No texto anterior, começamos o debate sobre a objetividade, ou seja, sobre a unidade do evo. Iniciamos pela hipótese adversa, de que não haveria apenas um evo, e São Tomás coleciona quatro argumentos objetores que sustentariam a hipótese inicial. O argumento sed contra é uma reflexão de que, se o próprio tempo é único, e se o evo é mais próximo da eternidade que o tempo, então o evo deve ser único também, já que a eternidade é única.

Na arquitetura desta imensa catedral que é a Suma, o evo é como que um arabesco, um curioso detalhe que faz lembrar uma daquelas esculturas peculiares da arquitetura daquele tempo; um daqueles seres que podemos contemplar durante horas sem poder, afinal, dizer se estamos diante do esboço de uma figura humana ou de algum ser espiritual misterioso que mal podemos imaginar. O evo leva-nos a pensar em outras dimensões, outros seres, outros esboços daquilo que podemos não entender na sua inteireza, mas intuímos tratar-se de uma peça essencial para nos fazer entender o conjunto deste maravilhoso edifício. E de fato teremos oportunidade de voltar a este assunto quando estivermos estudando estes seres maravilhosos que são os anjos. E contemplaremos estes painéis tão inquietantes, tão diferentes de nós e ao mesmo tempo tão familiares.

Sabemos que há discussões riquíssimas, científicas, filosóficas e teológicas, sobre o tempo, nos dias de hoje. Elas nos interessam profundamente. Mas nosso objetivo aqui é entender o que São Tomás falou e resgatar o sentido, a intuição do que ele defendeu, de modo a perceber sua relevância ainda hoje. Então não faremos uma grande revisão sobre todas as discussões a respeito do tempo que existem contemporaneamente. Vamos tentar entender o debate que São Tomás nos traz, nos limites que ele nos traz, sem ter o pudor de usar, quando necessário, aspectos e exemplos que possam tornar São Tomás mais claro para nós.

Vamos à resposta sintetizadora de São Tomás. Ele diz que há quem sustente as duas posições, tanto a da unidade do evo, quanto à da sua pluralidade. E ele vai elucidar a questão investigando aquilo que podemos investigar com nossos meios humanos: o tempo. E, a partir da descoberta da razão pela qual o tempo é uno, podemos especular sobre a unidade do evo. E São Tomás proclama um princípio epistemológico importantíssimo: nós podemos chegar ao conhecimento das coisas espirituais pelo conhecimento das coisas corporais.

Com isto, fica claro para nós a verdadeira natureza do evo, na concepção de São Tomás: é uma realidade espiritual. Vê-se, portanto, o quanto a física de Aristóteles, que colocava os corpos celestes como seres eviternos criava uma anomalia na noção de evo: deixemos os corpos celestes ao tempo, que é onde eles devem estar mesmo, e contemplemos o evo como uma realidade propriamente espiritual. Inteligências relacionando sobre o fluxo da mudança, do qual elas estão substancialmente livres por serem incorruptíveis.

Vamos voltar ao estudo do tempo. Por que o tempo é único para todas as coisas? O que impede que o tempo passe depressa para mim, e devagar para o meu vizinho? Qual a razão de estarmos todos no ano de 2017? Há diversas hipóteses, diz São Tomás, para responder a estas perguntas. Ele as recolherá e debaterá.

A primeira resposta que ele encontra é a seguinte: há um único tempo para todas as coisas temporais porque existe um único número para todas as coisas numeradas, sendo que, segundo o Filósofo, o tempo é número. São Tomás não fica satisfeito com esta resposta. Esta razão, ele diz, não basta para nos responder.

O que significa o número? Como debatemos na questão 8, artigo 4, (1 de 2), o número é a mensuração das coisas, é a ordem que está nas próprias coisas, e reflete em si mesmo o logos. O número não é uma imposição da inteligência humana sobre as criaturas, no sentido de dominá-las, mas a mensuração que o próprio Deus usou para criá-las, e portanto está nas coisas e pertence a elas. O número, portanto, pode ser abstraído, desde que não esqueçamos que, antes mesmo de ser uma abstração, ele é uma ordenação que está na própria coisa, e a faz inteligível.

