No último texto, introduzimos uma pequena conversa sobre a estrutura dos raciocínios por analogia e a diversidade entre a ordem do ser e a ordem do conhecer, na inteligência humana, e sobre a necessidade de deixar bem claros os limites do pensamento analógico. É por isto que São Tomás, quando introduz as noções que correspondem a Deus, sempre faz questão de deixar bem claro em que sentido elas estão sendo predicadas de Deus – o sentido que é próprio – e em que sentido elas podem ser predicadas das criaturas – sempre de modo derivado e participado. O nosso último texto, portanto, iniciou o debate sobre a forma própria de predicar a eternidade a Deus. expusemos a hipótese polêmica, com a qual São Tomás iniciou o debate, e os três argumentos objetores iniciais que a sustentam. A hipótese adversa a ser debatida e refutada, como nos lembramos, é a de que a eternidade não é própria de Deus, e pode ser predicada de outros seres de modo unívoco àquele com que é predicada de Deus. Já vimos os três argumentos objetores, vamos ao argumento sed contra.
O argumento sed contra vem da correspondência entre São Jerônimo e o Papa Dâmaso; São Jerônimo afirma textualmente que só Deus não tem princípio. Ora, tudo o que tem princípio não pode ser eterno em sentido próprio. Logo, ser eterno, em sentido próprio, é característica de Deus.
É muito conveniente que, num artigo em que o debate apanha argumentos objetores fortemente lastreados nas palavras da Vulgata, o argumento sed contra tenha sido retirado de São Jerônimo, que, como sabemos, é o autor da tradução da Vulgata. São Tomás parece nos querer dizer que o próprio autor da tradução que está sendo utilizada no debate já afirmou, categoricamente, em correspondência com o próprio Papa que o comissionou com esta tradução, que o texto que ele traduziu não pode ser lido da maneira que os argumentos objetores o leem.
Na sua resposta sintetizadora (que nunca é uma afirmação apodítica, magisterial, arrogante e unilateral, mas sempre é uma ponderação que sabe colher o que há de verdade nos argumentos objetores iniciais e no argumento sed contra, harmonizando-os de maneira genial), São Tomás inicia afirmando que a eternidade, de maneira própria e absoluta, deve ser predicada apenas de Deus. A noção de eternidade, como São Tomás explicou no artigo 1 desta mesma questão, está intimamente relacionada à noção de imutabilidade; ora, a imutabilidade só pode ser predicada de modo absoluto de Deus, como foi visto quando estudamos a questão 9, artigo 2. Então, por consequência, somente dele se pode afirmar a eternidade em sentido próprio. Neste sentido, Deus é a própria eternidade.
Isto não exclui, porém, que os seres criados participem de algum modo da eternidade, sempre de maneira limitada e análoga. São Tomás citará passagens da Bíblia em que se fala da eternidade da terra, como no Livro de Eclesiastes, 1, 4 (a terra sempre permanece…) ou mesmo das colinas eternas citadas na versão do Livro dos Salmos da Vulgata (75, 5). Neste caso, estas realidades são chamadas eternas simplesmente porque são de longuíssima duração, e permanecem estáveis aos olhos dos seres humanos, cuja vida terrena é breve e incapaz de testemunhar as mudanças que a Terra, ou mesmo as grandes colinas, sofrem ao longo de sua existência. De certo modo, a Terra e as colinas são eternas para nós, seres humanos. Mas não em si mesmas.
Há ainda outras criaturas que participam da eternidade. São os santos anjos e os humanos que entraram na vida da glória de Deus. Além da incorruptibilidade, possuem estabilidade na operação, ou seja, possuem aquele tipo de imutabilidade dinâmica que caracteriza exatamente a divindade. Mas também aqui há uma eternidade derivada, participada, porque foi por dom da graça divina que eles a alcançaram, e não como parte da sua estrutura ontológica. É por conhecer a Deus, por estar nele, no sentido dito por Jesus em João 17, 3, que eles estão na eternidade: “Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele a quem enviaste, Jesus Cristo.” Deles se predica a eternidade apenas de modo relativo, participado e derivado. (Conhecer, aqui, não está no sentido moderno, nominalista, mas no sentido clássico, bíblico, de relacionar-se, de conter em si o conhecido de modo intencional). É um sentido muito diferente, portanto, do sentido próprio que a eternidade tem, quando predicada de Deus.
São Tomás passará a responder às objeções. A primeira objeção, como nos lembramos, é aquela que resgata o uso do plural “eternidades” no texto da Vulgata. São Tomás explicará que o plural, aí, abarca a eternidade em sentido próprio, que é a própria vida de Deus, e a eternidade em sentido derivado, como participada pelas criaturas.
A segunda objeção é a que cita o “fogo eterno” mencionado no Evangelho de Mateus, como um exemplo de algo que também é dito “eterno” em sentido próprio.
São Tomás dirá que a expressão fogo eterno”, aqui, tem um sentido completamente diferente da eternidade como a estamos estudando. Aqui, não se trata nem sequer de participação na eternidade divina (entendida como a própria vida de Deus). Aqui, eterno significa simplesmente inextinguível, interminável. As almas dos condenados são imortais, e suas penas, inextinguíveis. Isto demonstra, inclusive, a importância da distinção entre a imortalidade da alma (que é uma característica ontológica dos seres espirituais), por um lado, e a vida eterna, por outro. A imortalidade não é, em si mesma, uma bênção: uma alma imortal que não alcança a vida eterna pode ficar num estado em que a sua dor é imutável e inextinguível. Sofrer e não poder morrer nunca mais. Isto é o inferno; é bom temê-lo.
O terceiro argumento objetor, como nos lembramos, fala dos seres necessários como eternos em sentido próprio. Mas São Tomás responderá aqui lembrando que o conceito de coisas necessárias é um conceito propriamente lógico, e não simplesmente ontológico: necessário se diz daquilo que é verdadeiro. O que é verdadeiro tem, em si mesmo, total correspondência entre ser e espírito, ou seja, a sua existência corresponde àquilo que dele existe no intelecto divino. Ainda estudaremos melhor o problema da verdade na questão 16 desta parte da Suma. Por enquanto, basta-nos entender que a verdade se impõe por necessidade por implicar uma correspondência entre aquilo que é e aquilo que está na mente de Deus. É esta a razão pela qual as deduções dos raciocínios verdadeiros são necessárias: porque refletem para nós o conhecimento do próprio Deus. Neste sentido, o que é necessário tem a eternidade por participar da vida divina no intelecto de Deus. E assim acabamos o estudo deste artigo, com uma vontade imensa de arrematar louvando a Deus pela inteligência de São Tomás.
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