Ninguém tem dúvida de que o tempo passa para si. Mas há uma dimensão interessante do tempo, sobre o qual pouco refletimos antes de ficarmos mais velhos: o tempo, além de passar para nós, também passa em nós. Como dizem os dois versinhos da velha canção “A Lua e Eu”, de Cassiano:

Quando olho no espelho/

Estou ficando velho e acabado…

De fato, na física que São Tomás conhecia, nem todas as coisas estavam sujeitas ao tempo em si mesmas. Os corpos celestes, por exemplo, eram vistos como seres alheios ao passar do tempo em si mesmos: não sofreriam corrupção jamais. A lua, por exemplo, era capaz de se mover no céu, mas não de envelhecer. O tempo passaria para ela, mas não nela. Por isto, na física de São Tomás, o título da canção popular que eu citei acima traria uma verdade: entre a lua e eu, eu fico velho, mas a lua, não

Sabemos que esta física estava equivocada. Os corpos celestes, sabemos hoje, também sofrem corrupção, e o tempo passa não somente para eles, mas também neles. As crateras lunares são uma prova cabal disso: a lua sofre corrupção, estraga, e um dia não existirá mais. O sol fica velho, a lua fica velha, eu fico velho. Vivemos, então, as duas dimensões do tempo: a dimensão, digamos, objetiva, que é compartilhada por todas as coisas materiais, de um dia ter sido novo e depois, com o passar do tempo, ficar velho. A segunda dimensão é o de perceber o passar do tempo. Esta dimensão, como estudamos no texto anterior, é própria dos seres inteligentes; o tempo passa para todos os seres, mas somente os seres inteligentes são capazes de se dar conta de que o tempo passou. Um ser dotado de sensibilidade é capaz mesmo de estimar as mudanças, como meu cão faz quando lhe atiro uma bola: ele é capaz de persegui-la e mesmo de apanhá-la em pleno voo, o que demonstra que ele percebe a mudança da posição da bola e é capaz de estimar onde ela estará em seguida, de modo a apanhá-la, como uma presa, antes que ela caia. Mas ele jamais se dará conta de que está mais velho, ou mesmo será capaz de calcular o tempo de gestação da sua fêmea de modo a preparar-se para ajudar-lhe no parto. O tempo passa nele, o tempo passa para ele, mas ele não se dá conta, reflexivamente, do tempo, de modo a poder fazer a recomposição da sequência temporal, ou mesmo de exercer deliberadamente algum tipo de providência. Cães não são bons contadores de causos, nem bons economistas.

Mas o que dizer dessas criaturas capazes de acompanhar reflexivamente a passagem do tempo, e mesmo discernir entre a sequência do que já passou e do que ainda vai acontecer? A capacidade de refletir sobre o tempo, e mesmo de perceber o encadeamento da sucessão dos fatos, é de um certo modo uma capacidade de transcender o tempo. É um traço de evidência para a natureza espiritual de algum ser: a espiritualidade consiste exatamente nesta capacidade de refletir sobre as dimensões materiais da vida, de um modo relativamente independente da matéria. A minha mente não funciona em sincronia com meu relógio, e em muitos sentido o transcende. Há minutos que parecem eternidades, como aqueles transcorridos numa cadeira de dentista. E há horas que parecem breves momentos, como aquelas que marcam um bom papo com os amigos.

