Neste primeiro artigo, São Tomás trata de estudar de que modo existe a presença de Deus em todas as coisas. De fato, na questão passada, afastamos a noção de “infinitude” material para Deus: a sua infinitude é de outro tipo, como vimos ali. A infinitude de Deus é formal, consiste na plenitude e se caracteriza pelo domínio de tudo. Assim, é hora de purificar a nossa imaginação quanto à presença de Deus nas coisas. Se na questão anterior nos purificamos contra qualquer tipo de panteísmo, agora seremos conduzidos para fora de qualquer mentalidade deísta – assim entendida como aquela mentalidade que retrata um Deus distante e ausente da sua criação. Trata-se de uma questão com a maior relevância, portanto.

São Tomás começa mais uma vez com a hipótese negativa: parece que Deus não está em todas as coisas. E emenda logo o primeiro argumento adverso: aquilo que é superior a tudo não pode estar em tudo. Ora, as Escrituras nos dizem que Deus é superior a tudo (Sl 112, 4): “Elevado sobre todos os povos é o Senhor; sua glória está acima do céu!”. Logo, Deus não pode estar em todas as coisas.

Eis aqui, logo no primeiro argumento, como Deus é banido da sua criação em nome do respeito à sua absoluta transcendência, e com suporte numa citação bíblica. E eis como São Tomás não teme alinhar este argumento para debatê-lo corajosamente depois. Extraindo, inclusive, o que ele tem de verdadeiro, e eliminando o que tem de equivocado.

O segundo argumento também tem sua dose de autoridade: cita Santo Agostinho, que ensina que, em vez de dizermos que Deus está em todas as coisas, deve-se dizer que todas as coisas estão em Deus. Assim, este argumento afirma que é equivocado dizer que Deus está em todas as coisas. Deus não é contido pelas coisas, mas as contém. O argumento conclui que deveríamos dizer que todas as coisas estão em Deus, e não o contrário.

O terceiro argumento também parece exaltar o poder de Deus; lembra-nos que quanto mais poderoso é um agente, mais longe chega a sua capacidade de agir. Sendo Deus, portanto, onipotente, o seu agir pode chegar a todas as coisas à distância mesmo, sem que ele precise estar nelas. Por isto, não seria necessário admitir a presença de Deus em todas as coisas.

O quarto argumento é teológico, e diz respeito à presença de Deus nos demônios. Eles são seres, mas as Escrituras nos garantem que não pode haver comunhão entre a luz e as trevas (2Cor 6, 14). Assim, Deus não pode estar nos demônios, e portanto, ele não está em todas as coisas.

Como se vê, os argumentos objetores exploram os vários sentidos da noção de “estar em todas as coisas”. O primeiro nega a presença de Deus em suas criaturas sob o pretexto de preservar a sua absoluta transcendência. O segundo nega a presença de Deus nas coisas invertendo os termos, e proclamando que a rigor são as coisas que estão presentes a Deus, e não o contrário. O terceiro proclama a onipotência de Deus para negar sua proximidade, retratando-o como um governante distante, e o quarto, finalmente, parece basear-se num argumento moral para negar a proximidade ontológica.

Como argumento sed contra, São Tomás traz um argumento interessantíssimo: um ente está onde age! Com isto, ele afirma um tipo de proximidade um tanto diferente do convencional, uma proximidade que vai além dos nossos limites epidérmicos, da proximidade material – que, aliás, seria de todo inconveniente em se tratando de Deus. Deus age sobre todas as coisas, de modo imediato, e este argumento cita, em suporte, as Escrituras: “Todas as nossas obras, senhor, tu as realiza para nós” (Is 26, 12).

São Tomás vai passar a responder, sintetizando os argumentos. Faz logo uma afirmação para pautar a discussão que se seguira: Deus está em todas as coisas, mas não como parte delas. Deus não faz parte da substância de nenhuma criatura, nem sequer as compõe como acidente – isto já nos havia ficado claro quando conversamos da simplicidade de Deus, que não tem composições em si nem entra na composição de nenhuma coisa (questão 3, artigos 7 e 8).

Assim, o modo da presença de Deus nas criaturas pode ser comparado analogicamente ao modo de presença de um artesão nas coisas que ele modela. Mas é uma analogia remota; ela funciona no sentido de nos lembrar que aquele que age tem que estar sempre em contato com aquilo que sofre a sua ação. Um artesão tem que estar em contato com as coisas que modela, como Deus está em contato com as suas criaturas. Neste sentido há analogia. Mas o artesão causa apenas formas acidentais nos materiais com que trabalha, e neste sentido o seu agir cessa quando as formas são impostas a estes materiais e a obra de arte é produzida. Neste sentido, a analogia entre Deus e o artesão se mostra distante, porque Deus não apenas modela a sua criação: ele dá a ela a sua própria existência.

Toda existência, como já vimos, é uma participação no existir de Deus. Aqui São Tomás nos traz outra analogia: as coisas que são iluminadas pelo sol permanecem iluminadas enquanto o sol está presente a elas. Quando o sol se põe, elas escurecem e já não são visíveis, porque já não recebem luz. Esta é uma analogia mais perfeita para a relação entre o ato de Deus que dá existência às coisas e o seu efeito, que é a própria existência das coisas. As coisas recebem sua existência de uma forma particular, concreta e participada, e não podem existir jamais por si mesmas – exatamente porque não são divinas em si mesmas. Seu existir é sempre derivado e dependente do ato criador de Deus. Por isto, como a presença da fonte de luz é necessária para que as coisas permaneçam iluminadas, a presença de Deus é necessária para que as coisas permaneçam existindo.

