Na primeira parte do texto, vimos a hipótese inicial, os argumentos objetores e o argumento sed contra, que colocaram de modo amplo a questão da ubiquidade divina. Agora São Tomás responderá todas as objeções iniciais.

O primeiro argumento, como nós nos lembramos, é aquele que diz que, sendo incorpóreo, é inconveniente atribuir o acidente do lugar a Deus. Ora, uma vez que “ubíquo” nada mais é do que aquilo que está em todos os lugares, não se deveria atribuir este adjetivo a Deus. São Tomás nos responde que não é através do contato físico, dimensional, que atribuímos a ubiquidade a Deus, mas pela imediatidade do seu agir, do seu poder, que se estende a todas as coisas em todos os lugares.

O segundo argumento objetor é aquele que ressalta a noção de instante como unidade indivisível de ação ou de movimento; o instante, por definição, não pode se estender pelo tempo. Assim, não se pode falar de um instante que fosse “ubíquo no tempo”, por assim dizer. Fazendo então uma analogia com a simplicidade de Deus, que manifesta a sua indivisibilidade, o argumento afirma que não se pode atribuir a Deus uma ubiquidade, no sentido próprio, espacial, sem ofender à sua indivisibilidade.

São Tomás fará, então, uma distinção importantíssima: há duas formas de se falar em indivisibilidade. Uma é falar da indivisibilidade daquilo que é princípio, ou termo, de um determinado gênero. Se o tempo é a medida do que é sucessivo, como a extensão é a medida do permanente, Assim, o instante é o princípio indivisível do tempo por ser o termo do contínuo que é sucessivo, como o ponto é princípio indivisível da extensão, por ser termo do contínuo que é permanente. Neste sentido, tanto o instante quanto o ponto são indivisíveis por definição. É preciso lembrar, ademais, que estas duas noções não são coisas, são apenas abstrações, subsistentes apenas como entes de razão.

Mas não é disto que estamos falando quando falamos da simplicidade de Deus, de sua indivisibilidade. Em Deus não há continuidade, nem como sucessão, nem como extensão. Ele representa, pois, a plenitude do permanente e do sucessivo, porque é eterno, imóvel e pleno. Deus está, neste sentido, fora do gênero das coisas sucessivas, como está fora do gênero das coisas extensas. Também estão aí, de algum modo, os seres imateriais, como os anjos, e de certa forma o espírito humano; veremos mais sobre isto quando estudarmos a natureza espiritual criada. Ora, sendo indivisível pela totalidade, o seu agir se estende a todas as coisas com imediatidade e simultaneidade. E é neste sentido que se fala na ubiquidade divina.

A terceira objeção é aquela que declara que, sendo simples e indivisível, se Deus estiver em algum lugar, estará ali totalmente, e não poderá estar ao mesmo tempo em outro lugar sem dividir-se – pelo que, segundo este argumento, seria contraditório atribuir ubiquidade a Deus.

São Tomás fará aqui outra distinção interessante: entre as partes de alguma coisa composta e as partes de alguma coisa material. Diríamos que ele fala em partes físicas e partes metafísicas de algo. As partes físicas são os pedaços de alguma coisa. As partes metafísicas são a estrutura de alguma coisa.

Assim, falando metafisicamente, a essência das coisas materiais é composta de forma e matéria, como suas partes. E, falando do ponto de vista lógico, os gêneros são compostos de espécies, como de partes.

Portanto, se estamos falando fisicamente, eu só posso dizer que alguma coisa está totalmente num lugar se todos os pedaços desta coisa estiverem neste lugar. Neste sentido, que é o sentido físico, a relação conteúdo-continente é estritamente quantitativa.

Mas, se estamos falando no sentido mais propriamente estrutural, algo pode estar totalmente presente por essência num determinado lugar sem que a sua quantidade se esgote ali. São Tomás nos dará o exemplo da cor branca: numa parede pintada de branco, a cor branca está presente essencialmente em toda a sua extensão, o que não impede que outras paredes também essencialmente brancas existam em outros lugares do mundo. Neste caso, a cor tem uma relação com a tinta que é estritamente acidental: a quantidade de tinta que tem aquela cor não esgota a essência da cor, que pode apresentar-se também essencialmente em outra quantidade de tinta.

No caso dos seres espirituais, como os anjos, não há nenhuma relação com a quantidade, nem mesmo acidental, porque são imateriais por definição. Assim, a sua presença se dá exatamente pela ação da plenitude da sua essência. Do mesmo modo que não se poderia jamais identificar em qual parte do corpo a alma humana está presente, mas ela está essencialmente presente no corpo inteiro – presença imaterial e essencial – também a presença de Deus se dá de modo pleno e indivisível em tudo aquilo sobre o qual ele age; presença plena e indivisível.

E São Tomás vai nos ensinando, pacientemente, a contemplar a Deus através do uso analógico da nossa linguagem, aperfeiçoando-a para descrever aquilo para o qual ela não foi formada para descrever. Eu quase me arrisco a dizer que São Tomás faz um uso como que “sacramental” da linguagem teológica.