Eis uma questão na qual pensamos pouco: o que unifica o tempo? Não seria imaginável que cada um de nós vivesse num tempo diferente, uns ofegantes por minutos que passam como se fossem segundos, em ritmo acelerado, outros com horas escorrendo como óleo, enquanto se dedicam à contemplação? Uns caçando dinossauros em florestas jurássicas, enquanto outros participariam de festas dionísicas na antiga Grécia, e outros ainda se rejubilariam com os “bons selvagens” pré colombianos. Sim, a ciência traz muitas visões sobre o tempo, mas não responde à pergunta mais fundamental: por que o tempo passa igualmente para todos? É a pergunta que o salmista já fazia (Sl 49 (48), 11):

Ele vê os sábios morrerem

E o imbecil perecer com o insensato,

Deixando sua riqueza para outros!

O tempo tem duas facetas que são espetaculares para os seres humanos: 1. Nos iguala a todos, na sua democracia implacável, e a ninguém deixa escapar; e 2. Permite-nos o arrependimento e a conversão. De fato, no evo, a sucessão não atinge o próprio ser das criaturas eviternas: cada decisão, portanto, é sempre presente, total e irremediável, porque não fica para trás e nem conhece reservas e alterações. Quem está no evo jamais se converte, e jamais se arrepende, porque não conhece um antes e um depois em si mesmo.

O fato é que São Tomás colocou no primeiro movimento a unidade metafísica do tempo para o universo. O primeiro movimento, como vimos no texto anterior, é o iniciador de uma série causal própria, em que, abstraído um elemento, o outro fica sem explicação. Diferentemente da sequência de fatos que faz com que os pais gerem seus filhos, ou que os engenheiros construam seus prédios, na série causal própria todo o movimento está essencialmente interligado: a mão que apanha o taco e o faz bater na bola, por exemplo. Sem que o impulso dado pela mão permaneça durante todo o movimento, o taco não baterá na bola nem esta ganhará seu impulso. Neste sentido, a mão causa o primeiro movimento da série causal. É o ritmo da mão, portanto, que mede o ritmo do taco e o ritmo da bola. É assim que São Tomás explica a unidade do tempo: É Deus, motor imóvel, que transmite todo o movimento ao universo; ele é a mão que conduz, em última análise, todas as mãos que conduzem os tacos que acertam as bolas. Assim, todo movimento, toda mudança que existe no universo tem um ritmo que se mede pelo ritmo da mão de Deus – origem primeira do movimento todo, como a mão que impunha o taco é origem primeira e inafastável do impulso da bola. Como diz o belo Hino à Trindade, da Liturgia das Horas:

Ó Trindade imensa e una,

Vossa força tudo cria;

Vossa mão, que rege os tempos,

Antes deles existia.

E quanto ao fluxo espiritual, o evo? Onde estará sua unidade metafísica?

São Tomás passará a refletir sobre a realidade do evo. E ele toma duas opiniões sobre a estrutura da eviternidade, que ele passará a testar quanto à consistência:

1. A primeira opinião é a de que as criaturas eviternas, que são as inteligências imateriais ou subsistentes, foram criadas por Deus numa situação como que de igualdade, no sentido de que são estritamente individuais e independentes umas das outras. Ele cita Orígenes, que neste ponto foi muito influenciado pelo platonismo. Se as coisas são assim, reflete São Tomás, então não há algo que possa ser apontado como primeiro no mundo espiritual, ou seja, não há alguma coisa que possa marcar o ritmo para todas as outras. Então, cada criatura espiritual seria primeira na sua própria especificidade, e igual a todas outras em termos de ordem e dignidade. Cada uma teria seu próprio ritmo, marcaria seu próprio fluxo, com independência e subordinada apenas e diretamente a Deus. Poderíamos imaginar, portanto, uma miríade de seres espirituais entrando e saindo livremente da história, e mesmo contemplando livremente, num processo de vaivém, a queda de Adão, a ressurreição de Nosso Senhor e a sua paresia. Para cada anjo, haveria um ritmo, um fluxo e um momento diverso. As decisões humanas seriam transparentes aos demônios, pelo simples ato de ir e voltar no fluxo do nosso tempo. Também a chamada escatologia intermédia, em que as almas dos mortos aguardam o juízo final, seria incompreensível, simplesmente porque, livres do tempo e jogados num evo sem ritmo e sem fluxo, cada ser espiritual contemplaria a paresia num instante diferente. De certa forma, haveria um duplo de mim já no evo, agora mesmo enquanto eu estou aqui preso no tempo. São conclusões absurdas, que levam a imaginar que as coisas não podem ser assim.

