Passamos por mais um belo detalhe da grande catedral tomista, com as questões 07 e 08, respectivamente sobre a infinitude de Deus e sua onipresença. Agora entramos na questão 09, que fala da imutabilidade de Deus. É uma questão curta, mas que muitas vezes foi mal lida e mal compreendida. Deu margem a muitas acusações de que São Tomás retrata Deus como indiferente e impassível, imóvel enquanto o mundo ferve. Veremos que não é bem assim. Aliás, não é nada assim.
Confesso que às vezes me impaciento nesta visita à Suma. É um ritmo de caminhada muito diferente daquele que estamos acostumados hoje: não há nenhum “senso de videogame” aqui. A caminhada não segue em nosso ritmo, mas no ritmo de Deus. E isto é bom. Muitas vezes me emociono, lendo esta ou aquela passagem da Suma e pensando: quantos olhos santos, quantos Papas grandiosos, quantos teólogos geniais leram estas mesmas passagens e as aplicaram em sua vida e em seus ensinos! É uma sensação muito similar àquela de ler passagens do Antigo Testamento que foram diretamente citadas por Jesus, e pensar: olha, Jesus também leu este livro, e estas passagens aqui foram importantes na vida dele! Um dia ele descobriu este trecho, leu, meditou, rezou, emocionou-se, como hoje eu também leio o mesmo trecho, descubro que os olhos dele repousaram no mesmo lugar, emociono-me.
Lembro de uma sensação que eu senti algumas vezes, quando visitava velhas catedrais na Europa (ou mesmo em cidades históricas brasileiras) e tive a exata impressão de me ajoelhar num templo verdadeiro, lugar de tantas missas, de tantas orações angustiadas, de tanta presença de Deus ao longo dos séculos. Quando contemplo a Suma, tenho uma sensação semelhante a esta. De pertença, de comunhão dos santos, de redescoberta do lugar antigo, belo, aconchegante e sagrado de reencontro com Deus. Tanto na grandeza quanto nos detalhes.
O detalhe agora é a imutabilidade. É o tema desta questão 09, que tem apenas dois artigos.
Antes de começarmos, é bom esclarecer uma pequena questão de terminologia. Temos a tendência a ler “imutabilidade” como imobilidade, rigidez, indiferença, distância. Nada mais equivocado. Em outra passagem da Suma (Suplemento, questão 75, artigo 1, ad 4), há uma belíssima frase, que estatui que, se a perfeição do coração é bater, ele se assemelha mais à imutabilidade de Deus quando está batendo do que quando está parado, “porque a perfeição do coração está em mover-se, e parar representa a sua destruição”.
Portanto, imutabilidade não está, aqui, como sinônimo de imobilidade, mas como sinônimo de inalterabilidade. Há uma diferença terminológica importantíssima, portanto, a ser resgatada: a diferença entre o movimento que leva a potencialidade a transformar-se em perfeição, em ato, e que implica, pois, em mudança no ente que sofre este movimento, e a operação do ente que está em ato, e que pode levar as potências de outros entes a aperfeiçoarem-se. Esta é a chamada “potência ativa”, plena em Deus, e que está sempre em operação. Isto não significa que Deus seja um ativista, uma espécie de turbina perpétua que tem que operar sempre e no grau máximo; Deus não é uma máquina, mas pessoa. Ele opera ali onde quer, como quer e quando quer. Mas Deus mesmo não está sujeito a mudanças – não há potencialidades, no sentido passivo, em Deus. Ele é aquele que era, que é e que vem, por todos os séculos dos séculos, amém. Deus é imutável no seu operar. E é pleno dinamismo na sua imutabilidade.
Portanto, como podemos ver, não é São Tomás, nem o cristianismo, quem adota o conceito pagão de Deus como impassível. São os pagãos que conseguiram intuir, de alguma forma, ainda que muito imperfeita, que Deus não muda. Mas o seu dinamismo, a força do seu atuar, a sua operação onipotente e amorosa, tudo isto vem revelado apenas em Jesus Cristo. Operar, em Deus, não é um movimento, no sentido passivo da palavra. Mas implica movimentar, levar suas criaturas das potencialidades à perfeição.
O primeiro artigo desta questão 9, que trata da imutabilidade de Deus, quer promover exatamente o debate sobre esta permanência. E São Tomás começa logo adotando a hipótese adversa: parece que Deus não é imutável. São três argumentos adversos, no sentido da hipótese inicial.
O primeiro argumento parte da ideia de que Deus move a si mesmo. O argumento cita Santo Agostinho, que diz que o Espírito criador move a si mesmo, embora não no tempo e no espaço. E conclui, daí, que Deus é, de certo modo, mutável.
O segundo argumento cita as Escrituras, mais especificamente o Livro da Sabedoria (7, 24), que afirma que “a sabedoria é mais móvel que qualquer movimento, e, por sua pureza, tudo atravessa e penetra”. Então, o argumento afirma que a Sabedoria, neste texto, é Deus mesmo. E conclui que á prova escritural de que Deus é mutável.
O terceiro argumento também é escritural. É da Carta de São Tiago (4, 8a), no Novo Testamento. O versículo diz: “chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós”. Desta passagem, o argumento conclui que Deus, sendo capaz de movimentar-se para aproximar-se de nós, é mutável.
