Vimos, no texto anterior, de que maneira podemos afirmar que Deus está em todas as coisas: com presença ativa, criadora e sustentadora do ser, Deus rege o universo a partir de dentro, como fonte eterna e sustentáculo do ser. E esta fonte, por seu poder infinito, age de modo imediato em tudo aquilo que é, sem intermediários nem qualquer distância.

Agora, neste segundo artigo, lidaremos com uma questão similar, complementar: em que sentido podemos lidar com esta imediatidade entre Deus e as criaturas? Lembramos que, no artigo passado, São Tomás estabeleceu um princípio importantíssimo, que nos ajuda a pensar em presença para além de limites físicos: um ente está ali onde ele opera. Para nós, isto implica imaginar sempre a proximidade local; e certamente esta presença está relacionada à proximidade, mas não no tipo de proximidade que conhecemos entre seres materiais. O que quer que signifique a presença de Deus na sua criação, ela envolve necessariamente duas coisas: uma proximidade total com tudo e com cada coisa, por um lado, e um tipo de presença que não se confunde com a localização material, por outro. Como isto se dá, é o que São Tomás quer debater agora.

Como de costume, São Tomás inicia o debate adotando a hipótese contrária ao que se quer verificar: parece que Deus não está em todo lugar (ubique). O termo latim ubique é de difícil tradução: diz, com uma palavra, aquilo que precisamos de termos compostos para definir. Talvez a palavra inglesa “everywhere” seja mais próxima da ideia de “ubique” do que a expressão do português “em toda parte”. Temos em português o substantivo “ubiquidade”, que deu o adjetivo “ubíquo”, originados exatamente do termo que São Tomás está usando. Nós os usaremos sempre que for possível.

O primeiro argumento parte exatamente da significação do termo latino “ubique”. Ubíquo, ensina São Tomás, significa “existir [esse] em toda parte”, ou estar em qualquer lugar. Mas a ideia de existir num lugar não é conveniente a Deus, porque a localização é própria de seres materiais, e Deus não tem corpo; (este foi o tema da questão 3, artigo 1 – se Deus tem corpo. Já vimos ali que ele não tem corpo). Sendo incorpóreo, é inconveniente, segundo este argumento, designar lugar para Deus, ainda que esta localização seja descrita como ubíqua. Assim, este argumento conclui que é errôneo afirmar que Deus está em toda parte (ubique).

O segundo argumento começa com uma analogia: o tempo está para a ideia de sucessão como o lugar está para a ideia de permanência. Deste modo, se tomarmos uma unidade indivisível de ação ou de movimento (aquilo que chamamos de um instante), este instante não pode ocupar vários momentos distintos, porque o instante, por definição, é aquilo que não se prolonga no tempo. Aquilo que é instantâneo é temporalmente indivisível. Logo, o que é temporalmente indivisível não pode ser dito, analogicamente, ubique para o tempo. O argumento prossegue, lembrando que Deus é simples, e portanto indivisível. Ora, se o instante é indivisível, e por isto não pode ocupar toda a extensão do tempo, então aquilo que é simples e permanente não pode ocupar toda a extensão dos lugares. Portanto, a noção de ubiquidade, no seu sentido originário, espacial, não poderia, por definição, segundo este argumento, aplicar-se a Deus.

O terceiro argumento parte também da simplicidade de Deus. Sendo simples, Deus é indivisível. Portanto, se ele estiver em algum lugar, ele estará lá totalmente. Mas estar totalmente num lugar significa não ter nada fora deste mesmo lugar. Assim, não há sentido em admitir que Deus possa estar em mais de um lugar, muito menos atribuir ubiquidade a Deus, porque isto implicaria atribuir-lhe extensão e, portanto, divisibilidade, noções que lhe são inadequadas. O argumento conclui, portanto, afirmando que, se Deus não pode estar em vários lugares, então ele não pode estar em toda parte.

Como argumento sed contra, São Tomás cita as Escrituras: “Não sou em que encho o céu e a terra?” (Jr 23, 24). Traz, portanto, um trecho dentre muitos das Escrituras que falam da ubiquidade de Deus.

