No texto anterior, conversamos um pouco sobre esta condição interessante de criaturas que não envelhecem, ou seja, que não estão sujeitas em si mesmas ao tempo, mas que podem se relacionar com as coisas temporais; e sobre o limite criatural que as submete a algum tipo de sucessividade nesta relação. De fato, mesmo uma inteligência que fosse inteiramente subsistente fora de um substrato material – um anjo – e que não estivesse sujeito, em si mesmo, a envelhecer, ainda assim, por ser criatura, teria o limite de se relacionar com sucessividade com as outras coisas. Um anjo não precisa, é certo, deslocar-se de um lugar para outro para exercer sua influência sobre alguém ou sobre alguma coisa. Mas não pode exercer sua relação de modo simultâneo, nem está alheio ao próprio fluxo da história. Nem o diabo poderia exercer atualmente sua influência sobre alguém que ainda não nasceu, nem tentar alguém que já morreu. Quem morre, morre para todo o evo. Quem nasce, também. É por isto que, mesmo que a alma humana sobreviva à morte física, não escapa de ter que aguardar, fora do tempo (mas não fora do evo) o retorno de Nosso Senhor Jesus Cristo para nos julgar e renovar todas as coisas. Anjos e espíritos de quem já morreu não são seres temporais, nem eternos; mas eviternos.
São Tomás começará sua resposta sintetizadora exatamente diferenciando o evo, ou eviternidade, do tempo e da eternidade. E nos ensinará que o evo difere do tempo e da eternidade; e que está para eles com se fosse uma espécie de ponto médio. E passará a elencar algumas diferenças que os professores de sua época apontavam entre estas três realidades, para testá-las e identificar quais são as diferenças acidentais e qual é a diferença essencial entre elas.
A primeira posição que ele coleciona é a seguinte: há quem diferencie tempo, evo e eternidade através das noções de começo e fim, assim:
1. A eternidade não tem começo nem fim.
2. O evo tem começo mas não tem fim.
3. O tempo tem um começo e terá um fim.
Mas São Tomás afirmará, lembrando a discussão feita no artigo anterior, que esta diferença é acidental. De fato, sabemos que o tempo teve um começo, com a criação, e terá um fim, com a paresia ou retorno triunfante de Nosso Senhor. Sabemos também que todas as inteligências eviternas têm um começo que é a sua criação por Deus. Mas se não tivéssemos os dados revelados, poderíamos defender razoavelmente que o tempo, e mesmo a eviternidade, tenham existido desde sempre e fossem existir para sempre; e ainda assim o evo seria distinto tanto do tempo quanto da eternidade. Há, portanto, alguma diferença mais profunda entre eles.
A segunda posição que São Tomás coleciona é a seguinte:
1. Na eternidade, não há antes nem depois.
2. No tempo, há um antes e um depois, e há renovação e superação.
3. No evo, há um antes e um depois, mas não há superação nem renovação.
Mas são Tomás nos dirá que esta posição não é consistente; na verdade ele alertará que ela implica contradição. E em dois aspectos: quanto à própria medida das coisas e quanto às coisas medidas.
Quanto à medida das coisas, não há sentido em falar num antes e num depois sem falar em renovação e superação, porque o que vem depois inevitavelmente representa uma renovação, e torna o que havia antes, em alguma medida, superado. Assim, se há um antes e um depois tanto no evo quanto no tempo, haverá em ambos a renovação e a superação.
Também se nos referimos às coisas medidas, a posição é inconsistente. Se a coisa temporal envelhece com o tempo, isto significa que o seu próprio ser é mutável, e é exatamente a mutabilidade do ser que introduz na medida o antes e o depois – como ensina Aristóteles na sua Física, livro IV. Trata-se, aqui, portanto, de uma posição que Einstein vai resgatar no século XX, de que tempo e espaço são um continuum, indissociáveis entre si de certo modo. Quanto aos seres eviternos, se não em si mesmos sujeitos à superação ou renovação, então estão fora do continuum espaço-tempo, e a sua medida, o evo, não poderia envolver um antes e um depois. A diferença, afirma São Tomás, deve estar num nível ainda mais profundo.
