A avó da minha esposa era uma pessoa extraordinária, a quem eu admirava muito. Havia nela muitas qualidades, e uma em especial tem total pertinência com o que estamos estudando aqui. Era a sua capacidade de saber exatamente onde estava cada coisa que havia na casa. Muitas vezes vi alguém procurar uma coisa muito específica, como uma colcha que há muito tempo não era usada, ou uma peça de louça daquelas que só tinham serventia nas festas de final de ano. Depois de procurar muito pela casa, invariavelmente alguém desistia e perguntava à velha senhora onde estava aquilo. Ela, da sua cadeira de balanço, já enfraquecida pela idade, com pouca visão e audição, invariavelmente dizia com absoluta precisão em que canto obscuro de um armário esquecido aquela coisa estava guardada. E invariavelmente acertava. Todas as coisas daquela casa estavam presentes a ela, ainda que não lhe fossem fisicamente visíveis; estavam presentes em seu espírito porque ela sabia exatamente onde estavam e era capaz de localizá-las e nos fazer encontrá-las mesmo quando ninguém mais podia.
Este é, analogicamente, o que São Tomás quer dizer quando afirma que um dos modos pelos quais Deus está nas coisas criadas é o modo de presença. Ele usa exatamente o exemplo analógico das coisas de uma casa que, embora não estejam sob o olhar direto do dono da casa, estão sempre presentes ao seu espírito, porque ele sabe exatamente onde estão, como chegar até elas, para que servem e quando usá-las. Mesmo se ele não estiver fisicamente na casa, está sempre presente deste modo, pelo acesso, controle e disponibilidade de todas as coisas ali. Deus é um dono de casa perfeito.
A outra forma de estar nas coisas criadas é por essência. Quer dizer, é estar presente substancialmente; falando analogicamente, é como estar fisicamente em algum lugar. De corpo e alma. No caso de Deus, como tratamos no texto em que discutimos o artigo 2 desta questão, ele não tem corpo, e é simples (questão 3), então, quando ele está em algo por essência, isto significa que está ali inteiro, substancialmente, sem divisões ou separações.
Po fim, a terceira forma de estar nas coisas é por poder. É neste sentido que São Tomás usa a analogia do rei no território do seu reino: a sua soberania, o seu poder, se estende até os limites mais remotos do seu reino, mesmo que o rei jamais tenha ido substancialmente até lá. E mesmo que aquele ponto remoto não lhe esteja presente no sentido que as coisas da casa estavam presentes ao espírito da avó, como falei no parágrafo acima. Isto é o que significa estar em alguma coisa por poder.
Assim, dizemos que Deus está nas coisas criadas por essência, no sentido de que está sempre substancialmente relacionado, sempre de modo imediato e eficiente, à sua criação. Ele também está aqui por presença, no sentido de que todas as coisas criadas estão visíveis, abertas a ele, guardadas em seu espírito, à sua disposição efetiva. Por fim, dizemos que Deus está nas coisas por seu poder, porque todas as coisas se submetem imediatamente à sua providência amantíssima, e não há nenhuma que escape de seu controle. Ainda quando as criaturas livres possam desprezar os planos de Deus, e usar seu arbítrio contra ele, mesmo neste caso nada ocorre sem, ao menos, sua permissão. Não é possível ludibriá-lo, escapar do seu poder.
Estes são, portanto, os modos ordinários pelos quais Deus está na sua criação. De modo substancial ou essencial, de modo presencial e de modo potestativo, nada lhe é estranho ou oculto, ou escapa da sua providência maravilhosa.
Quanto ao modo extraordinário, da graça – com o qual São Tomás começa esta resposta sintetizadora e do qual já falamos um pouco na primeira parte deste texto, ainda quero ressaltar que cada vez que uma criatura inteligente conhece Deus em algum grau, seja o conhecimento natural da sua existência, seja o conhecimento revelado da sua essência, é o próprio Deus que se faz presente no intelecto da criatura. Não se trata de ter uma “ideia” de Deus, nem sequer de elaborar um “conceito” de Deus. Conhecer Deus em qualquer grau é tê-lo de fato presente a si pela graça, dentro do nosso intelecto criado. Uma noção poderosa assim deveria ser sempre lembrada nos diálogos interreligiosos e interculturais; ou seja, quando conversamos sobre Deus, mesmo sob diferentes enfoques, de certo modo o próprio Deus está realmente presente. Isto implica a necessidade de respeito religioso pelo outro, nestes diálogos. Conversar honestamente sobre Deus é também conversar na presença de Deus, e deve implicar sempre a consciência de que há uma dimensão cultual envolvida no debate honesto. Porque desejar a Deus honestamente é também um modo de tê-lo em si realmente, pela graça, lembra São Tomás. E deve ter por consequência amar o outro, mesmo na diferença, e não desejar a sua eliminação. Mas também deve implicar uma abertura à verdade, na caridade. Respeitar a diferença não significa, e não deve significar, aniquilar as diferenças em nome de uma noção equivocada de tolerância que põe a concórdia e a paz por cima da verdade e da reta razão. Ser tolerante não significa aceitar tudo o que o outro diz; significa aceitar o outro, mesmo tendo consciência de que ele não concorda comigo, e estar aberto a dar as razões da nossa própria esperança, com amor, paciência e honestidade.