São Tomás começará então sua resposta sintetizadora. E começa com um esclarecimento conceitual: o que é que se está dizendo quando se fala de um lugar? Ele explica: o lugar é uma certa coisa. De fato, São Tomás não está falando matematicamente. Para São Tomás, falar de lugar não é falar simplesmente de uma coordenada geométrica abstrata num plano imaginário; isto é pensamento cartesiano. O lugar, para São Tomás, é sempre muito concreto: é uma coisa.

Sempre que eu falo num lugar, do ponto de vista tomista, estou falando, portanto, num relacionamento muito concreto entre duas coisas, quanto à sua situação. Tomás é um realista aristotélico, não um logicista racionalista. Ele não está pensando no lugar como um conceito matemático, mas concretamente, no mundo existente, como uma coisa que referencia outra.

Assim, São Tomás nos ensina que há duas maneiras de se falar de um lugar: 1. Ou estamos tratando de alguma coisa que existe em outra coisa, de algum modo, como quando falamos que os acidentes de um lugar estão neste lugar, ou 2. Segundo o ponto de vista do próprio lugar, ou seja, quando uma coisa pode ser situada num lugar. Frase difícil de entender em São Tomás, por isto nossa reflexão vai ter que se estender um pouco.

No primeiro caso, que São Tomás chama de “per modum aliarum rerum”, estamos tratando sempre de coisas que só existem em outras coisas, ou seja, acidentes com relação a uma substância. Assim é que dizemos, por exemplo, que esta cor está nesta parede. Ela está ali “per modum aliarium rerum”,vale dizer, ela (a cor) só existe porque está em outra coisa. Então o lugar da cor é sempre numa coisa corporal que a ostenta. Neste sentido, podemos dizer que as coisas acidentais estão sempre localizadas em algum ente substancial.

No segundo caso, estamos falando da posição relativa entre as coisas: toda coisa, sendo material, deve estar em relação com outras coisas, que oferecem lugar a ela. Aqui, estamos falando do próprio acidente de “lugar” que é um acidente próprio de toda substância material; existir materialmente é posicionar-se, localizar-se com relação àquelas outras coisas que contêm ou circundam aquela substância. É neste segundo sentido que podemos afirmar que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Neste último sentido, o lugar é uma categoria lógica que descreve um aspecto acidental de todas as coisas, parte do que as próprias coisas são, que consiste exatamente em serem materiais e existirem em relação de posição umas com as outras. É neste sentido que eu posso dizer, por exemplo, que a minha roupa está no armário. Diríamos que a sua relação pode ser descrita como de conteúdo e continente.

Então São Tomás nos ensina que, de ambos os modos com que falamos de lugar, podemos falar em presença de Deus. No primeiro caso, é Deus quem dá o ser às coisas que existem, e as mantêm na existência, sejam elas substâncias ou acidentes. Então a capacidade de receber acidentes, ou de ser um acidente de alguma outra coisa, uma vez que está incluída no próprio ser da coisa, é efeito próprio da presença de Deus que cria e mantém tudo no ser. É isto que São Tomás está falando quando menciona a “capacidade” ou “virtude locativa” das coisas como dom de Deus. As coisas são o que são, existem como são, porque são criadas e mantidas por Deus. E uma dimensão do que elas são tem a ver com a sua plenitude de ser na capacidade de ser lugar de acidentes, ou de ser acidente localizado em alguma outra coisa. Uma vez que esta capacidade é criada e mantida por Deus, aplica-se plenamente aqui a ideia de que Deus está presente imediatamente nesta coisa. Deus está aí.

O segundo sentido da noção de “lugar” diz respeito à relação situacional entre coisas, quando elas estão entre si como conteúdo e continente. Ainda neste caso, a relação imediata de Deus com todas as coisas que existem faz com que ele esteja sempre no mais íntimo de todas elas, como criador e sustentador. Assim, ele ocupa todos os lugares, não como um corpo que preenche um lugar e exclui todos os outros corpos dali. Mas como fonte e sustentáculo de todos os seres, de todas as existências. Assim, Deus está em todos os lugares e não concorre por lugar com nada.