Como já vimos quando estudamos o artigo 1 desta questão – e como verificamos todos os dias na nossa experiência humana, há muitas maneiras de constatar a imediatidade de Deus nas coisas. Quem já teve a oportunidade de visitar um pronto-socorro de uma cidade grande depois das duas da manhã, principalmente aos finais de semana, certamente relatará experiências de dor, de destruição, de sofrimento muito mais agudos do que encontraria, por exemplo, ao visitar um mosteiro beneditino durante a oração das Vésperas. No artigo 1, vimos que o agir de Deus, por exemplo, entre os demônios, se dá em razão da existência, do ser do demônio, que é criado e mantido na existência diretamente por Deus, mas ninguém esperaria encontrar alguma proximidade de Deus no agir demoníaco.

E neste artigo discutiremos exatamente isto: há mais de uma forma pela qual podemos descrever a relação, a imediatidade de Deus nas coisas. Que ele está em tudo, já sabemos; que a sua ubiquidade não encontra barreiras, já sabemos também, porque estudamos no artigo 2 desta mesma questão. Agora, estudaremos os modos pelos quais se pode dizer que ele está nas criaturas.

Em que consiste exatamente dizer que Deus está nas coisas por “essência, presença e poder”? São Tomás usará, na sua resposta sintética, algumas analogias para nos explicar em que consistem estas formas de estar nas criaturas; e, mais importante, nos mostrará também porque estas são as formas mais precisas para descrever esta relação.

É tempo de iniciar nosso debate. E começaremos admitindo a hipótese refutadora: parece que descrever a proximidade, a imediatidade, de Deus com as criaturas através das noções de “essência, presença e poder” não é adequado. E São Tomás trará quatro argumentos que tentam refutar que estas três noções sejam adequadas para descrever esta ideia.

O primeiro argumento faz uma confusão terminológica entre a ideia de estar em algo por sua própria essência divina com participar, com a essência divina, da composição da criatura. O argumento parte da noção de que, uma vez que sabemos (questão 3, artigo 8) que Deus não participa da composição de nenhuma criatura, logo não se poderia dizer que ele tem um acesso imediato, por sua essência, às criaturas. Assim, este argumento conclui dizendo que não seria adequado dizer que Deus está, por sua essência, nas criaturas.

É próprio da pedagogia de São Tomás usar, nos argumentos objetores iniciais, noções equivocadas dos conceitos com que ele está tratando, para somente explicá-los mais tarde, na resposta sintetizadora. Portanto, somente mais abaixo São Tomás vai nos explicar exatamente o que significa dizer que Deus está nas coisas por essência. Por enquanto, temos apenas o argumento objetor; mas como ele está lidando com noções que não são, de modo algum, familiares a nós quase 800 anos depois, muitas vezes o artigo parece ser muito mais obscuro do que é de fato.

Se me permitem uma digressão, eu confesso que muitas vezes, quando leio artigos da Suma, quase sinto uma expectativa de imaginar que os artigos objetores parecem tão razoáveis que São Tomás possa refutá-los ou corrigi-los. Nem sempre ele o faz: às vezes ele simplesmente concede que eles estão corretos, sob certo ângulo. Mas, quando ele os refuta ou corrige, é encantador perceber que ele o faz de uma maneira tão simples e precisa que muitas vezes faz a gente pensar: por que eu não pensei nisto antes? São Tomás não está neste negócio para “ganhar debate”, na linha do “como vencer uma discussão sem precisar ter razão”. Ele está aqui como um humilde servidor da verdade. Ele não quer ser o “dono da verdade”. Mas faz questão de que a verdade seja sua dona.