A explicação de São Tomás partirá da eternidade, e envolverá a potencialidade, ou seja, a capacidade para a mudança.
Começamos pela eternidade. Esta é a referência. A eternidade, sendo a própria vida de Deus, e portanto plena e simultânea em seu dinamismo, é a medida do ser permanente. Deus não muda, e, a rigor, tampouco as coisas mudam para ele. A sua vida envolve a simultaneidade de todas as realidades, e portanto tudo se mostra para ele integralmente. Não há um antes e um depois para Deus: todas as coisas estão para ele integralmente presentes, sem passado, presente e futuro. Deus é o Deus dos vivos, não dos mortos. Não há passado, presente e futuro em Deus, mas tudo está desnudo ante ele. É claro que ele respeita o fluxo que ele mesmo criou, e, uma vez que não padece de esquizofrenia, não faz com que o fluxo do tempo e da mudança se apresente como inconsistente e incompreensível. Há, de fato, um passado a ser respeitado, um futuro a ser realizado, inclusive na liberdade das criaturas inteligentes; mas o fluxo não é para ele, senão para as suas criaturas.
Temos, a partir deste referencial, aquelas criaturas que estão mais distantes de Deus: são as criaturas que têm a mudança como característica substancial: as criaturas que mudam, em sua própria substância, com o tempo; as criaturas que estão plenamente dentro do continuum espaço-tempo. Estas são as criaturas temporais.
São Tomás vai descrever agora as criaturas eviternas: e trará dois exemplos, um deles ultrapassado pela física contemporânea – os corpos celestes. O fato de que o exemplo concreto trazido por ele esteja ultrapassado pela nossa ciência não torna menos real a estrutura que ele está descrevendo. Podemos compreender o poder explicativo da noção de evo mesmo sabendo que os corpos celestes não são em si mesmos imutáveis. E podemos ver também uma lição: devemos sempre estar atentos para não vincularmos demais a nossa filosofia ao paradigma científico da nossa época, porque paradigmas científicos tendem a passar, mas a verdade tende a permanecer.
Nos corpos celestes, tais como São Tomás os concebia, não havia a possibilidade de mudança substancial: eles não estariam sujeitos à corrupção. Mas eles claramente se moviam pelo céu: então o seu ser substancialmente imutável podia se relacionar com o fluxo da mudança sem estar em si mesmos mergulhados no continuum espaço-tempo. A mudança, neles, está na categoria da relação; mas existe.
Hoje sabemos que, quanto incorruptibilidade dos corpos celestes, isto não é assim; os corpos celestes estão sujeitos ao fluxo espaço-tempo como todas as outras criaturas materiais. Resta, portanto, a questão da relação entre as criaturas inteligentes com o fluxo das mudanças. É aí que mora o evo.
Nos seres inteligentes, pela sua inteligência, existe uma relação entre a incorruptibilidade essencial, a capacidade de reflexão cognitiva, a criaturalidade e a relação com o fluxo das mudanças. A incorruptibilidade essencial determina que, nas criaturas eviternas, tais como os anjos, a mudança é possível, mas não pode ser entendida como um marco temporal em sentido estrito. As escolhas, as relações, as afeições e mesmo o lugar em que a relação da inteligência com as coisas se exerce não contém em si a provisoriedade própria das criaturas temporais: aquilo que é operação das criaturas eviternas traz em si a marca de definitividade, não pode ser alterado.
Quando um anjo opta contra Deus, esta decisão é permanente, porque é tomada no evo, e portanto fora do tempo. Também o ser humano que morre terá presente eternamente a si as suas próprias escolhas – já não poderá alterá-las. Mas, em si mesmos, eles não podem escapar do fluxo das coisas: há, mesmo para eles, a espera, por exemplo, da paresia. Jesus não voltou ainda, nem aqui no tempo, nem no evo.