É aqui que São Tomás nos introduz a noção de causa própria: causa própria é a causa que é especificamente requerida para a produção de determinado efeito. A fonte de luz é a causa própria da visibilidade das coisas opacas, como o fogo é, na física que São Tomás conhece, a causa própria da fumaça e da combustão. Apagada a luz, todas as coisas opacas perdem a visibilidade. Apagado o fogo, cessam a combustão e a fumaça. Do mesmo modo, se a ausência de Deus se desse, as coisas perderiam imediatamente a sua existência.

E São Tomás prossegue: nada há de mais íntimo, de mais profundo nas criaturas do que a sua existência: sem o existir, elas simplesmente não são. Neste sentido, a presença de deus nas coisas é aquilo que as põe em ato, que as retira do não-ser para o ser, e portanto é aquilo que há de mais formal nelas. Lembremo-nos que a forma é o que há de inteligibilidade, de ato, de perfeição em qualquer coisa. O ato mais profundo, mais perfeito e mais inteligível de uma coisa é a sua existência: se ela não existe, não pode interpelar a inteligência, logo não pode ser conhecida. E como a sua existência é efeito próprio da presença de Deus nela, logo Deus está em todas as coisas do modo mais profundo que se pode conceber.

Não é possível não ouvir, também aqui, os ecos da intuição agostiniana, que proclama Deus como “superior summo meo et interior intimo meo” (Catecismo, § 300); sendo superior ao que pode haver de mais elevado em nós, Deus é mais íntimo de nós do que nós mesmos. Eis uma intuição de profunda contemplação.

Após concluir sua resposta, São Tomás passará a responder aos argumentos iniciais. Não necessariamente para refutá-los, mas para compreender e integrar o seu verdadeiro sentido, e afastar o que neles há de desviante ou exagerado.

O primeiro argumento, como nos lembramos, é aquele que busca preservar a absoluta transcendência de Deus, negando a sua proximidade com as criaturas. São Tomás responderá na mesma linha da intuição agostiniana: De fato, quando se trata da perfeição de sua natureza, Deus é infinitamente superior a todas as criaturas. Mas, como causa própria da sua existência, daquilo que as criaturas são, ele está presente naquilo que há de mais profundo e íntimo nas criaturas, e presente de modo permanente e sustentador.

Quanto ao segundo argumento, que, como nos lembramos, é aquele que inverte os termos, e afirma que devemos antes dizer que as coisas estão em Deus do que afirmar que Deus está nas coisas, São Tomás reconhece que, de fato, a nossa linguagem aqui é muito limitada. Quando estamos falando de coisas materiais, se dizemos que uma coisa está na outra, está subentendido que a que contém é maior do que a que está contida. E neste sentido não poderíamos dizer que Deus está nas suas criaturas. No entanto, quando tratamos de realidades espirituais, de fato esta linguagem é imprópria; a rigor, as coisas espirituais sempre contêm aquilo em que estão, mesmo quando nossa linguagem afirme o contrário. Pensemos aqui num exemplo da matemática: quando nos deparamos com o desenho de um triângulo num caderno, normalmente dizemos que aquele desenho contém um triângulo. Mas seria mais justo dizer que aquele desenho, sendo uma instanciação particular e material do conceito do triângulo, está contido no conceito de triângulo, e não o contrário.

São Tomás nos afirma: é a alma espiritual que contém o corpo, e não o contrário. É a forma de triângulo que contém a figura desenhada, e não o contrário. Assim, de fato, racionalmente, Deus contém todas as coisas. Mas não é impróprio dizer que ele está em todas as coisas, exatamente porque as contém.

A terceira objeção é aquela que alega a onipotência de Deus, seu poder de agir à distância, para negar que seja necessário postular uma presença imediata de Deus nas criaturas. São Tomás esclarecerá que aquilo que está longe pode de fato agir sobre outra coisa, mas sempre precisará de um meio qualquer de comunicação, de ligação, para fazê-lo. Mas é exatamente em razão da sua onipotência que Deus não precisa de nenhum meio, de nenhum instrumento, para agir sobre suas criaturas. Seu poder infinito atinge-as imediatamente ali no que elas têm de mais profundo, sem que seja necessária nenhuma intermediação. São Tomás ressaltará, aqui, no entanto, que se pode dizer que as coisas distam de Deus pela dessemelhança infinita entre a sua natureza perfeita, sua graça e seu poder, por um lado, e a imperfeição e a contingência das criaturas, por outro. Não há oposição entre a dignidade de Deus, que o coloca em absoluta dessemelhança e distância da criação, por um lado, e a sua virtude criadora, que o mantém como presença imediata, por outro.

Por fim, o argumento objetor que nega que Deus possa estar presente aos demônios. São Tomás nos esclarecerá que, sendo autor do próprio ser dos demônios, Deus está neles, como criaturas que são, dando-lhes e mantendo-lhes no ser. Não há lugar para nenhum tipo de maniqueísmo na teologia de São Tomás: os demônios, mesmo representando o mal moral absoluto, são meras criaturas, e por isto o seu ser está em profunda dependência de Deus. São criaturas. Mas, uma vez que no mau uso do seu arbítrio, eles escolheram afastar-se de Deus, sumo bem, e viver no mal, Deus não está presente no seu agir pecaminoso e na sua culpa. Respeita o livre arbítrio dos seres inteligentes que criou, mesmo quando optam pelo mais profundo afastamento de si.

São Tomás concluirá esta resposta com uma verdadeira chave de ouro: deus está nas criaturas deformadas apenas na medida que são criaturas. Mas, nas naturezas não deformadas, Deus está de modo absoluto. Esta distinção será de fundamental importância quando formos estudar o pecado e a graça.