No texto anterior, nós vimos como a própria ideia de que o universo é criatural implica dizer que ele deve, necessariamente, ser constituído de um número limitado, ainda que enorme, de coisas. Isto tudo tem a ver com a confiança de São Tomás na sabedoria ordenadora de Deus como originante da criação: o universo não encontra explicação no binômio caos-evolução, como nos mitos cosmogônicos muito antigos e paradoxalmente em determinados mitos pseudocientíficos contemporâneos. A sabedoria ordenadora e infinita de Deus está na raiz do ato livre com que ele intentou a criação. Assim, o fundamento mais profundo de tudo é um ato livre de um Deus sábio, que dá fundamento ao Universo. Se não fosse assim, a própria ciência não seria possível, porque ninguém pode inteligir (intus legere), ou seja, ler dentro, do que não tem inteligibilidade em si mesmo. E só pode ter inteligibilidade aquilo que é fruto de uma deliberação sábia e ordenadora.
E uma vez que o universo não encontra explicação possível em si mesmo, é preciso que ele seja explicado a partir de outro, que, por sua vez, não precisa de explicação. Com isto, devemos concluir que o universo deve ser fruto de um ato livre e desnecessário; explico-me. Deus não tem origem nem causa, nem tem em si mesmo qualquer potencialidade no sentido passivo da palavra. Então ele não precisava criar o mundo, porque, por definição, Deus não tem necessidades, e não age por necessidade. Se o fez, este é um ato de amor, não de necessidade. É preciso ter uma grande capacidade de contemplação, como tinha São Tomás, para chegar a uma visão tão bela e coerente da criação com tanto rigor, e conseguir produzir uma obra que nos capacita e nos convida a realizar uma contemplação similar.
Estamos na resposta sintetizadora de São Tomás. Ele nos explica que há duas opiniões sobre o assunto, aquela dos pensadores maometanos Avicena e Algazel, e a do próprio São Tomás.
A posição de Avicena e Algazel é a de que seria, de fato, impossível que houvesse uma “multidão infinita de coisas em ato por essência”, mas não que houvesse uma “multidão infinita por acidente”. Falando em termos de conjuntos, poder-se-ia dizer que a posição destes autores é a de que não pode haver um conjunto cuja definição mesma seja a existência de infinitos elementos simultâneos, porque isto feriria a própria inteligibilidade do existir; de fato, se tudo o que existe como criatura precisa ter a sua existência explicada por alguma coisa diversa de si, a existência simultânea de um número infinito de coisas tornaria impossível explicar a própria origem das coisas sem cair numa regressão ao infinito. Isto já foi bastante explicado quando tratamos das duas primeiras vias de São Tomás para Deus, neste texto que está aqui, e do qual eu destaco o seguinte trecho: “Vamos imaginar um trem. Se eu coloco uma sequência infinita de vagões (numa analogia com as potências das coisas), este trem jamais andará. Vagões podem ser movidos, mas nunca podem mover. E não adianta acrescentar cada vez mais vagões ao nosso trem imaginário, até o infinito, porque isto não fará o trem se mover. É preciso que haja, em algum lugar, uma locomotiva, que é capaz de mover a todos os vagões mas não precisa que alguma outra coisa lhe mova (porque senão a sequência continua, já que precisaríamos de alguma coisa que move a coisa que move a locomotiva, e assim por diante), para encerrar a sequência e transmitir movimento aos vagões.” Vale dizer, se houvesse um conjunto cuja definição (essência) fosse a existência de um número infinito de coisas simultâneas, a própria existência deste conjunto (a que chamamos universo) seria a de uma sequência infinita de vagões sem locomotiva. Nada existiria. São Tomás não discorda destes pensadores quanto a isto.
Mas os dois maometanos postulam que pode haver um conjunto de coisas existentes simultaneamente em ato por acidente, quando se postula uma série infinita de causas eficientes acidentalmente ordenadas. Vamos imaginar um mau carpinteiro: ele quebra os martelos com que trabalha. Mas isto não impede que ele apanhe outro martelo e conclua aquele trabalho, ainda que a continuidade do seu trabalho implique que ele precisará de infinitos martelos caso venha a trabalhar por um tempo infinito. Logo, estes dois filósofos muçulmanos admitem que nada impediria que este conjunto de martelos viesse a conter um número infinito de martelos simultaneamente em ato, de forma acidental.
São Tomás prossegue dizendo que mesmo um conjunto cujo número de elementos simultaneamente existente é infinito em ato de modo acidental será inconcebível; ele explica que as “multidões” (que é o termo tomista para designar os conjuntos) são caracterizadas por espécies; quer dizer, todo conjunto de seres criados submete-se a uma determinada razão que unifica os respectivos elementos. Teríamos, por exemplo, o conjunto dos seres inanimados, o conjunto dos animais, o conjunto dos planetas, etc. Em todos estes conjuntos que reúnem as criaturas sob alguma razão, as criaturas reunidas submetem-se ao transcendental do ser que é a unidade. Ou seja, tudo o que existe, na medida que existe, tem uma integridade em si mesmo que pode ser descrito como unidade: tudo o que existe é uno, na mesma medida que é ser. É por isto que São Tomás assegura que “as espécies de multidão correspondem às espécies do número”, quer dizer, as regras que se aplicam aos números aplicam-se à contagem dos elementos de qualquer conjunto que reúna os seres efetivamente existentes sob uma determinada razão. Ora, nenhuma contagem de números é infinita em ato: toda contagem envolve a ideia de sucessividade e, portanto, envolve a infinitude apenas como potencial. Isto foi demonstrado no artigo anterior. Assim, não é possível existir nenhum conjunto de coisas simultaneamente existentes que tenha um número infinito de elementos. O próprio exemplo dos martelos do artesão inábil demonstra isto: presume a atividade do artesão de modo sucessivo por um tempo infinito, e portanto só seria concebível como potencialidade, jamais como ato. Esta é a razão matemática que demonstra a impossibilidade de que o conjunto de todas as coisas criadas que existem simultaneamente tenha um número infinito de elementos.
