Este artigo 6 da questão 10 é um daqueles cuja dificuldade parece quase insuperável para quem lê Tomás de Aquino hoje, fora do contexto em que ele escreveu. Este conceito de eviternidade, por exemplo, parece tão distante da nossa realidade contemporânea que realmente é muito difícil ter acesso ao tipo de intuição que fez São Tomás falar com tanta ênfase sobre ele. No presente artigo, a discussão gira em torno da unidade da eviternidade.

De fato, é uma questão importantíssima. Porque, se como vimos, a eviternidade é a medida do fluxo com relação às criaturas espirituais, há uma grande tendência, para nós, de compreender este fluxo como algo privado, individual, psicológico, desconectado. Entendê-lo de um modo experiencial e retirar dele toda objetividade. Se o evo é a medida de uma relação, e se esta relação se caracteriza por envolver uma criatura inteligente que não está em si mesma submetida ao fluxo do tempo, exatamente por ser espiritual, é muito fácil imaginar que ela domina este fluxo a seu gosto e modo, e, sendo ele inteiramente vinculado à realidade do espírito e da inteligência, seja em si mesmo totalmente subjetivo.

Mas não é assim. A eviternidade é um fluxo, um fluxo que relaciona coisas criadas, materiais e imateriais, entre si, e portanto ele tem uma coordenação. Não é uma mera experiência do fluxo da criação: é uma relação, e é real. A questão é determinar qual a medida, qual o compasso deste fluxo. Aliás, esta é uma dificuldade também para o tempo. Mas, no caso do tempo, o fato de que experimentamos todos o mesmo momento temporal não é questionado, simplesmente porque, além de passar para nós, o tempo passa em nós. Não há Botox que possa impedir alguém de envelhecer. Mas como determinar a medida do tempo? Estamos acostumados a pensar no tempo como os ponteiros de um relógio, mas os ponteiros do relógio, que movem-se, não são o próprio tempo, mas apenas uma régua. A questão permanece: o que faz com que esta régua funcione? Qual o critério básico? É certo que tomamos como padrão os movimentos de rotação e translação da Terra, mas, ainda assim, há ainda o mesmo problema: trata-se apenas do padrão, não da própria medida. O que faz com que eu envelheça com o mesmo ritmo que você?

É certo que a Teoria da Relatividade envolveu fortemente o tempo com o espaço, relacionando-os com a velocidade da luz. É certo que o movimento influencia fortemente a passagem do tempo, de acordo com o paradigma einsteiniano. Mas ainda assim, trata-se do mesmo universo, e do mesmo fluxo histórico. Como veremos, São Tomás já tinha relacionado tempo e movimento neste artigo, séculos antes de Einstein. E ele chega a um padrão: o primeiro movimento, que é gerado pelo primeiro motor.

É preciso lembrar que não estamos no campo das ciências, aqui, mas na filosofia – e na teologia. E que estamos lidando com um autor que escreveu há mais de 800 anos, mas com uma incrível penetração na realidade. E que foi confundido por um sistema astronômico ultrapassado, que levou a incluir desnecessariamente os corpos celestes no evo. O sistema fica muito mais simplificado quando eles não estão ali, e o evo passa a ter relação apenas com seres espirituais – materiais ou imateriais.

Mas como determinar a unidade e a medida do evo? Como medir aquilo que pode se relacionar com o movimento, mas não está, em si mesmo, submetido ao tecido espácio-temporal? Há, ainda, a séria questão da criaturalidade, que envolve todos os seres no mesmo plano da criação. Há uma solidariedade no criado, que se submete à regência de Deus. E esta regência está construída sobre o logos, e portanto pressupõe alguma unidade na fluência. Que tipo de unidade seria esta?

São estes os problemas que vamos enfrentar nesta questão.

São Tomás quer debater sobre a objetividade do evo; é preciso saber se os seres eviternos submetem-se a um mesmo fluxo, ou se cada um tem o seu próprio evo, ou seja, o seu próprio fluxo de relação com as mudanças. E São Tomás propõe a hipótese inicial controvertida: parece que não existe apenas um único evo. Ou seja, parece que a relação dos seres espirituais com o fluxo das mudanças é estritamente subjetivo, e varia para cada espírito. E São Tomás nos apresentará quatro argumentos no sentido da hipótese inicial.

