A discussão aqui é bastante interessante: trata-se da distinção entre conceitos e realidades. Quando São Tomás debate se alguma coisa acrescenta algo a outra coisa, ele está usando a palavra “coisa”, aqui, nos eu sentido concreto, realista. Ou seja: quando eu falo de unidade, estou falando de uma noção que implica alguma diferença real, substancial, que está realmente nas coisas, com relação à noção de ser? Ou estou tratando apenas de diferenças de ponto de vista, de enfoque, e portanto no plano das diferenças de razão?
Um exemplo esclarecerá bem o que eu estou propondo. Quando eu falo na noção de “animal”, e a comparo com a noção de “ser”, estou tratando de duas noções que têm, de fato, diferenças no plano das coisas. A noção de “animal” acrescenta alguma coisa ao ser, quer dizer, quando eu falo de “animal”, falo de seres que têm em si, concretamente, diferenças que os especificam com relação às coisas que posso descrever como simples seres que não se encaixam na noção de animal. A noção de animal põe coisas na noção de ser, ou seja, estabelece uma diferença conceitual que tem base na realidade das coisas. Um animal é um ser que tem vida e sensibilidade. Ou seja, dentre o conjunto todos dos seres, aqueles que, no plano das coisas, têm vida e sensibilidade são classificados como animais.
Toda vez que uma noção “acrescenta alguma coisa” a outra, isto significa que a noção mais ampla faz parte dos elementos que compõem a noção mais estrita, e que as diferenças que a noção mais estrita apresenta, com relação à noção mais ampla, estão no plano mesmo da realidade, nas coisas mesmo, e não na condição de uma abstração, de uma mudança de enfoque ou de ponto de vista. Há, na noção de animal, exatamente esta situação, com relação à noção de “ser”. Diríamos que a noção de animal tem uma compreensão maior que a noção de ser, e portanto tem uma extensão menor. O que quero dizer com “compreensão maior” é que há mais elementos na noção de animal que na noção de ser, porque a noção de “animal” contém a noção de “ser” e ainda as noções de “vida” e “sensibilidade” – tem, portanto, mais elementos em si, ou seja, compreende mais elementos que correspondem a realidades nas coisas. Tem maior compreensão, portanto.
O que eu quero dizer com “menor extensão” é que, quando acrescento maior compreensão a um conceito, necessariamente diminuo sua extensão: o conjunto dos simples “seres” tem mais elementos do que o conjunto dos seres vivos e dotados de sensibilidade. Este é, portanto, um subconjunto daquele, que se determina a partir de diferenças que estão na ordem das coisas (como a vida e a sensibilidade) e não apenas na ordem da razão.
Já vimos, nos textos relativos à questão 6, que a diferença entre a noção de ser e a noção de bem não é deste tipo. A noção de bem não põe alguma coisa na noção de ser, ou seja, não determina um subconjunto a partir de diferenças que estão na ordem das coisas. O conjunto das coisas boas não é menor, do ponto de vista ontológico, do que o próprio conjunto dos seres: eles têm a mesma extensão. A diferença, portanto, entre o ser e o bem é apenas uma diferença de razão; o bem é o ser relacionado com uma vontade. Uma vez que a vontade pode se relacionar, de algum modo, com qualquer ser, na medida que se atraia pela perfeição que este ser ostenta, a diferença entre o ser e o bem é apenas uma diferença de razão: o bem é o ser visto sob o ponto de vista de uma vontade.
Neste artigo 1 da questão 11, a pergunta agora é sobre o uno. Será que a diferença entre a unidade e o ser é do mesmo tipo da diferença entre o bem e o ser? Ou seja, será apenas uma diferença de razão, e não na ordem das próprias coisas, como no caso da diferença entre a noção de ser e a noção de animal? Será que a noção de uno é daquelas que estabelece um subconjunto no conjunto dos seres, contendo menos elementos do que o próprio conjunto dos seres? O uno é uma noção que aumenta a compreensão do ser, acrescendo-lhe alguma coisa, ou é apenas um transcendental do ser, ou seja, os próprios seres vistos a partir de um ponto de vista diverso, de uma razão própria?
