Terminamos o texto anterior com a pergunta de São Tomás: mas existe, ou pode existir mesmo, alguma coisa que seja infinita em tamanho?

Resgatamos, então, a lição em que São Tomás nos diz que podemos considerar todas as coisas corporais existentes a partir de duas considerações distintas: 1. a consideração matemática e 2. a consideração metafísica. Estas considerações nos demandarão uma reflexão mais detida.

Nós, do século XXI, temos uma visão do mundo essencialmente matemática, e minimamente metafísica. Desconfiamos da metafísica, principalmente depois do iluminismo, cuja filosofia do conhecimento proclamou que todo discurso metafísico era simplesmente ilusório, uma vez que pretensamente ultrapassava os limites da capacidade cognitiva do ser humano. A metafísica foi, desde então, desqualificada e abandonada, em prol de uma visão matematicista da realidade. Em certa medida, somos todos um pouco filhos de Descartes, hoje.

São Tomás nos mostrará que a visão matemática da realidade é verdadeira e possível, mas muito limitada: é uma visão estritamente quantitativa. A matemática é sempre abstração de quantidade, e por isto a explicação que ela oferece do mundo não permite enxergar a riqueza estrutural das coisas, mas apenas a sua quantidade. É a visão, digamos, do engenheiro que projeta um prédio: para ele interessa saber a largura das colunas, a resistência dos materiais, a espessura das vigas, a distância dos pisos, a abertura das portas… Não lhe interessa, senão muito acidentalmente, por exemplo, a harmonia dos traços arquitetônicos, nem os dramas existenciais que os habitantes dali viverão quando o prédio estiver concluído.

A questão, mesmo a partir do ponto de vista matemático, é a seguinte: como seria uma coisa material de quantidade infinita e atual? São Tomás nos lembra que, caso houvesse alguma coisa matematicamente infinita em corporeidade, esta coisa necessariamente ocuparia todos os espaços existentes na realidade natural, e não só não seria possível que qualquer outra coisa existisse, como esta coisa seria imóvel e imutável, porque não haveria espaço para qualquer transformação nela. São Tomás faz questão de registrar que uma coisa assim, com quantidade infinita e atual, Ele nem sequer poderia girar em torno do próprio eixo, porque não haveria a possibilidade de um referencial de posição num universo infinito em quantidade ocupado por uma coisa com quantidade infinita e atual. Para haver um eixo, seria necessário haver um centro e um limite exterior, ou seja, uma certa figura capaz de dar contorno à coisa e, portanto, limitá-la – o que contradiria sua infinitude de grandeza. Matematicamente, portanto, uma coisa material com grandeza infinita e atual seria simplesmente inconcebível. Jamais podemos pensar, portanto, que Deus seja infinito neste sentido.

Do ponto de vista estrutural, ou seja, metafísico, tampouco seria concebível uma grandeza infinita em quantidade num ser material. De fato, todo ser material, em sua estrutura existencial, possui matéria e forma. Ora, uma vez que a forma dá figura ao corpo material, esta figura necessariamente lhe desenha os limites quantitativos e os especifica. Como sabemos, todas as substâncias do universo natural, compostas de matéria e forma, especificam-se por seus acidentes: dentre eles a quantidade. Uma vez que a forma implica uma figura, o acidente da quantidade resulta sempre limitado pela figura da forma. Portanto, pensando matematicamente ou pensando metafisicamente, qualquer coisa natural, material, não pode ter grandeza quantitativa infinita e atual. Assim, duas consequências se podem tirar:

1. Toda infinitude, no mundo material, é sempre potencial.

2. A infinitude de Deus jamais pode ser pensada materialmente ou espacialmente.

A esta altura, São Tomás passará a responder aos argumentos objetores iniciais. E o fará sempre no sentido de esclarecer que qualquer noção de grandeza material infinita sempre implica a potencialidade, nunca a atualidade.

O primeiro argumento objetor, como vimos, é aquele que afirma a existência de grandezas materiais infinitas em ato a partir da constatação de que as demonstrações geométricas postulam objetos infinitos em grandeza, como linhas infinitamente longas. São Tomás nos explicará que os geômetras não precisam de uma linha atualmente infinita para as suas demonstrações, mas lhes basta, mesmo nas demonstrações práticas, tomar uma linha finita e usar suas propriedades, como por exemplo, a já mencionada propriedade de divisão ao infinito. Assim, a postulação geométrica de objetos infinitos não é uma prova em favor de coisas materiais de grandeza infinita em ato, mas apenas da potencialidade para o infinito de algum aspecto da coisa (secundum quid).

