A eternidade não é uma simples medida de duração. Levar a sério a definição de Boécio, que São Tomás debateu no primeiro artigo desta questão, implica considerar a eternidade como vida: a eternidade é a própria vida de Deus.

Lembrar disto é importante. Entre tempo e eternidade, como veremos neste artigo, não há simplesmente uma diferença de grau, como se a eternidade fosse uma espécie de tempo interminável. Há uma diferença de gênero, mesmo. A eternidade está no gênero da vida. O tempo está no gênero das medidas. O tempo relaciona-se com a mudança. A vida, com a operação, e portanto com a perfeição. Há duas consequências para isto:

1. Há uma diferença entre a vida eterna e a imortalidade. A imortalidade é a característica própria daquilo que não pode sofrer corrupção, vale dizer, que nunca será substancialmente destruído. Eu tratei um pouco disto no último texto. De fato, os seres essencialmente imateriais, como os anjos, ou aqueles seres em que as formas substanciais são subsistentes, como os seres humanos, quanto à sua alma espiritual, são imortais. Mas não necessariamente têm a vida eterna. A vida eterna é uma participação na própria vida de Deus, e ninguém pode alcançar esta participação sem que o próprio Deus a conceda. Por isto, a salvação não é simplesmente ser imortal. Isto nós, de certo modo, já somos. Salvar-se é ser admitido à vida eterna, e isto só Deus pode fazer por nós. Mas estamos adiantando o assunto – somente muito mais tarde, aqui na Suma, São Tomás vai tratar de salvação.

2. A segunda consequência é que há uma diferença entre início e princípio, na própria noção de tempo, que São Tomás vai debater agora, aqui neste artigo. Algo pode ter princípio mesmo que, a rigor, não tivesse um início. Vale dizer, mesmo admitindo, por exemplo, que o universo tenha existido desde sempre, ou seja, que ele não tenha um início, temos necessariamente que admitir que ele tem um princípio, no sentido de que a sua existência não pode ser explicada a partir dele mesmo. Não vou voltar a esta discussão, que seria simplesmente uma retomada daquela que já fizemos quando examinamos as cinco vias. Mas não podemos confundir o fato de que há hipóteses filosóficas e científicas de que o universo não teve um início (como a teoria dos multiversos, ou mesmo a teoria da expansão e contração, que propõe a ideia de infinitos efeitos big bang sucessivos) com o fato de que a própria existência do universo precisa de uma explicação principiológica fora de si mesmo – que é a segunda via de São Tomás. Em suma, mesmo se o universo não tivesse um início no sentido temporal, ele tem um princípio, que é deus, do qual ele depende do modo radical – na sua própria existência.

Vamos ao artigo. São Tomás começa nos afirmando que, se alguém quer debater este tema, começa apresentando a seguinte hipótese: parece que a eternidade não é outra coisa com relação ao tempo; vale dizer, segundo esta hipótese, o tempo e a eternidade seriam noções da mesma espécie. Não seriam essencialmente diferentes entre si.

São três argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial. O primeiro argumento parte da noção de duração. Não é possível, diz o argumento, pensar em duas medidas simultâneas de duração, senão quando uma é parte da outra. Por isto, não podemos pensar em duas horas simultâneas, porque uma hora nunca pode ser parte de outra. Sempre que pensarmos em duas horas diferentes, ou em dois dias diferentes, estamos pensando em duas horas sucessivas, ou em dois dias sucessivos. Mas quando uma medida de tempo inclui a outra, podemos pensar nelas como simultâneas. Assim, as horas de um dia são parte deste dia, como os minutos de uma hora são parte desta hora; portanto, o dia transcorre simultaneamente com as horas e os minutos que o compõem.

O argumento tenta aplicar o mesmo raciocínio ao tempo e à eternidade. Se ambos implicam medida de duração, diz o argumento, e se a eternidade pode ser descrita como simultânea ao tempo, então uma deve fazer parte da outra. Ou seja, a eternidade seria apenas uma espécie de “supertempo”, ou de “metatempo”. E o argumento conclui que, uma vez que é a eternidade que excede o tempo e o inclui, como as horas excedem os minutos e os incluem, então o tempo é apenas uma parte da eternidade, e não algo distinto dela.

O segundo argumento parte da noção de instante. O instante, aquele momento ínfimo, é visto aqui como uma partícula indivisível do tempo, como o ponto seria uma partícula indivisível do espaço. O instante, pois, como momento mínimo, teria a característica de permanecer o mesmo em todo o decurso do tempo, segundo Aristóteles (O Filósofo, lembram?) no Livro IV de sua Física. O instante seria, então, uma espécie de fotografia, rígida na sua indivisibilidade. O argumento, então, prossegue, assumindo que é próprio da razão de eternidade permanecer a mesma, ser indivisível com relação à passagem do tempo. Neste sentido, o argumento assume que a noção de eternidade corresponde à noção de instante temporal. Mas o instante temporal, sendo princípio do tempo, não difere substancialmente do próprio tempo. Portanto, igualmente a eternidade não seria substancialmente diferente do tempo.

O terceiro argumento também usa os estudos de Aristóteles na sua obra “Física”, Livro IV. Aristóteles diz que a medida do primeiro movimento vale como medida de todos os movimentos. Então, diz este argumento, aquilo que é a medida do primeiro ser deve valer para medir todos os seres; mas a eternidade é exatamente a medida de Deus. Logo, se Deus é o primeiro ser, e a eternidade é a sua medida, então ela deve ser a medida de todos os seres. Mas, como o ser das coisas corruptíveis é medida pelo tempo, então o tempo, que mede as coisas corruptíveis, ou é a própria eternidade ou é alguma parte dela.

O argumento sed contra é simples; contrapõe a noção de tempo com a noção de eternidade. Ele lembra que é próprio da eternidade ser completamente simultânea, enquanto o tempo se caracteriza pela sucessividade, ou seja, por medir o antes e o depois. Portanto, o tempo e a eternidade são radicalmente diferentes.

E São Tomás vai nos dar sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.