No decorrer do debate do artigo, vamos notar que São Tomás trabalha com a ambiguidade da própria expressão “unidade”; ela tanto exprime a noção de indivisibilidade quanto a noção de quantidade. Em qual dos dois sentidos ela é um transcendental, e em qual é um quantificador? É possível distinguir efetivamente estes dois sentidos? Este é o centro do debate.
Mais uma vez, São Tomás vai controverter o tema, para provocar o debate e aprofundar o entendimento da noção que vamos estudar. E ele já começa explicando que o debate se inicia quando alguém afirma a hipótese de que a unidade acrescenta alguma coisa ao ser, ou seja, que entre a noção de unidade e a noção de ser existe uma diferença na ordem das coisas, e não simplesmente na ordem da razão. Esta é a hipótese adversa inicial, portanto, que provoca o debate.
São Tomás trará três argumentos objetores, que sustentam a hipótese adversa inicial.
O primeiro argumento nega que a unidade seja uma noção transcendental. Já discutimos sobre as noções transcendentais no texto anterior, e vou resumi-la assim: transcendentais do ser são aquelas noções que ultrapassam as espécies e os gêneros, para se aplicar a todas as coisas de todos os gêneros e espécies. Por exemplo, “homem” é uma noção específica, “animal” é uma noção genérica, mas “ser” é uma noção transcendental, porque todas as coisas que estão em todos os gêneros caem sob a noção de “ser”; portanto ela transcende as espécies e os gêneros. A noção de “bem” , como vimos na questão 6 desta primeira parte, também é assim. Este primeiro argumento negará que a noção de unidade seja também transcendental. E o fará lembrando que a unidade é o princípio dos números. Os números são a medida da quantidade. E a quantidade pertence ao gênero dos acidentes. Ora, então o argumento conclui: se a unidade pertence a um gênero, ela não pode ser um transcendental. E mais: o acidente da quantidade relaciona-se a algum que diferencia as coisas no plano ontológico: uma pessoa com dois metros de altura é realmente diferente de uma pessoa com um metro e meio. Não é apenas uma diferença de razão, como sabem muito bem aqueles que estão fazendo regime para emagrecer. Então, conclui o argumento, a noção de “unidade” acrescenta alguma coisa à noção de ser. Para este argumento, não há, entre estas duas noções, apenas uma diferença de razão.
O segundo argumento parte do fato de que podemos classificar os seres pela sua unidade ou pela sua multiplicidade. Então, segundo este argumento, haveria um conjunto dos seres que poderia ser subdividido num subconjunto das coisas unas e num subconjunto das coisas múltiplas, e cada um destes subconjuntos necessariamente tem menos elementos que o conjunto dos seres. Portanto, entre a noção de ser e a noção de unidade há uma diferença real, que acrescenta alguma coisa à compreensão destas noções, e portanto acrescenta alguma coisa ao ser. E o argumento conclui que a unidade não pode ser um transcendental do ser, porque, uma vez que se opõe à multiplicidade, não tem a mesma extensão que o ser.
O terceiro argumento parte da própria ideia de “transcendental do ser”. Se um transcendental não acrescenta nenhuma coisa ao ser, então ele não é realmente diverso do ser. Seriam, então, noções estritamente sinonímias. Se a unidade fosse um simples sinônimo do ser, quando disséssemos que o ser é um, seria como se disséssemos simplesmente que o ente é ente, o que seria uma simples redundância tautológica. Mas a afirmação “o ser é uno” não é tautológica. Logo, para este argumento, deve haver alguma diferença entre a noção de ser e a noção de unidade no plano das coisas, que impeça esta afirmação de ser uma tautologia.
Como argumento sed contra, São Tomás traz uma citação do [pseudo] Dionísio, que afirma que todos os entes existentes participam da unidade, e nada existe que não seja uno. Portanto, se o conjunto dos entes tem a mesma extensão do conjunto das coisas unas, não pode haver entre elas nenhuma diferença no plano das coisas. E com este argumento sed contra a discussão está posta. São Tomás irá agora para a sua resposta sintetizadora. Que examinaremos em nosso próximo texto.
Deixe um comentário