O segundo argumento objetor é aquele que defende que as noções de finito e de infinito estão ambas sob o conceito de quantidade, e por isto não há contradição entre elas. Assim, não seria logicamente impossível conceber uma coisa material de tamanho infinito. São Tomás responderá que, embora a noção de infinito não seja contraditória com a noção de finitude, ela o é com a noção de medida, que está contida na noção de quantidade. Uma coisa infinita em grandeza é, por definição, uma coisa que não pode ser medida. Ora, todas as coisas, quando estudadas sob o aspecto da quantidade, têm medida, porque têm forma e figura. E não há nenhuma figura de coisa material que não se classifique em alguma espécie de limite. Mas uma dimensão quantitativa infinita não cairia sob nenhuma espécie de limite quantitativo, logo não poderia cair sob o gênero da quantidade. São Tomás nos apresenta então a um princípio lógico bem interessante: o que não pode ser classificado numa espécie não pode ser classificado no gênero que as inclui. Se todas as coisas que estão no gênero da quantidade estão incluídas em alguma espécie de limite, e se uma coisa supostamente infinita em quantidade não teria nenhuma espécie de limite, logo ela não poderia ser classificada no gênero da quantidade. Logo, seria logicamente contraditório admitir a existência de uma coisa material com tamanho infinito e atual.

O terceiro argumento objetor é aquele que parte do fato de que as coisas materiais são divisíveis ao infinito para concluir que devem ser também adicionáveis ao infinito, e portanto seria admissível conceber uma coisa material atual de quantidade infinita.

São Tomás nos explicará que de fato é uma característica das coisas materiais serem divisíveis ao infinito. Os corpos, por serem compostos, são divisíveis por definição, devido à matéria que os compõe. E uma vez que a matéria-prima é um ente de razão, já que não se pode apresentar, no mundo das coisas existentes, a matéria destituída de algum tipo de forma, então mesmo que dividamos a matéria ao infinito, jamais chegaremos num “átomo”, ou seja, numa coisa material realmente existente e completamente indivisível.

Se me permitem uma digressão: a busca da física atual pela “partícula fundamental” é, para Tomás, uma busca condenada ao fracasso conceitual: cada partícula, por ínfima que seja, ainda será uma partícula “de alguma coisa”, e portanto estará sempre a um passo de distância da matéria-prima. São Tomás não é um atomista, na linha de Demócrito, mas um hilemorfista na linha de Aristóteles. O paradigma metafísico prevalecente na física contemporânea é o atomista; esta é uma escolha filosófica, não estritamente científica. O paradigma metafísico aristotélico seria igualmente capaz, ou até mais capaz ainda, de explicar todos os dados científicos da física moderna. Mas o cientificismo hegemônico talvez ainda não esteja aberto a debater esta questão.

São Tomás então concluirá que, embora a propriedade de ser “divisível ao infinito” seja uma propriedade da matéria, a propriedade de ser “adicionável ao infinito” seria mais propriamente considerada como uma propriedade da forma, porque faz com que a coisa se aproxime do todo. A noção de “todo”, que implica plenitude, tem relação mais próxima com a noção de “forma” do que com a noção de “matéria”. É fácil perceber isto: quando dividimos uma coisa material, ficamos com as partes, que são pedaços de matéria. Mas quando juntamos estes pedaços na ordem adequada, reconstituímos, de certo modo, a integridade da coisa toda, sua unidade. Dividir é causar pedaços de matéria; agregar é restabelecer a forma. Portanto, a adição não é o mero reverso da divisão: ele encontra seu limite na forma original, e portanto não pode prosseguir ao infinito. Se é certo afirmar que a divisão pode tender ao infinito, é errado afirmar que a reconstituição também possa. Não há simetria aí. Afastado este argumento.

O quarto argumento objetor é aquele que trata de um suposto movimento circular como prova de uma quantidade infinita em ato. Este argumento parte da noção da extensão do movimento, que é a distância percorrida em determinado tempo, para dizer que uma coisa em movimento circular perfeito percorreria uma distância infinita, e portanto teria uma certa infinitude em ato quanto à extensão de seu movimento. São Tomás nos explicará, usando conceitos de cinemática, que o tempo e o movimento sempre implicam sucessão, e portanto envolvem ato e potência: o ato se relaciona com a parte da distância já percorrida, e a potência, com a distância a percorrer nos momentos sucessivos. Portanto, se há alguma infinitude aí, ela é estritamente potencial, e não atual.

Agora que São Tomás já nos explicou sobre a impossibilidade de infinitude atual em qualquer ente natural, material, ele debaterá, no próximo artigo, sobre a própria ideia de que o Universo pode ser infinito como multidão de coisas. A questão é: mesmo admitindo que cada coisa jamais terá a característica da infinitude em ato, poderíamos admitir que o próprio universo criado se constitui num conjunto com um número infinito de elementos? Ou há um limite, ainda que imensamente grande, das coisas materiais que podem existir simultaneamente no universo? Aguardemos as cenas do próximo capítulo…