A questão da eternidade é mais uma daquelas questões importantíssimas que hoje é pouco discutida. A ciência contemporânea, depois das descobertas de cientistas como Einstein e Heisenberg, sabe que o tempo e o universo estão muito intrinsecamente relacionados. A rigor, não se pode falar de tempo de modo independente do próprio universo, que, segundo o atual modelo cosmológico hegemônico, tem seu marco inicial no “big bang”, tem limites e está em expansão. Então, a rigor, nem sequer podemos falar num “antes do universo”, ou mesmo num “tempo anterior ao ‘big bang’”, porque o tempo e o espaço surgem simultaneamente ali. O que havia antes? Parece não fazer sentido nem perguntar: a própria pergunta não faz sentido. Do ponto de vista científico, não há um antes. E o que há, então?

Como poderíamos refletir sobre aquilo que está fora, por definição, da própria possibilidade de conhecimento? Como imaginar aquilo que está fora da própria possibilidade de figuração? Eis o problema. São Tomás já tratou um pouco dele na questão 1, e voltará a ele na questão 13 – as suas chaves são a Revelação, a reflexão filosófica e a analogia.

Nesta questão – que é um pouco mais longa do que as questões anteriores – São Tomás trará a debate exatamente aquilo que está além do tempo, não apenas no sentido de estar ilimitadamente no tempo, mas no sentido de estar fora mesmo da própria noção de tempo que, para nós humanos, é a única forma de existir. Somos temporais. As noções de duração, de sucessão e de movimento são tão arraigadas em nós que Kant, o iluminista célebre, colocou-as como categorias transcendentais de conhecimento, ou seja, balizas gnoseológicas do nosso espírito, categorias que limitam a possibilidade de conhecimento racional, por um lado, daquilo que é mera dogmática sem racionalidade, do outro. Para Kant, o tempo não é, a rigor, uma categoria das coisas, mas do espírito que as conhece. O que são as coisas, nunca saberemos, para Kant. Conhecemos apenas os objetos que se apresentam a nós nas categorias transcendentais de espaço e tempo.

Não quero debater Kant, a quem aliás conheço muito pouco – li muito sobre ele, mas confesso que li pouquíssimo das coisas dele. Vamos nos ater a Tomás, penitencio-me.

O tempo, em Tomás, é uma propriedade do universo. Não é uma característica do nosso espírito que conhece, mas do modo de ser das coisas. E a eternidade não é, de modo algum, uma espécie de tempo infindável; ela difere essencialmente do tempo. Pertence a outra categoria, que transcende o universo, mas o envolve e abarca. O debate sobre o tempo e a eternidade é o debate sobre o modo criatural de ser e o próprio “modo de ser” de Deus. Às criaturas naturais, o tempo. A Deus, a eternidade. É este o debate em jogo aqui.

Mas há uma outra categoria, que também está em jogo nesta questão 10: a categoria meio misteriosa (para nós) do evo. De fato, se relacionamos tão estritamente o tempo com o universo, e o universo é o conjunto das criaturas materiais, temos um problema a resolver: como lidar com as criaturas espirituais subsistentes, como os anjos e as almas dos falecidos? Como veremos mais tarde ainda nesta primeira parte, há uma discussão muito profunda sobre estas duas categorias de seres. A rigor, eles não poderiam estar submetidos ao tempo, como definido nesta questão, porque não são materiais de modo nenhum. Mas tampouco dispõem de natureza divina, para estarem simplesmente mergulhados na eternidade. Há, portanto, uma espécie de sucessão de eventos no evo, que difere essencialmente tanto do movimento material, quanto da posse simultânea de tudo, na eternidade. O evo é a categoria que permite entender a sucessão de eventos própria de espíritos criados, limitados pela essência a lidar sucessivamente com aquilo que se lhes apresenta na existência, mas livres da prisão material dos relógios. Temos alguma experiência disto quando, entretidos com alguma tarefa muito interessante, sentimos a sucessão de eventos como algo apartado da cronologia mecânica da matéria: o tempo voa e não percebemos. Ou, ao contrário, quando estamos entediados com alguma situação desagradável e os ponteiros do relógio parecem eternizar-se…

Nos seis artigos desta questão, lidaremos, portanto, com a eternidade e sua relação essencial com o ser de Deus, o evo e sua relação com a vida espiritual, e o tempo, com sua mecânica implacável. Debates interessantíssimos chegando. Um conselho? Estamos no recinto da eternidade. Sem ironia: Não tenhamos pressa; trata-se de um dos recintos mais agradáveis desta catedral tomista.