Como eu havia afirmado no texto anterior, tínhamos terminado a primeira parte do díptico que se conclui com a questão 08, que começamos a debater agora. De fato, bem assentada a verdadeira noção da infinitude de Deus, São Tomás propõe, agora, estabelecer a mesma clareza na questão da presença de Deus na criação. Uma vez que Deus é infinito em ato, e a criação não é, e uma vez que a criação não é Deus, e Deus não é a criação, precisamos entender como é que se dá esta presença.

Nós somos seres espirituais e materiais. Há, portanto, uma especificidade na nossa maneira de conhecer e de descrever a realidade: somos naturalmente dotados da capacidade de conhecer e interagir com uma parte da realidade apenas, a parte que se apresenta individualizada na matéria. É ela que se dá aos nossos sentidos, e a partir dela é que conhecemos o que não se dá a eles. E a nossa linguagem também é retirada daí. Sempre falamos das realidades que não estão na matéria a partir das noções que desenvolvemos quando nos relacionamos com as coisas materiais que se apresentam para nós na sua existência. Mas elas não representam nem apresentam a inteireza do quadro de tudo quanto é real: uma parte das coisas existentes não nos são evidentes pelo simples caso de que não são materiais. Falamos não somente das abstrações e dos entes de razão, mas também de inteligências e seres que não se individuam pela matéria, como os anjos, e, além deles, Deus, cuja existência pode ser demonstrada (como vimos quando estudamos a questão 02 da Suma e as cinco vias de São Tomás) mas cuja essência não pode ser diretamente conhecida por nós. E uma dificuldade adicional é que temos apenas a linguagem derivada do conhecimento do que é material para descrever o que não é.

Assim, temos duas tendências que São Tomás luta por purificar, em sua caminhada através da Suma Teológica:

1. A tendência de confundir os limites de nossa linguagem com os limites da própria realidade, o que pode trazer como consequência tanto um materialismo tosco quanto uma incapacidade de compreender que os conceitos da linguagem humana, quando aplicados a Deus, têm uma valência apenas analógica. É assim que, quando imaginamos a onipresença divina, que é o que estudaremos nestas questões, temos uma tendência a pensar espacialmente. Assim, podemos estabelecer alguma espécie de panteísmo, e imaginar a substância de Deus como uma “grande massa de biscoitos” da qual toda a realidade é feita; ou imaginar Deus como um ente no meio dos outros entes, apenas mais poderoso e invisível aos olhos. Uma espécie de super-heroi, ou de divindade homérica.

2. Uma visão da transcendência como algo desgarrado da imanência, uma espécie de “segundo andar” que não se relaciona com o primeiro. Deus seria, então, apenas o relojoeiro, ou o arquiteto, que projetou a criação e deu a parida, mas que já não se relaciona com a sua obra, e vive em outra dimensão, absorto em outras coisas. Eventualmente, ele pode até mesmo intervir excepcionalmente por aqui, para demonstrar o seu poder ou corrigir alguma rota, mas logo volta para o seu andar de cima.

São Tomás lutará para purificar nossa noção, trazendo uma visão da onipresença muito relacional, ativa e participante, por um lado, mas preservando tanto a transcendência divina quanto a consistência da criação, por outro. Em São Tomás, imanência e transcendência são dois aspectos distintos de uma realidade única e complexa, com muita clareza da distinção entre o que é e o que não é divino na grande realidade consistente na relação entre Deus e sua criação.

Para estudar este assunto tão complexo, São Tomás nos propõe quatro questões: 1. Se Deus está em todas as coisas; quando estudará a relação entre Deus e suas criaturas. 2. Se ele está em toda parte, quando estudaremos a presença de Deus em sua criação. 3. Se este modo de Deus se fazer presente em sua criação pode ser descrita como uma relação “por essência, poder e presença”. 4. Se estar em toda parte é próprio de Deus, quando São Tomás excluirá que qualquer outro ser, senão Deus, possua o atributo da onipresença.

Será uma discussão difícil, mas muito rica. Vamos a ela.