As pessoas que ainda não nasceram não podem ser tentadas pelo diabo, nem aquelas que já morreram. Os anjos, como os seres humanos que já morreram, não estão no continuum espaço-tempo, mas têm uma relação real com o fluxo dos acontecimentos, e têm o limite da criaturalidade nas suas relações: há uma sucessividade nas suas relações com as coisas. E mesmo com Deus. Há uma mutabilidade nas criaturas eviternas, mas poderíamos dizer que esta mutabilidade é existencial, e não temporal.
E São Tomás resumirá assim:
1. O tempo tem em si antes e depois.
2. O evo não tem em si antes e depois, mas pode relacionar-se com ele.
3. A eternidade não tem antes e depois, nem é compatível com eles.
São Tomás vai passar a responder às objeções iniciais. A primeira, como nos lembramos, é aquela citação de Santo Agostinho de que “Deus move as criaturas espirituais no tempo”. São Tomás explicará que, em razão mesmo de sua criaturalidade, as criaturas espirituais estão sujeitas à sucessão nas suas reflexões e nas suas relações com as outras criaturas – que são suas afecções, ou afeições. Neste sentido, há três dimensões nas criaturas espirituais:
1. Nas suas relações são movidas pelo tempo.
2. No seu ser, são medidas pelo evo.
3. Na sua glória, participam da eternidade.
A segunda objeção traz uma citação bíblica que se refere à eternidade como “anterior ao evo” (Eclo 1,1). E conclui que, não sendo simultâneo, o evo não é eternidade, e portanto é tempo. São Tomás nos ensinará que o evo tem de fato a simultaneidade, porque está fora do continuum espaço-tempo, diríamos hoje. Mas é compatível com um antes e um depois, porque mede as criaturas em sua relação com as coisas temporais e entre si, e não a vida de Deus.
A terceira objeção traz a questão da relação dos anjos com o passado e o futuro. Se não há tempo no ser do anjo, isto significa que eles sempre foram e sempre serão, e estão, assim, isentos do poder de Deus com relação à sua própria existência?
São Tomás nos ensinará que os anjos não estão sujeitos a passado e futuro, em sua própria substância; mas estão sujeitos a mudanças acidentais. Mas quando falamos sobre eles, a nossa linguagem está limitada pelas categorias de passado e futuro, que não estão no próprio anjo, mas no nosso modo de falar. Assim, quando dizemos que um anjo é ou foi, estamos falando de uma situação que já não pode ser alterada nem pelo poder divino. Mas quando dizemos que o anjo será, não o estamos excluindo do poder divino. De fato, Deus sempre respeita o fluxo do ser criatural. Então, ele pode, em tese, fazer com que o anjo não mais se mantenha na existência. E é neste sentido que falamos analogicamente no “futuro” do anjo. Mas Deus não pode fazer, falando absolutamente, que o anjo não seja quando ele é, nem que não tenha sido quando ele foi, e é também neste sentido analógico que falamos em passado e presente com relação aos seres eviternos.
A quarta objeção é aquela que pleiteia que a existência de seres eviternos implicaria que estes seres fossem infinitos em ato quanto ao depois, porque não estão sujeitos ao tempo quanto ao seu próprio ser. Quanto à discussão a respeito da infinitude da existência dos seres não sujeitos à corrupção, remetemo-nos aos textos em que debatemos o assunto, quando estudamos a questão 7, artigo 3, da Suma. Agora, São Tomás nos dirá simplesmente que conceber uma coisa infinita, no sentido de ser algo não limitado por outro, não e contraditório. Assim, não há nenhum problema em conceber uma criatura cujo ser não está limitado pelo tempo.
Esta é mais uma daquelas questões dificílimas de São Tomás. Quando estudarmos as questões atinentes à natureza dos anjos, ela certamente ficará mais clara.
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