O primeiro argumento parte de uma citação do Terceiro Livro de Esdras, que é um livro canônico para a Igreja Ortodoxa, mas é apócrifo para os católicos. Nem por isto deixa de ter seu valor espiritual, como reconhece São Tomás, numa abertura ecumênica. Este livro usa o termo “evo” no plural – “aevorum”, como transcreve São Tomás. Assim, o poder de Deus se estende “sobre os evos”, o que provaria que não há somente um evo, mas muitos.

O segundo argumento elenca os seres que são eviternos, ou seja, os espíritos e os corpos celestes. Há, portanto, seres corporais e seres espirituais no evo. Logo, se há seres de gêneros diferentes, haverá medidas diversas para o fluxo da mudança que se relaciona com uns e com outros. Assim, o argumento conclui que não há somente um evo. Como veremos na resposta a este argumento, nosso trabalho ficou facilitado com os desenvolvimentos científicos que retiraram os corpos celestes da categoria dos seres incorruptíveis, evidenciando que eles são essencialmente análogos aos anteriormente chamados “seres materiais sublunares”. Isto não invalida as reflexões de São Tomás sobre o evo, mas, como veremos na resposta a esta objeção, torna o assunto até mais homogêneo e menos incompreensível.

O terceiro argumento parte do fato de que nem todas as criaturas eviternas foram criadas no mesmo ato. Assim, algumas começaram a estar no evo depois de outras. Logo, segundo este argumento, não pode haver apenas uma medida de duração, ou seja, um só evo.

O quarto argumento parte da primeira via, que nos lembramos quando estudamos a questão 2 desta primeira parte da Suma. Há um primeiro movimento, produzido pelo motor imóvel, que dá origem, como princípio a todos os movimentos derivados, na criação. Este primeiro movimento, ou primeira mudança, é um movimento no tempo, e subjaz a todas as mudanças existentes no universo criado, evitando um regresso ao infinito no plano das mudanças, que tornaria inexplicável o próprio fato de que o universo exista e seja capaz de mover-se. Na física de Aristóteles, que São Tomás adota, estes seriam os movimentos locais dos corpos celestes, que provocam os movimentos sublunares, e assim por diante.

Como sabemos, a física aristotélica está cientificamente ultrapassada neste particular; mas resta ainda a questão do primeiro movimento como limite do regresso ao infinito, como vimos nas cinco vias – especificamente na primeira. E esta questão não está superada pela mudança do paradigma científico, porque é uma questão estrutural, no sentido de metafísica, e não física em sentido estrito. O primeiro movimento, no sentido metafísico, é o movimento de doação da existência e de sua manutenção, e são próprios de Deus, como criador e regente de tudo o que existe. Todas as coisas criadas, por seu turno, são causas segundas de todas as mudanças no mundo natural. São devedoras, no seu poder de causar, a este primeiro movimento, que as dinamiza e conserva no ser. Essa visão holística do universo, com uma dinâmica interna que remete diretamente a Deus, torna todos os movimentos, no mundo material, inter-relacionados e interdependentes. E por isto o tempo é profundamente conectado com o próprio ser das coisas materiais: se o primeiro movimento, (que dinamiza e mantém tudo no ser e no poder de causalidade segunda) é o mesmo para todo o universo, então é sensato afirmar que o fluxo do tempo é o mesmo para o universo material, com todas as coisas temporais que o compõem.

Mas, no evo, uma vez que o próprio ser dos entes eviternos não está sujeito a mudanças, esta relação holística não existiria, segundo este argumento. Assim, como um anjo não é causa de outro, nem depende, para a sua própria dinâmica, de uma relação direta com o primeiro motor para mudar e operar, então não há como afirmar, diz este argumento, que há apenas um evo, como há apenas um tempo. Na verdade, haveria tantos evos quantos fossem os seres eviternos.

Como argumento sed contra, São Tomás aduz uma reflexão: o evo é mais simples que o tempo, e mais próximo da eternidade. Portanto, se o tempo é único, e a eternidade é única, mais razão para que o evo seja único.

Veremos a resposta sintetizadora de São Tomás no próximo texto, e suas respostas aos argumentos objetores iniciais.