Não é por outro motivo que a fala popular inventou uma expressão curiosa para descrever uma demora que parece muito maior à percepção do que ao movimento dos ponteiros: “te esperei aqui por mais de uma hora de relógio…”

No entanto, mesmo na nossa capacidade de reflexão, não estamos livres do fato de que não podemos nos aplicar a infinitas coisas simultaneamente. Numa animada conversa de amigos, o assunto sempre transcorre de maneira mais ou menos linear: ora falamos disto, ora daquilo…

Mas não se conclua disto que eu estou falando de um tempo psicológico. Não é isto. O tempo psicológico relaciona-se com a memória e com a imaginação, não simplesmente com a reflexão e a capacidade de dirigir a atenção para este ou aquele evento, ou mesmo de retirá-la dali. Estou falando de algo diferente. A sequência de eventos que atrai nossa atenção refletida tem, em si mesmo, uma objetividade: posso viajar no tempo quando estou absorto numa atividade ou numa conversa, mas esta viagem tem sempre um sentido só – do evento presente para o futuro. O fluxo da nossa atenção jamais se detém, objetivamente, num evento passado, como se fosse futuro, e vice-versa. E esta sequência é a mesma para todos os que a estiverem acompanhando; quem está morto, está morto para mim e está morto até para quem sequer o conheceu. Imaginá-lo, pensar nele, conversar sobre ele não vai trazê-lo de volta à vida em nenhuma dimensão. E nada no mundo pode mudar esta realidade. Este aspecto será tratado mais cuidadosamente no artigo 6 desta questão 10.

Um último aspecto deve ser ressaltado, nessa relação dinâmica entre uma inteligência e uma duração. Trata-se do limite criatural da inteligência, que impede o foco em diversos fluxos de eventos simultaneamente. Se estou aqui, não estou ali. Se estou proferindo uma palavra, não estou proferindo outra. Se estou entretido numa conversa, não estou pintando um quadro. Então, mesmo reconhecendo que a inteligência criatural tem a capacidade de acompanhar um fluxo de acontecimentos de modo relativamente independente do tempo no sentido material do termo, dando-lhe o sentido sequencial que só uma inteligência que se depara com um fluxo de mudanças pode dar, ainda assim essa inteligência não pode operar com mais do que um fluxo de cada vez, ainda que possa operar sobre eles alternando a atenção sobre diversos fluxos que ocorrem simultaneamente, e mesmo em espaços diferentes. Fiquei muito abstrato… vou dar um exemplo. Eu posso estar no meu trabalho, com o computador ligado, escrevendo um texto, com o meu aparelho celular sobre a mesa e acompanhando uma conversa numa rede social, enquanto a minha secretária aguarda para despachar comigo sobre um processo importante cujo prazo está perto de terminar. Estes fluxos de acontecimento são simultâneos, é verdade, mas a atenção que eu dou para eles, embora possa alternar-se rapidamente entre o computador e o celular, e entre estes e a minha secretária, somente comporta uma atividade de cada vez.

O tempo, como vimos, relaciona-se com a mudança muito estreitamente; e isto se dá, como vimos, em duas dimensões; em mim e para mim. Em mim, conforme eu próprio sofro mudanças, envelheço, e para mim, conforme as mudanças das coisas se evidenciam à minha inteligência. Mas como seria se eu fosse uma pura inteligência, que não se substanciasse num corpo material? Neste caso, as mudanças aconteceriam para mim, e eu as perceberia, mas eu mesmo não estaria sujeito a mudanças, porque, se eu fosse desprovido de matéria na minha composição substancial, eu jamais envelheceria. Outro aspecto que ficaria evidente, também, seria a da minha criaturalidade: mesmo desencorpada, minha inteligência permaneceria com o limite criatural de focar a atenção e a operação em uma coisa de cada vez, embora eu pudesse alternar a minha atenção com muito mais fluidez, já que estaria livre da necessidade de deslocar-me fisicamente de um lugar para outro. O fluxo das mudanças não necessariamente seguiria, para mim, o ritmo da matéria, mas o ritmo da minha atenção; no entanto, minha condição criatural me impediria de reabrir o fluxo daquilo que já ocorreu, que já passou. Eu também teria que observar a objetividade de um fluxo que prossegue do que foi para o que será, irremediavelmente.