Mas, como argumento sed contra, São Tomás citará mais uma passagem da Bíblia: (Malaquias, 3, 6): “Sim, eu, o Senhor, não mudo”. Esta questão, pois, traz um forte sabor de discussão bíblica, embora seja vista sempre como uma discussão filosófica, quase como uma adjudicação ilegítima de um conceito filosófico ao cristianismo. Nada mais distante disto. E talvez a multiplicidade de citações bíblicas seja providencial, para nos mostrar o quanto este tema é profundamente cristão e profundamente relacionado à Revelação.
São Tomás começa a sua resposta sintetizadora apoiando-se em tudo o que já foi debatido sobre Deus até agora. Ele nos afirma categoricamente a imutabilidade de Deus, e traz três argumentos definitivos, profundamente razoáveis, para isto:
1. Deus, como foi visto quando estudamos as cinco vias na questão 2, é ato puro, sem nenhuma mistura com potencialidades. Como nós vimos ao longo de todo este estudo, o ato é logicamente anterior à potência; portanto, é o ato que é o princípio, não a potência. Se Deus é o princípio de tudo, ele tem que ser puro ato, porque o princípio absoluto vem sempre logicamente antes, e as potencialidades vêm sempre logicamente depois. Tudo o que vem depois não pode estar em Deus. Logo, Deus não pode conter em si potencialidades. Ora, se não contém potencialidades, então Deus não pode mudar, porque a noção de mudança implica a passagem de uma potencialidade à sua perfeição, que é o ato.
2. Em tudo que muda, há algo que permanece e algo que se modifica. Por exemplo, uma coisa que muda de cor, digamos, uma parede branca que é pintada de vermelho, permanece substancialmente sendo parede, mas o seu aspecto se transforma. Para isto, é preciso que esta coisa tenha em si alguma composição, já que ela é constituída de aspectos que permanecem e aspectos que se transformam. Mas na questão 3 já vimos que em Deus não há composição, ele é a própria simplicidade. Então não há possibilidade de haver mudança em Deus.
3. Toda mudança implica que se adquira alguma coisa que antes não se tinha, ou que se atinja o que antes não se atingia. Mas a Deus, na sua perfeição total de ser, não falta ter nada, nem atingir nada. Portanto, não está susceptível à mudança. São Tomás nos lembra que esta verdade foi intuída pelos antigos filósofos, que afirmaram que “o primeiro princípio é imóvel” (imutável).
São Tomás passará, então, a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento é aquele que afirma que Deus muda a si mesmo, citando Santo Agostinho. São Tomás, muito diplomaticamente, não corrigirá expressamente Agostinho; no entanto, corrigirá a leitura, para retificar a expressão. São Tomás esclarece que “nesta passagem Agostinho se expressa à maneira de Platão, que chamava as operações de mudanças”. Mas as operações não são mudanças; são atividades, ou seja, expressão das próprias perfeições divinas (atos). As operações de Deus, que São Tomás estudará ainda nesta parte da Suma, são expressões das perfeições divinas. Mas como estas operações têm por objeto primeiro o próprio Deus (Deus intelige a si mesmo e ama a si mesmo), Santo Agostinho, falando ao modo de Platão, dizia que Deus move a si mesmo. Mas esta atividade divina, na verdade, não implica a passagem de nenhuma potencialidade ao ato, mesmo porque, como já vimos, não há potencialidades em Deus.
O segundo argumento parte da ideia bíblica de que a sabedoria, compreendida como personificação divina nas Escrituras, é mutável (Sb 7, 24). São Tomás nos esclarecerá que a sabedoria é mutável como participada, ou seja, naquilo que, nas criaturas, participa, derivadamente, da sabedoria divina. A sabedoria divina é primeiro princípio eficiente e formal de toda a sabedoria que há na criação, como a sabedoria que há na obra de arte é derivada da sabedoria do artesão. Tomás nos esclarece que não há sabedoria, natural, humana ou sobrenatural, que não seja originada na sabedoria divina. Por isto, São Tomás diz que há como que um avanço e um movimento para as coisas, a partir da sabedoria divina, de modo a imprimir nelas a sua semelhança. E compara a sabedoria divina com os raios de sol, que, sem modificar o próprio sol, avançam até a terra para iluminá-la e aquecê-la. `Por isto, este dinamismo da sabedoria divina deve ser descrito como uma atividade, mas não como uma mudança em Deus.
Por fim, o terceiro argumento objetor também cita a Bíblia, na passagem em que São Tiago fala de Deus como se aproximando daqueles que se aproximam dele. São Tomás descarta esta objeção rapidamente: como ele já havia ensinado na questão 01 da Suma, há passagens na Bíblia que são simplesmente metafóricas; aqui, a metáfora sobre “deus se aproximar de nós” não denota mudança em Deus, mas em nós, que, quando nos convertemos, percebemos mais claramente a influência da sua bondade em nós.
Como vimos, portanto, há aqui realmente uma grande contemplação do Deus cristão, dinâmico e relacional, imutável porque sumamente bom; e não uma simples transposição das ideias pagãs sobre a imobilidade de uma causa primeira fechada e indiferente. Quantas críticas a São Tomás seriam desvanecidas com a simples leitura direta de sua obra!
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