unas sob outros, para ver como estas realidades se apresentam com relação ao ser.
A primeira realidade em que o uno e o múltiplo podem apresentar-se é quanto àquilo que é múltiplo em número, mas uno quanto à espécie. Pensemos, aqui, na espécie canina: todos os cães pertencem à mesma espécie, e portanto são unos quanto à espécie. Mas são múltiplos quanto aos indivíduos. A unificação sob o critério da espécie, portanto, não pode ser reduzida à individualidade, mas apenas ao conjunto. No conjunto, as coisas são divididas numericamente, ou seja, são múltiplas quanto à individualidade, mas são indivisas quanto à espécie. A sua unidade, portanto, é relativa, porque é uma unidade quantitativa, matemática, apenas nocional, e não ontológica.
Mas há coisas que são absolutamente unas, mas são múltiplas quanto aos acidentes. Pensemos numa árvore frutífera carregada: as frutas, enquanto estão crescendo, formam com a árvore uma só unidade substancial. Depois, maduras, podem destacar-se e gerar uma multiplicidade de alimentos e sementes para outros seres, sem que a árvore deixe de ser indivisa. A árvore é um ente, não um conjunto. Ou pensemos ainda num automóvel. Um ladrão furta um veículo, e em seguida o desmonta e vende. Ele furtou um veículo só, que era essencialmente uno e potencialmente divisível. Cometeu, aqui, um só crime. Depois, desmontando-o, ele pode ter vendido as peças para diversos compradores, dando origem, com cada negócio que fez, a um delito de receptação diferente. Trata-se aqui de um ente, uno substancialmente (o automóvel) que foi atualizado na sua potência de ser dividido, ao ser desmontado e vendido em partes.
Estes dois exemplos tratam de coisas que são absolutamente unas e múltiplas somente sob certo aspecto (secundum quid). Estas coisas são verdadeiros entes, e sua unidade é conversível com o seu ser.
No caso dos conjuntos formados pelos indivíduos de uma espécie, por exemplo, há uma pluralidade absoluta e uma unidade sob certo aspecto (secundum quid). Neste caso, esta multiplicidade unificada sob um conceito ou sob um princípio não é um ente em sentido estrito. O fator de unificação, aqui, não é absoluto, e portanto não gera um ente. Esta pluralidade forma uma multidão, que pode ser quantificada exatamente porque cada um dos seus elementos tem a unidade como parte da sua substância; por isto, os elementos de um conjunto podem ser quantificados. Mas o seu número, aqui, não é conversível com o ser. E São Tomás cita Dionísio, que afirma que toda multiplicidade participa do uno de algum modo, e classifica assim a relação entre o uno e o múltiplo:
1. O que é múltiplo pelas partes é uno pelo todo. Esta é a unidade dos seres compostos, verdadeiros entes. Nós somos compostos de forma, de matéria, de membros, de tronco, de sentimentos e pensamentos, mas a nossa substância unifica todos estes elementos, em cada um de nós, sob a essência humana. Cada um de nós é essencialmente uno, e acidentalmente plúrimo por suas partes. Aqui, a unidade significa indivisão, e é conversível com o ser.
2. O que é múltiplo quanto aos acidentes é uno pelo sujeito. Lembremos do exemplo da árvore frutífera carregada de frutos. Aqui, também há uma unidade essencial, sob a essência de árvore, que não se perde se os acidentes, que são os frutos, destacam-se e transformam-se em novas substâncias, com sua própria história. Também aqui a unidade da árvore é essencial, e sua pluralidade é acidental. Há um ente no qual a unidade significa indivisão, e portanto é conversível com o ser.
3. Há os conjuntos de coisas, em que as coisas, em sua individualidade, são unificadas pela sua espécie, ou as várias espécies são unificadas pelos seus gêneros, ou ainda as coisas diversas unificam-se por seus princípios, como o conjunto das criaturas, todas unificadas por terem vindo de Deus. Neste último caso, a unidade é princípio de quantidade, e é acidental, enquanto a pluralidade é essencial à própria noção de conjunto. Esta unidade, que caracteriza-se pela noção unificadora que forma o conjunto, não está tomada no sentido de indivisibilidade, senão apenas como princípio de quantidade; portanto, não é conversível com o ser.
A terceira objeção é aquela que diz que admitir que o ser e o uno são conversíveis, ou seja, que não se diferenciam no mundo das coisas, significa admitir que afirmar que o ser é uno é cometer uma tautologia, dizendo a mesma coisa duas vezes. São Tomás responderá que há distinção entre a noção de ser e a noção de uno, que as diferencia, mas apenas racionalmente, e não no mundo das coisas. Falar de ser é falar de existência. Mas para existir o ente deve ser indiviso, e neste sentido todo ente é uno. Assim, a noção de uno acrescenta à noção de ser o aspecto da indivisibilidade, que é característica de qualquer ente. Portanto, uno e ser são racionalmente noções diversas, mas esta divergência não está nas coisas mesmas, senão no viés que adoto para me referir a elas. Isto é suficiente para distinguir os dois conceitos, evitando que seu uso em comum seja tautológico, mas não é suficiente para separá-los no mundo real.
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