Estas criaturas cuja estrutura é de inteligências desencarnadas que acompanham, por sua operação, o fluxo das mudanças, chamam-se anjos, e não estão sujeitas ao tempo como nós, que envelhecemos. Mas estão sujeitas ao fluxo das mudanças, num processo que São Tomás, e com ele a filosofia escolástica, chama de evo. Esta palavrinha é muito utilizada hoje em dia, compondo termos como evolução; mas pouco paramos para estudar exatamente o que ela significa.

Esta é uma questão de extrema importância na teologia cristã. De fato, é a noção de evo que nos permite entender a questão da escatologia intermédia, vale dizer, o fato de que, mesmo mortos, aguardaremos o fluxo dos acontecimentos para o retorno do Senhor e a redenção da criação. Este fluxo, que se dá para quem já está fora do tempo, porque está morto, é exatamente o evo.

É este assunto que São Tomás vai discutir agora. O que será este evo? O que será esta relação entre um fluxo de eventos e uma inteligência que não está sujeita, em sua substancialidade, ao tempo, mas que intelige também por sucessão? Para controverter o debate, e apurar a natureza dessa relação, São Tomás nos atira a primeira hipótese negativa sobre o assunto: parece que o evo não é diferente do tempo. E nos apresentará os quatro argumentos iniciais que dão suporte a esta hipótese.

O primeiro argumento é retirado de uma citação de Santo Agostinho. Ele diz que “Deus move as criaturas espirituais no tempo”. Mas, como discutimos acima, a relação das criaturas espirituais com o fluxo das mudanças é chamada exatamente de evo. Então, este argumento conclui que tempo e evo seriam, no fundo, a mesma coisa.

O segundo argumento parte da diferença entre tempo e eternidade, que já estudamos nos textos anteriores. Ele afirma que é próprio do tempo fluir num movimento de sucessividade, do anterior para o posterior, enquanto a eternidade se caracteriza pela simultaneidade, ou seja, não pelo fluxo, mas pela plenitude. Mas aquilo que aqui é denominado de evo não se apresenta como uma simultaneidade, mas com sucessividade, condicionada e em si mesma posterior à eternidade, conforme o livro do Eclesiástico (1,1), citado aqui pelo argumento: a sabedoria eterna é anterior ao evo. Assim, o evo não se apresenta como algo existente em plenitude simultânea, mas com sucessividade. Então é apenas uma modalidade de tempo.

O terceiro argumento trata dos seres cuja duração está mergulhada no evo, que são os chamados seres eviternos. Se neles não há anterioridade ou posterioridade, ou seja, se são em si mesmos isentos do tempo (conforme a discussão que fizemos atrás), isto significa que não se pode estabelecer nenhuma diferença entre o que eles foram, entre o que são e entre o que serão. Então, é impossível que não tenham sido sempre e que portanto não tenham de ser para sempre também. Mas isto contradiria a criaturalidade destes seres, tirando-os da profunda dependência que toda criatura tem, no mais profundo de sua existência, com relação a Deus. É Deus que mantém na existência as suas criaturas, e eles sempre podem deixar de ser se Deus não as mantiver. Então, esta descrição de eviternidade só pode ser falsa.

O quarto argumento assume uma discussão que já fizemos quando estudamos a questão 7. Se a duração dos seres eviternos é infinita, uma vez que são criados, quanto ao que virá depois, e se o evo é inteiramente simultâneo, teríamos que concluir que há seres que foram criados infinitos em ato, o que seria impossível, segundo este argumento. Assim, colocar diferença entre o evo e o tempo levaria a um absurdo de ter que admitir a existência de criaturas atualmente infinitas. Portanto, este argumento conclui que não pode haver diferença entre o evo e o tempo.

O argumento sed contra é de Boécio. Este filósofo cristão antigo dirige-se a Deus e diz: “és tu quem separas o tempo do evo.

São Tomás, na sua resposta sintetizadora, nos demonstrará que o evo difere do tempo e da eternidade, sendo como um médio entre ambos. Veremos no próximo texto.