2. A segunda opinião é a de que as substâncias espirituais procedem de Deus numa certa hierarquia, em que os seres menos elevados dependem de algum modo dos mais elevados, dentro de cada gênero. Anjos são anjos, seres humanos também são seres humanos, e mesmo dentre os anjos há diversas ordens, umas mais elevadas, outras menos; essa diferença não é acidental, mas essencial. Há seres espirituais que foram criados com mais perfeição, outros há que foram criados com menor grau de perfeição, e a sua própria existência envolve uma interligação de ordem e cooperação, não uma espécie de democracia anárquica e evolutiva. Com isto, o ritmo do evo é marcado sempre pela criatura mais elevada, que é tão mais simples quanto mais elevada for, e tão mais elevada quanto mais ligada a Deus estiver. É o ritmo de uma sinfonia, que olha atenta para as mãos do maestro e na qual cada um está bem consciente e ajustado com seu próprio instrumento e partitura. Se as coisas são assim, então há de fato como pensar num ritmo único para o evo. Este assunto será retomado quando São Tomás tratar das criaturas espirituais, lá pela questão 50 e seguintes.

Assim, estabelecidas as condições pelas quais se pode dizer que há apenas um evo, que segue o fluxo com objetividade no ritmo, São Tomás passará a responder às quatro objeções iniciais que defendiam a hipótese polêmica que deu origem a este debate.

O primeiro argumento objetor é aquele que cita o Terceiro Livro de Esdras, em que aparece a palavra “evos”, ou “aevorum”, no plural. São Tomás esclarecerá que a palavra “evo” é, às vezes, usada como medida de duração de uma coisa, e, diríamos, quase como sinônimo da palavra “eras”. Assi, do mesmo modo que falamos de “muitas eras”, podemos falar de muitos “evos”, como na palavra “medioevo”, ou “medieval”, em que estamos tratando de um período histórico específico. Portanto, a palavra “evo”, quando usada no sentido de “era” ou ‘”época”, pode ser usada no plural, porque não está sendo empregada no mesmo sentido que usamos aqui.

A segunda objeção é aquela que diz que o evo mede corpos de gênero diferente, já que os corpos celestes são materiais e eviternos, enquanto os anjos são espirituais e eviternos. No seu tempo, rendendo homenagem à ciência que conhecia, São Tomás diz que ambos são eviternos por serem igualmente imutáveis em si mesmos. Hoje, diríamos simplesmente que os corpos celestes são seres temporais, não eviternos. A eviternidade, então tornou-se mais simples com o avanço da astronomia: retirada a anomalia da existência de criaturas que teriam a essência de seres materiais incorruptíveis, o evo fica melhor caracterizado como a medida da duração das inteligências não mortais.

A terceira objeção trata do fato de que nem todas as inteligências imortais foram criadas simultaneamente, e por isso não podem ser descritas como igualmente infinitas no existir. Logo, não se poderia falar de um único evo para todas elas. São Tomás faz mais uma analogia com o tempo: nem todas as criaturas temporais foram criadas simultaneamente, mas todas estão sujeitas ao mesmo fluxo temporal, por causa do ritmo imposto pelo primeiro movimento. Assim, mesmo não tendo o mesmo início, todas as criaturas eviternas estão no mesmo ritmo de fluxo no evo, estabelecido pela ordem hierárquica que as ordena sob um primeiro, um regente espiritual, como foi explicado acima.

Isto responde também à quarta objeção. De fato, esta objeção parte da constatação de que o tempo é uno porque segue o ritmo do primeiro movimento, que é a própria mão de Deus que “energiza” o mundo a partir de dentro. Neste sentido, este movimento é chamado de primeiro por ser o mais simples e fundamental, do ponto de vista causal, não por ter vindo antes. Mas este argumento lembra que as coisas eviternas não mudam, logo não se pode falar num primeiro movimento que lhes dê ritmo. Portanto, não existe um fundamento causal que estabeleça um mesmo ritmo para o evo.

São Tomás explicará que, para que haja o mesmo ritmo, ou seja, a mesma medida no fluxo do evo, não é necessário que haja uma primeira causa, mas sim que haja um princípio mais elevado, mais simples, capaz de coordenar todos os outros seres por ser mais simples do que eles – e portanto mais elevado e mais próximo de Deus.

É a primeira vez que eu escrevo três textos sobre o mesmo artigo. E termino com a sensação de que haveria ainda muito para ser dito e muito para ser compreendido.