A esta altura da sua resposta, São Tomás vai examinar exatamente o caso daqueles que têm noções equivocadas sobre o modo com que Deus está nas coisas. Ele cita: 1. Os maniqueus, que, como nós sabemos, são aqueles que acham que há dois princípios divinos na natureza, o princípio bom e o princípio mau. Assim, somente as coisas espirituais e incorpóreas estão sujeitas ao domínio do princípio bom, enquanto todas as coisas materiais e corpóreas são submetidas apenas ao princípio do mal. A estes, São Tomás dirá: Deus tem poder sobre todas as coisas. Ou seja, ele está em todas as coisas por seu poder. 2. Os deístas, que são os que acreditam que Deus só cuida dos seus próprios interesses mais altos e profundos, e não se interessa pelas coisas menores da criação. Para estes, o mundo criado está sujeito às suas próprias regras, e Deus não está nele, nem sequer se interessa por ele, senão muito rara e superficialmente. A estes, São Tomás dirá que Deus está presente na sua criação, ou seja, está nela pelo modo efetivo da presença. 3. Há, ainda, os que dizem que Deus criou apenas as coisas do princípio e estas deram origem a todas as outras, numa espécie de evolucionismo teísta. A estes, São Tomás lembrará que Deus está nas criaturas substancialmente, pelo modo da essência. Ele não tem intermediários, nem se deve pensar que o acaso ou um mecanismo de adaptação seletiva poderiam substituir, como se fossem intermediários na providência, sua imediatidade zelosa.
Assim, conclui São Tomás: Deus está em todas as coisas pelo seu poder, porque todas lhe estão submetidas. Está em todas as coisas pela sua presença, porque tudo está descoberto e nu diante de seus olhos. E está em todas as coisas pela sua essência, porque é a causa primeira de que sejam e existam.
São Tomás passará a responder às objeções iniciais. O primeiro argumento objetor é aquele que confunde a noção de “estar por essência”, que agora já conhecemos pelas próprias palavras de São Tomás, com a noção de participar ou compor a própria essência das criaturas. São Tomás responde dizendo que a noção de estar por essência significa estar substancialmente, como causa agente do seu próprio ser, na existência criada.
O segundo argumento objetor confunde “estar presente às coisas” com “não lhes faltar”, para dizer que não há diferença entre estar nas coisas por essência, por presença ou por poder. São Tomás responde que já fez a distinção adequada entre estes três modos na resposta sintetizadora; e em Deus eles são distintos, mas não excludentes. Na pedagogia de São Tomás, ele deixará bem assentada esta distinção para fundamentar, mais tarde, a diferença entre, por exemplo, o poder de Deus sobre os demônios e a sua presença real na Eucaristia. Há sutilezas no modo com que Deus está nas coisas que podem ser perdidas se nós simplesmente os embaralhamos indevidamente.
O terceiro argumento quer acrescentar ao modo de estar nas coisas pelo poder divino uma suposta presença de Deus nas coisas pela ciência divina e pela vontade divina. São Tomás nos lembra que o correto é dizer que as coisas conhecidas estão em quem conhece, e as coisas queridas estão em quem ama. Por isto, São Tomás dirá que é mais correto dizer que as coisas estão na ciência e na vontade de Deus do que o contrário. Assim, a ciência divina e a vontade de Deus, a rigor, são modos de as coisas estarem em Deus, e não de Deus estar nas coisas. Mas não é assim com o poder de Deus: ele se relaciona com as coisas exteriormente, e a elas se aplica. Por isto, é próprio dizer que o poder de Deus é um modo próprio de Deus estar nas coisas. Mas não sua ciência e sua vontade.
Por fim, o argumento objetor que diz que há outros modos de Deus estar nas coisas criadas, e exemplifica a graça como um dos modos a mais, que não exclui outras perfeições que possam evidenciar a presença de Deus nas criaturas. O que este argumento quer nos convencer é que os modos de Deus estar nas coisas não formam uma lista exaustiva, mas simplesmente exemplificativa.
São Tomás dirá que não há outras perfeições acrescentadas por Deus às criaturas além da graça. Esta, de fato, representa um modo especial de Deus estar em suas criaturas. O modo da graça já foi bastante discutido por nós no texto anterior e neste. Mas São Tomás lembra que há de fato apenas mais uma exceção: a união hipostática da natureza divina com a natureza humana em Jesus Cristo! Mas esta é uma absoluta singularidade, da qual São Tomás tratará apenas na questão 2 da terceira parte: levaremos muitos anos para chegar até lá neste blog, se conseguirmos…
Deixe um comentário