Voltemos ao artigo. O segundo argumento objetor define a noção de “estar em algo por essência” como “não faltar àquela coisa”. Mas tudo aquilo que se relaciona com outra coisa de modo a não lhe faltar nunca está sempre presente a esta coisa. Se é assim, não há razão para distinguir entre a noção de “estar em algo por essência” e a noção de “estar presente” a esta mesma coisa. Permitam-me um comentário pessoal: é fácil perceber a razão da confusão conceitual proposta por este argumento objetor. É fácil confundir a noção de estar por essência em alguma coisa (ou para alguma coisa) com a noção de estar presente a esta coisa. Eu mesmo já tive que retornar algumas vezes, no texto deste comentário, para corrigir as vezes em que involuntariamente usei a expressão “estar por essência” como sinônima de “estar presente a algo”.

Então, segundo este argumento, não haveria razão para descrever a proximidade de Deus com relação às coisas com dois termos que, no fundo, significariam a mesma coisa: estar por essência ou estar presente.

O terceiro argumento, diferentemente dos outros dois, não nega que estas três noções possam descrever a relação de proximidade entre Deus e as coisas. No entanto, ele afirma que estas três noções não são capazes de esgotar esta ideia, já que haveria outras noções que descrevem outros modos de Deus estar nas coisas. O argumento toma a noção da presença de Deus nas coisas por seu poder: se Deus é princípio das coisas por seu poder, ele também o é por seu conhecimento e por sua vontade. Assim, para este argumento, teríamos que acrescentar estes modos de Deus estar nas coisas: pelo conhecimento e pela vontade.

O quarto argumento também parte da ideia de que há outras maneiras além das três iniciais para descrever as maneiras pelas quais Deus está nas coisas; e o argumento exemplifica com a graça com que Deus se relaciona de modo especial com algumas criaturas suas. A graça seria, portanto, um modo especial de aperfeiçoar as suas criaturas que descreve uma maneira de Deus estar nelas. Por isto, este argumento acredita que, tendo provado que há outros modos (como a graça) pelos quais Deus pode estar nas coisas, estas maneiras não se esgotam com as noções de “estar por essência, por presença ou por poder”.

O argumento sed contra, neste artigo, tem uma característica interessante: ele parece dizer exatamente a mesma coisa que foi dita no quarto argumento objetor. O argumento é retirado de São Gregório, e distingue entre duas maneiras pelas quais se pode dizer que Deus está nas coisas; 1. a maneira comum, ordinária, em que se diz que Deus está nas coisas por essência, presença e poder, e e 2. a maneira de intimidade, de familiaridade, de relação de Deus com as criaturas inteligentes; aqui, Deus está na criatura que lhe é familiar pelo modo especial da graça. E é neste sentido, por esta distinção entre modos ordinários e extraordinários de estar nas suas criaturas, que este argumento sed contra se distingue do quarto argumento objetor, acima.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás vai iniciar admitindo de logo a distinção gregoriana acima registrada. De fato, ele diz que há dois modos pelos quais se pode dizer que Deus está em todas as coisas; o primeiro deles é como causa agente, ou seja, como autor. Aqui, há uma analogia possível com o autor de uma obra de arte; como se diz, por exemplo, que de algum modo Leonardo da Vinci está presente no retrato da Mona Lisa: dizemos que o quadro da Mona Lisa é um “autêntico da Vinci”. Desta maneira, como autor da criação, pode-se dizer que Deus está em todas as coisas que criou, de modo ordinário.

De maneira extraordinária, pode-se dizer, além disso, que Deus está nas suas criaturas inteligentes de um modo especial. Ele está nas chamadas “operações da alma” criaturas inteligentes, ou seja, está na inteligência da criatura, quando ela o conhece de algum modo, pela graça. E está também na alma da criatura que o deseja, pelo amor que a graça derrama naquele coração. É assim que Deus está nos seus santos – pela graça. Mas não é deste modo especial de estar nas criaturas que trataremos neste artigo. Interessa-nos aqui mais detidamente as maneiras ordinárias de Deus estar em todas as suas criaturas, pelo simples fato da criação, como causa agente. É o que debateremos com mais calma no próximo texto.