No texto anterior, vimos o debate sobre a diferença essencial entre tempo e eternidade, e como o debate se estabelece exatamente a partir da hipótese de que entre o tempo e a eternidade há apenas uma diferença de grau, mas não de essência. Foram basicamente três argumentos objetores, que pretendem nos provar que a eternidade nada mais é do que um tipo de super-tempo ou metatempo, capaz de englobar o tempo, mas não de transcendê-lo ou mesmo superá-lo. Se a hipótese inicial for verdadeira, a eternidade nada mais é do que um tempo interminável, ou mesmo um tempo de tempos, mas não algo radicalmente diferente do tempo, pleno, total e simultâneo.

Na sua resposta sintetizadora, que examinaremos aqui, São Tomás já começa afirmando radicalmente que o tempo e a eternidade são coisas diversas – non esse idem.

E qual a razão da diferença? São Tomás nos explicará que muita gente defende que a diferença entre o tempo e a eternidade é que o tempo tem começo e fim, mas a eternidade não tem começo nem fim.

São Tomás dirá que esta é uma diferença acidental, e não essencial. E ele não correrá de entrar numa discussão que em seu tempo era muito polêmica: e se o universo existir desde sempre e para sempre?

Esta era a posição de Aristóteles, que não conhecia a noção de criação. Esta também é a posição de alguns físicos de hoje, seja porque não reconhecem a teoria do Big Bang, seja porque defendem que o universo tem um ciclo de expansão e retração que conduz a infinitos recomeços. Se for assim, ou seja, se adotarmos a noção de que o universo existe desde sempre e para sempre, será que podemos dizer que ele é eterno, no sentido de eternidade que Boécio descreve e que São Tomás adota?

São Tomás nos diz que, mesmo que imaginemos que o tempo sempre tenha existido e sempre vá existir, ainda assim não podemos confundir um tempo de duração infinita com o a própria eternidade. São duas coisas diferentes. A diferença essencial, que São Tomás reafirmará aqui, é a diferença entre sucessividade estrita, própria do tempo, e a simultaneidade plena, própria da eternidade.

Mas, ainda que consideremos aqui não a medida da sucessão em si, como medida de movimento, mas a natureza da coisa que está sendo medida, há ainda outro argumento mais forte. De fato, se o universo existe desde sempre e para sempre, a sua duração seria infinita, e portanto não estaria sujeita a medida; é da própria noção de infinitude escapar à possibilidade de mensuração, como vimos quando estudamos a infinitude de Deus na questão 7. Ainda assim, o universo estaria sujeito a mudanças, e estas mudanças teriam início e fim, e portanto seriam mensuráveis no tempo. Então, mesmo que o universo tivesse uma duração infinita, a sua natureza intrinsecamente mutável determinaria que ele estivesse sempre sujeito ao tempo, mesmo que de forma cíclica. Portanto, um universo que durasse sempre não seria, em si mesmo, mensurável pelo tempo, em razão da impossibilidade de medir o que é infinito; mas estaria submetido ao tempo, em razão da sua natureza mutável, em cada uma e em todas as suas mudanças.

E há um último argumento que São Tomás nos traz, com relação à temporalidade de um universo, mesmo admitindo um universo com duração permanente. Trata-se da possibilidade de estabelecer marcos temporais ao se tomar o princípio e o fim em potência. O que São Tomás quer nos dizer aqui? Ele quer dizer que o tempo, num universo sem início e sem fim, sempre nos oferece a possibilidade (potência) de adotar marcos temporais de início e fim, considerando algum ou alguns dos seus ciclos. É exatamente isto que fazemos quando definimos um calendário: marcamos o ciclo da rotação da Terra para estabelecer a medida dos dias, e marcamos o ciclo de sua translação para estabelecer a medida dos anos. Não é possível fazer isto com a eternidade: em Deus não há ciclos de mudança que nos ofereça a possibilidade de fazer marcos de sucessão, cíclicos ou não, para fins de medida, simplesmente porque em Deus não há mudanças, como vimos ao estudarmos a questão 9.

Com tudo isto, São Tomás nos lembra que a discussão sobre a permanência da duração do universo, ou seja, se ele está aí desde sempre e para sempre, ou se teve um começo, não oferece nenhum problema insuperável na questão da distinção entre o tempo e a eternidade. Esta questão de saber se o universo teve ou não um começo, para São Tomás, não pode ser resolvida com os simples dados da razão. Mesmo porque a razão científica não pode se exercer fora do próprio tempo, então qualquer discurso que se apresente como científico e proponha hipóteses que envolvam sair e voltar do tempo, como é o caso da ideia de sucessivos recomeços num universo que expande e retrai, simplesmente não é científica. Se o universo puder retrair-se a ponto de comprimir-se num ponto adimensional e explodir num novo big bang, nenhuma informação seria transmitida do velho universo para o novo. Este recomeço, do ponto de vista científico, seria um começo de modo absoluto. O que passa disso é pura especulação filosófica, e só pode se justificar por pressupostos estritamente racionais. Que são insuficientes, diz São Tomás, para determinar, apenas com base na razão, se a duração do universo é ou não infinita.

