Esta questão trata da unidade de Deus. Deveria, pois, ser vista como uma questão central num setor da Suma Teológica que é chamado de “Tratado de Deus uno”. É como uma grande pilastra que sustenta todo o setor. Mas é apenas uma das pilastras. Compõe uma estrutura muito bem urdida e muito bela. Vamos contemplá-la. Hora de dar uma paradinha na nossa visita turística e passar um pouco os olhos ao redor.
Todo o conhecimento, na teoria aristotélica adotada e relida por São Tomás, vem da abstração que somos capazes de fazer a partir da nossa relação com a realidade. Quando nos deparamos com as coisas, somos capazes de abstrair-lhes as formas, de modo a conhecê-las. E as mesmas formas que existem nas coisas de modo real, existem em nosso conhecimento de modo intencional, quer dizer, como conceitos em nossa inteligência, que apontam para as próprias coisas.
Mas os conceitos assim extraídos podem apontar para coisas específicas, caso em que estes conceitos são abstraídos como espécies, ou podem ter em si a potencialidade de apontar para diversas espécies, caso em que eles se apresentarão como gêneros. Assim, a espécie humana está contida no gênero dos animais, e assim por diante.
Mas há noções que adquirimos e que não podem ser enquadradas nos limites de uma espécie – e nem sequer de um gênero, porque, em sua abrangência, elas transcendem os gêneros. É o caso da noção de ser, já que tudo o que existe sob as noções de espécie e de gênero compartilha a condição básica de ser alguma coisa. Antes de ser um humano, antes mesmo de ser um animal, eu existo, tenho entidade, em suma, eu sou um ente. Assim, a noção de ser é chamada de noção transcendental – pelo simples fato de que ela transcende as espécies e os gêneros, e se aplica a todos os entes, quaisquer que sejam suas espécies e seus gêneros.
Há outras noções que compartilham esta mesma característica, de transcenderem espécies e gêneros. É o caso, como já vimos na questão 6, da noção de bem. Eu posso dizer que uma pessoa é boa, como posso dizer que chocolate é bom, ou que eu tenho um bom automóvel. Esta noção, pois, também transcende as categorias de espécie e gênero. Já discutimos um pouco o bem como transcendental, nos textos em que estudamos a questão 6, artigo 3, partes 1 e 2. Ali, descobrimos que o bem não limita o ser, porque não lhe acresce, a rigor, nenhuma especificação. Quando eu acrescento ao ser uma noção de gênero (por exemplo, eu descrevo um ente como um animal), eu estou de certa forma contraindo o ser: estou me referindo somente aos seres que se enquadram na noção de animal. Eu ganho em compreensão, porque a noção de animal é uma noção muito mais rica, muito mais descritiva do que a simples noção de ser. Mas perco em extensão, porque a noção de animal se aplica a muito menos entes do que a simples noção de ser.
Mas com a noção de bem não é assim. A noção de bem não aumenta a compreensão da noção de ser, de modo a diminuir sua extensão. Ela descreve simplesmente uma relação: o bem é o ser tal como se apresenta a uma vontade. O bem, portanto, é o ser que move uma vontade sob a razão de fim. A rigor, portanto, a noção de bem tem a mesma extensão da noção de ser, embora sob um enfoque diferente. Tudo o que é ser, de algum modo, é um bem. O simples fato de existir é um bem, porque nenhum ser quer deixar de existir. Já conversamos sobre isto naqueles textos, aos quais remeto os eventuais leitores.
Mas haverá mais noções transcendentais? Sim, a escolástica conhece mais algumas. Dentre elas, aquela que tratamos na presente questão: a unidade. Todo ente apresenta, em si mesmo, uma unidade, ou seja, ele tem que ser íntegro, indivisível estruturalmente, para ser e para ser bom. Se eu contemplo, digamos, um copo, vejo que, para ser um bom copo, ele tem que estar inteiro. Se ele cai das minhas mãos e se despedaça, com certeza deixa de ser um copo para ser uma pilha de cacos, porque, perdendo sua unidade, perde também a sua entidade: já não é mais um copo. E perde também aquilo que, nele, atrai a minha vontade: já não pode conter água, então não é bom. É neste sentido que a unidade é um transcendental do ser, junto com a bondade.
