Voltamos a discutir uma questão muito similar à da tal “rocha que nem Deus consegue levantar”. O que está em jogo aqui é saber se pode haver alguma criatura cuja grandeza seja efetivamente infinita em quantidade. Um corpo infinitamente grande. Ou, em boa linguagem tomista, infinita em ato segundo a magnitude. Seria o caso de uma rocha com um tamanho infinito, que não pudesse ser movida nem pelo próprio Deus: como vimos no final da questão anterior, há aqui um duplo paradoxo: tanto com relação à onipotência divina, que não pode se estender até aquilo que é contraditório em si mesmo, quanto também com relação à própria questão de que, se existisse alguma coisa infinita em grandeza, não haveria para onde movê-la! Ela ocuparia todos os espaços.

Mas a exploração que São Tomás faz aqui é bem interessante, e deve ser seguida por nós. Nós já vimos, no artigo anterior, que São Tomás admite a existência de infinitos acidentais, que ele chama de secundum quid, ou seja, coisas que são infinitas sob certo aspecto, mas não absolutamente. E vimos o exemplo do mármore, que está em potência para inúmeras formas acidentais que o escultor lhe quiser imprimir. A pergunta agora é outra: será que esta abertura à infinitude, nas coisas criadas, apresenta-se sempre como potência, ou seja, como promessa, ou haverá alguma criatura que apresenta a infinitude como uma grandeza efetivamente existente, ou seja, em ato?

O objetivo último da pedagogia de São Tomás, aqui, é a de nos esclarecer sobre um limite da imaginação humana, que tende a imaginar a infinitude em Deus como uma grandeza infinita. É preciso purificar nossa imaginação e nossa linguagem, quando tratamos de Deus.

São Tomás admitirá, como hipótese inicial, que sim, que pode haver uma coisa criada que tenha grandeza infinita em ato. E aduz, como primeiro argumento, que os matemáticos costumam usar, em suas demonstrações, figuras geométricas infinitas, como, por exemplo, linhas infinitamente extensas. E ele cita Aristóteles como garantia de veracidade da linguagem matemática. Assim, este argumento conclui que é possível existir em ato algo infinitamente grande.

O segundo argumento trabalha com o próprio conceito de quantidade: na categoria acidental da quantidade, tanto o finito quanto o infinito podem ser considerados como aspectos próprios seus, ou seja, não é contra a natureza da categoria da quantidade admitir uma quantidade infinita. Não há contradição lógica aí. Logo, não é impossível que haja algo com uma quantidade infinita em ato, porque não há contradição, e portanto nada que repugne a onipotência de Deus.

O terceiro argumento parte de uma definição aristotélica. Aristóteles define a grandeza contínua como “infinitamente divisível”. De fato, se lembrarmos de nossas aulinhas de geometria nos tempos de escola, recordaremos que nosso professor sempre nos disse que qualquer linha podia ser dividida até o infinito. Para mim sempre foi meio mágico pensar que no mero espaço entre a marca de um centímetro e a marca de dois centímetros na minha régua havia a possibilidade de fazer divisões infinitas de distância. O argumento prossegue afirmando que os contrários são correlativos, e portanto o que pode ser infinitamente dividido também pode ser infinitamente acrescentado. Assim, qualquer grandeza pode crescer ao infinito. Logo, segundo este argumento, pode haver coisas com grandezas infinitas em ato.

Por fim, o quarto argumento é retirado da física aristotélica, e a sua redação parece muito complicada para nossa mentalidade de hoje. O que São Tomás parece dizer é o seguinte: a distância e o tempo de um determinado percurso são tomados da rota pela qual a coisa em movimento transita. Então imaginemos uma coisa que está em movimento circular: qualquer ponto determinado pelo tempo e pela posição da coisa em movimento circular pode ser vista, simultaneamente, como um fim e como um princípio. Ou seja, algo pode ficar eternamente em movimento circular, e este movimento terá, portanto, uma extensão infinita. Portanto, não há nada contrário à razão em conceber uma magnitude infinita em ato.

São Tomás aduzirá, agora, um argumento sed contra, ou seja, em sentido oposto ao da hipótese inicial. Ele aduz que todo corpo tem superfície, e portanto tem limites. O mesmo pode ser dito de qualquer plano ou de qualquer linha que se possa efetivamente descobrir ou traçar. Logo, uma vez que nada de material pode efetivamente existir sem ter os limites da sua figura, não pode haver nada, nenhum ente com quantidade (ou seja, material) que seja efetivamente existente no nosso universo e que seja infinito em magnitude.

A partir dos quatro argumentos objetores e do argumento sed contra, São Tomás começará a construir sua resposta sintetizadora. A primeira afirmação que ele faz é, na verdade, uma distinção: uma coisa é ser infinito por essência [como é Deus, conforme debatemos nos textos anteriores], outra coisa seria ter alguma coisa infinita em tamanho. Como seria um corpo com o tamanho infinito? São Tomás diz que, mesmo que pudéssemos imaginar alguma coisa corporal com um tamanho infinitamente grande, ainda assim esta coisa não seria infinita por essência: no caso da nossa rocha infinita, sua essência seria composta da forma de rocha que a individuaria como rocha e não, digamos, como água, e pela matéria pedregosa que a individuaria como aquela rocha e não, digamos, este diamante aqui. O seu tamanho seria, pois, apenas um aspecto acidental da sua existência, mesmo se o imaginássemos infinito. Não devemos, pois, confundir a infinitude por essência com um tamanho infinito em grandeza.

Estabelecida esta distinção com tanta clareza, São Tomás pergunta então: mas existe, ou pode existir mesmo, alguma coisa que seja infinita em tamanho?

São Tomás nos diz que podemos considerar todas as coisas corporais existentes a partir de duas considerações distintas: 1. a consideração matemática e 2. a consideração metafísica. Estas considerações nos demandarão uma reflexão mais detida.

Veremos então, no próximo texto, São Tomás nos explicar exatamente porque uma rocha infinita não existe nem sequer poderia existir.