Mas nada disto modifica a diferença essencial entre tempo e eternidade. O tempo se relaciona com tudo o que envolve mudança, e, portanto, sucessividade. A eternidade é própria do imutável, e se apresenta como plena simultaneidade. Não vamos confundir mais, portanto, a noção de eternidade com a ideia de um tempo infinito em sucessão.

É daí que São Tomás tirará a resposta ao primeiro argumento objetor – que, como nos lembramos, é aquele que parte da noção de duração. São Tomás diz que imaginar que a eternidade e o tempo são duas formas de duração sucessiva na qual a eternidade contém o tempo como os dias contêm as horas é não compreender a diferença essencial entre as duas noções. Elas simplesmente não pertencem ao mesmo gênero: a eternidade pertence ao gênero da vida plena que permanece na sua operação, e se apresenta como simultaneidade. O tempo se apresenta no gênero da medida, e se aplica ao que está sujeito a mudança.

O segundo argumento objetor é aquele que confunde a permanência de um instante temporal indivisível, como fração ideal do tempo, com a permanência da eternidade. São Tomás fará, aqui, uma construção filosófica difícil, mas que apresenta uma resposta inapelável a esta discussão.

Ele nos afirma que o instante permanece o mesmo quanto ao sujeito, mas difere quanto à razão. O que ele quer dizer com isto?

Para entender melhor, vamos pensar em termos de fotografias instantâneas. Se fotografarmos toda uma sequência de instantes de um movimento qualquer, digamos, da corrida de um cavalo, perceberemos que o sujeito das fotografias permanece sempre o mesmo: é o cavalo que corre, em cada foto. E no instante congelado que cada foto revela, há a permanência do momento indivisível daquele sujeito. A imagem da foto é imóvel em si mesma, e permanecerá assim para sempre. Mas a minha razão é capaz de reconstruir o movimento do cavalo que foi fotografado enquanto corria, a partir da sequência das fotos. É neste sentido que São Tomás diz que o sujeito em movimento permanece subjetivamente igual, mas difere segundo a razão, porque somente a razão é capaz de apreender a sucessão do que ora está aqui, ora ali. Por isto, podemos afirmar que somente uma razão é capaz de apreender o tempo, porque somente ela é capaz de associar o antes e o depois, medindo-os. Mas, neste ponto, São Tomás difere essencialmente de Kant: não é a razão que cria o tempo, nem o tempo é uma espécie de condição transcendental de conhecimento racional. A sucessão, na mudança, ocorre na própria coisa e é real. A razão permanece como única instância capaz de compreendê-lo e reconstruí-lo, mas de modo nenhum como capaz de criá-lo ou de projetá-lo nas coisas. Esta é uma prerrogativa exclusiva da inteligência divina.

E a eternidade? Nela não há mudança, nem quanto ao sujeito, nem quanto à razão. Não dá para tirar uma sequência de fotos de Deus em operação. Não porque ele esteja parado, mas porque não há no dinamismo em simultaneidade dele mudança que possa marcar qualquer ciclo de alterações sucessivas. Portanto, não há nenhuma identidade possível entre a eternidade e o tempo.

Por fim, o terceiro argumento objetor inicial usa a noção de que a eternidade mede o primeiro ser, que é Deus, para dizer que ela deve ser o critério para medir todos os seres, e negar a diferença essencial entre tempo e eternidade.

São Tomás nos lembrará que a eternidade, sendo idêntica à própria vida de Deus, é uma medida própria do ser em sentido pleno, que é Deus. O tempo é a medida própria da mudança, que não existe em Deus. Por isto, na exata proporção em que um ser está sujeito à mudança, ele está sujeito ao tempo. E não se trata de medir apenas as mudanças que se efetivam: o tempo mede não só a mudança no sentido da passagem da potência ao ato: ele mede também o repouso daquilo que tem potencialidade para mudar e não muda. O tempo passa para aqueles que agem, e passa também para os preguiçosos. Como descobrirão aqueles que acham que se assemelham a Deus deixando de viver para não envelhecer, não são os compromissos e as decisões que nos envelhecem; ao contrário, ao decidir se comprometer com a verdade, escolhendo o bem, o ser humano chega mais perto da perfeição, e portanto se aproxima da eternidade. Ao hesitar em se comprometer, para manter perante si todas as possibilidades abertas como um eterno adolescente, a inevitável passagem do tempo vai transformar em incompletude permanente a covardia dos que não ousaram viver.