A questão dos transcendentais, como já conversamos também no texto em que debatemos a questão 6, artigo 3, foi invertida, na filosofia pós-kantiana; deixou de se apresentar como um estudo do próprio ser e suas relações para se apresentar como uma teoria crítica das condições do conhecimento. Em Kant, os transcendentais são apenas categorias do conhecer, não do próprio ser. Com esta inversão, as consequências na compreensão da realidade, e principalmente da sua relação conosco, tornou-se complicada, obscura. Na sua obra “Realismo Metódico”, Etienne Gilson faz uma afirmação sobre esta perda da noção dos transcendentais do ser na filosofia contemporânea, e nas consequências disto, num trecho que merece transcrição (a tradução, um tanto livre, é minha):
“Eu afirmei que uma crítica realista do conhecimento é como a quadratura do círculo, ou ainda pior. Eu me sinto obrigado a reafirmá-lo. Uma crítica do conhecimento é um empreendimento de um tipo especial, no qual somente se pode empenhar aquele que observa certas condições claramente definidas. Ele fez seu aparecimento histórico no momento em que o idealismo, tendo deliberado de uma vez por todas não iniciar com o ser, perguntava-se sobre eu que fazer com os transcendentais. Se a verdade não é mais o ser como conhecido pela mente, então o que é a verdade? Se o bem não é mais o ser como objeto do desejo, então o que é o bem? E, consequentemente, o que são a ciência e a moralidade? Foi neste ponto que o bom, o verdadeiro e o belo começaram a transformar-se em valores, porque valores são simplesmente transcendentais que lutam por sobreviver depois de terem sofrido sua desconexão com o Ser. Mas, a partir do momento em que eles já não são, torna-se necessário fundamentá-los. Esta é a origem da proliferação estéril de uma especulação puramente verbal, que embaraça a filosofia moderna, sobre os valores e seus fundamentos; ou deveríamos dizer, simplesmente sobre sua fundamentação, já que, graças ao fato de que tais fundamentos nunca foram descobertos, ninguém jamais conseguiu esbarrar nos próprios valores.”
Não precisaria dizer muito mais para ver a importância de resgatar a noção dos transcendentais do ser para nós, pessoas do século XXI.
Nesta questão, serão estudados quatro artigos: o primeiro vai exatamente discutir se o uno, quer dizer, a unidade, é de fato um transcendental do ser, ou seja, se ele acrescenta ao ser alguma característica que reduz o ser em extensão (caso em que não é propriamente um transcendental), ou se ele é apenas uma maneira de descrever o ser sob alguma relação específica que não o reduz em extensão – caso em que ele pode ser considerado como um verdadeiro transcendental.. No segundo artigo, estudaremos o contraste entre a unidade e a multiplicidade. Se não fosse o fato de ser absolutamente anacrônico, eu diria que este segundo artigo traz como que uma teoria do número e do conjunto em São Tomás.
O terceiro e o quarto artigo estudam a noção do uno sob sua relação com Deus: o terceiro artigo questiona se Deus é uno, e o quarto debate em que sentido podemos dizer que Deus é uno, ou seja, se a unidade é uma característica própria, originária, de Deus. É uma questão, portanto, interessantíssima, que envolve metafísica, matemática e teologia, e que nos permitirá entender mais não somente a visão de mundo e de lógica de São Tomás, como o atributo da unidade em Deus, que mais tarde será aprofundado quando estudarmos a Trindade, nas questões 27 a 43. Vamos aos artigos.
Deixe um comentário