Então, o que significa dizer que o tempo existe como um único número para todas as coisas numeradas? Significa transformar o tempo numa abstração, algo externo às próprias coisas, que se impõe de fora por quem as mede. O tempo seria, assim, uma espécie de metro convencional, que tem sua unidade independentemente das próprias coisas medidas. São Tomás não concorda com isto. Ele nos afirma claramente que uma medida qualquer não pode unificar as coisas a partir de fora, como sabe muito bem quem tentou subtrair duas bananas de três laranjas. Se eu tenho dez metros de tecido, diz São Tomás, eles são uma só peça por serem um contínuo de tecido, não por serem dez metros. O que quer que dê unidade a uma medida, não está na medida como abstração, mas na própria coisa medida. Não é o conceito de abstrato de “dez metros” que faz minha cortina ter dez metros, mas a continuidade do próprio pano. Se o tempo é só uma medida abstrata a ser imposta de fora às coisas, nada garante a sua unidade intrínseca nas coisas: se eu tenho duas laranjas, e meu amigo tem três litros de água, nós dois temos coisas numeradas e medidas, materiais e relacionadas com a eternidade. Mas a medida aí não revela nenhuma homogeneidade nas próprias coisas. Então estas não são boas razões para declarar que o tempo seja um só para todas as coisas.

Com isto, São Tomás recusa uma noção rígida, absoluta e abstrata de tempo, como aquela mais tarde adotada pela física newtoniana, e interpenetra fortemente o tempo nas coisas, como a física fará no século XX. O tempo, para São Tomás, não é uma simples unidade de medida. É uma realidade. E somente na reafirmação dessa realidade encontraremos o sentido de sua unidade.

Uma outra resposta, que São Tomás encontra nos debates da sua época, é a afirmação de que o tempo é único para todos porque está lastreado na eternidade, que é o princípio de toda duração. Assim, todas as durações são únicas, com referência ao seu princípio – que é a eternidade – mas são múltiplas em si mesmas, considerando-se a diversidade das coisas que recebem sua duração do influxo do primeiro princípio, que é eterno. Ou ainda porque todas as coisas temporais têm matéria-prima na sua composição, e a matéria-prima é o primeiro sujeito da mudança, cuja medida é o tempo.

Nenhuma das duas respostas satisfaz São Tomás. Ele explica que a unidade de sujeito, ou mesmo a unidade de princípio, não são suficientes para garantir a unidade absoluta do tempo. De fato, todos os fenômenos que têm por sujeito a matéria-prima não são suficientes para garantir a unidade a todas as coisas materiais, senão no fato de serem materiais – o que é um tipo de unidade bem fraquinha, convenhamos. Tampouco o fato de serem originadas na eternidade é razão suficiente para proclamar a unidade absoluta do tempo nas coisas, porque de certa forma os seres eviternos também são originados da eternidade e nem por isto submetem-se ao tempo.

Afastadas, pois, estas razões, São Tomás encontrará um porto seguro para amarrar a unidade do tempo para toda a criação: o primeiro movimento transmitido pelo motor imóvel.

Como pensar neste primeiro movimento, metafisicamente? Trata-se de entender o motor imóvel não como o relojoeiro que deu o primeiro piparote no universo e deixou-o funcionando no automático, mas como aquilo que anima e vivifica desde dentro, que transmite às coisas o poder de serem verdadeiras causas, mas sempre causas segundas. Pensemos numa mão que segura um bastão, que por seu turno bate na bola: a mão é o primeiro motor, que conduz o bastão para bater na bola. Sem este primeiro motor, o resto do movimento seria impensável. Analogicamente, é este o influxo do primeiro motor no universo criado: se ele cessa de transmitir o impulso às causas segundas, elas também cessam de operar. Ora, uma vez que esta causa primeira é o motor imóvel, para todos os movimentos que existem no mundo, então ele fornece o princípio unificador do tempo: todos os movimentos podem ser medidos com o mesmo tempo, porque originam-se de um mesmo movimento primeiro e fundamental, que lhes advém do motor imóvel. E esta medida não é extrínseca ao primeiro movimento: está para ele como um acidente está para a substância, e por isso o segue como algo muito real, que participa do seu próprio ser. Estando assim fundamentado no próprio ser do movimento primeiro, o tempo pode medir todos os outros movimentos derivados, sem multiplicar-se neles: para eles, o tempo funciona realmente como medida externa, abstrata e separada, mas que tem fundamento naquilo que é o fundamento do próprio mover de todas as coisas. Parece profundo e complexo. E é. É necessário, aqui, deixar um pouquinho de lado os nossos olhos contemporâneos e tentar enxergar estes conceitos a partir da estrutura metafísica escolástica.

O fato é que São Tomás colocou no primeiro movimento a unidade metafísica do tempo para o universo. E quanto ao tempo espiritual, o evo? Onde estará sua unidade metafísica?

Bom, será preciso mais um texto para esclarecer este assunto. Com fé em Deus, iremos a ele em breve.