Há, porém, mais uma razão teológica, com a qual, aliás, começamos este texto: a criaturalidade. O universo foi criado por um ato livre de vontade do Deus sapientíssimo, e por isto carrega em si a marca do logos. Não é por outra coisa que o Evangelho de João começa com aqueles versículos lindíssimos, “no princípio [arché] era o verbo [logos], e o logos estava em Deus, e o logos era Deus. No princípio o verbo estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem el nada foi feito de tudo quanto existe”. Não consigo imaginar uma declaração mais bela e plena da profunda inteligibilidade da criação. Assim, imaginar qualquer tipo de infinitude de elementos, ainda que acidental, no conjunto das coisas criadas e existentes de modo simultâneo, seria imaginar que há um elemento da criação que não é passível de medida, e portanto não tem a marca do logos. O que seria impossível.
Mas São Tomás faz uma importante ressalva: o universo tem, sim, uma abertura para a infinitude: mas a infinitude, em si, nunca se apresenta como atual, sempre como potencial. Tanto as coisas materiais são potencialmente divisíveis ao infinito, como já vimos em textos anteriores, como também são multiplicáveis ao infinito, potencialmente; mas esta multiplicação sempre implica sucessão de existências no tempo – e por isto sempre mantém sua característica mescla de potencialidade.
Esta característica que São Tomás descreve tem uma importante dimensão a ser contemplada: o universo tem sempre e em todo momento uma abertura ao infinito, que é uma tendência nunca totalmente atualizada a cada momento. É como se o próprio Deus houvesse deixado a sua marca, a marca da infinitude, como um pálido reflexo nesta abertura criacional. E como se, de alguma forma, pudéssemos enxergar, ainda que de modo analógico, a abertura que Deus deixou para si mesmo na sua criação. Quase podemos ouvir, aqui o eco do belo poema que Santo Agostinho escreveu na primeira página das suas Confissões: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti!”
Neste ponto, São Tomás começará a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento, como nos lembramos, é aquele que se apoia numa propriedade dos números, que podem se multiplicar até o infinito, para afirmar a ideia de que não é contraditório haver um número infinito de coisas existindo simultaneamente. São Tomás nos dirá que a sucessão, e não a simultaneidade, é própria da contagem das coisas, como é própria da contagem dos números. Assim, ele nos dá o exemplo dos dias: eles se apresentam sucessivamente, e não como uma simultaneidade de momentos. Há, assim, um modo pelo qual as coisas passam do ato à potência, e é este modo de ser das coisas que impede que todas as potencialidades se atualizem simultaneamente. Por isto, a infinitude tem uma tendência à atualização, como os números tendem ao infinito, mas respeitados os modos de atualização, esta tendência sempre guardará um respeito à sucessividade que implica que coisas passem a ser enquanto outras inevitavelmente deixem de ser.
O segundo argumento, como lembramos, é aquele que afirma que há um número infinito de espécies de figuras – de três lados, como os triângulos, de quatro lados, como os quadriláteros, e assim por diante. Logo, se houver apenas uma instanciação de cada figura geométrica como forma de alguma coisa realmente existente, haveria uma infinidade de coisas simultaneamente existentes. São Tom´s nos ensinará que, do mesmo modo que a infinidade de números não é levada ao ato simultaneamente, mas permanece como uma abertura à infinitude de modo sucessivo, a infinidade de figuras também não se atualiza simultaneamente, mas obedece à mesma regra de sucessividade: há uma abertura potencial à sua infinitude, mas a existência simultânea de algumas sempre implicará a corrupção de outras tantas.
O terceiro argumento contrário é aquele que diz que sempre se pode acrescentar, às coisas existentes, outras tantas que não lhe são contrárias; por exemplo, para ter uma omelete, eu tenho que quebrar os ovos, e isto me impede de ter omeletes e ovos simultaneamente; mas nada me impede de ter, por exemplo, omeletes e frutas sobre a minha mesa simultaneamente. Logo, nada impediria que o conjunto das coisas simultaneamente existentes tivesse um número infinito de coisas não contrárias coexistindo. São Tomás responderá secamente que a própria ideia de acrescentar coisas infinitas se opõe à própria razão que dá consistência ao conjunto das coisas efetivamente existentes: a medida, a ordem, o logos que lhes é intrínseco. Uma vez que a ideia de uma multidão infinita de coisas se opõe à ideia de medida, como sua contrária, e uma vez que ter medida é a própria ordenação intrínseca da criaturalidade, pensar num conjunto de coisas criadas com um número infinito de elementos simultaneamente existentes é uma contradição em termos.
Acabamos por aqui de admirar este primeiro quadro do díptico que São Tomás nos oferece nas questões 07 e 08, mergulhados profundamente em tatos raciocínios filosóficos, matemáticos e teológicos tão profundos. Até aqui, estabelecemos o contraste entre a infinitude de Deus e a finitude das criaturas Na próxima questão, examinaremos como se dá a relação entre este Deus infinito e sua criação, ou seja, como pode ser que este Deus tão absolutamente outro possa estar presente em suas criaturas sem destruir sua consistência criatural.
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