Falávamos da diferença que São Tomás faz, na sua resposta sintetizadora, entre as coisas que são infinitas sob algum aspecto (secundum quid) e Deus, que é absolutamente infinito (simpliciter). E nos fala da matéria, que, sob a possibilidade de assumir inúmeras formas acidentais – como a madeira e o mármore, que são polivalentes nas mãos de um bom artesão – tem um aspecto de infinidade potencial.
E quanto ao aspecto da forma? Se a matéria se especifica pela forma, porque a forma atualiza as potências da matéria, por outro lado a matéria de certo modo contrai a forma – que, unida a matéria, ganha existência, mas perde em infinitude: de universal que é, passa a ser a forma particular daquela coisa individual, e neste sentido está especificada e, portanto, limitada pela matéria signata. Mas se houvesse uma forma que não dependesse da matéria para efetivamente existir, ela de certo modo teria infinitude, porque não seria contraída, individualizada pela matéria.
É o caso dos anjos, lembra São Tomás. Os anjos são seres puramente formais, cuja estrutura São Tomás estudará mais adiante ainda nesta parte primeira da Suma. (Não quero adiantar comentários, mas o Tratado dos Anjos, de São Tomás, erá de extrema importância para compreendermos os seres humanos como seres espirituais hilemórficos, como veremos então. Nossa contemporaneidade tem muita dificuldade de entender a integração das duas dimensões, espiritual e material, do ser humano, e estudando como seria um ser espiritual sem matéria podemos entender melhor a nossa própria estrutura de seres materiais espirituais).
No caso dos anjos, a sua forma de fato não é contraída pela matéria, mas, ainda assim, sofre uma limitação: são criaturas, e não deuses. Assim, a sua existência lhes advém de fora, como um dom de Deus, e portanto limita seu modo de ser: são criaturas finitas por essência, exatamente porque Deus lhes dá a existência não simpliciter, ou seja, não absolutamente, mas sob esta ou aquela forma: eles são este anjo, aquele anjo, e portanto existem modalmente também. São individualizados pela essência, que passa a existir deste modo ou daquele modo, ou seja, com esta ou aquela natureza angelical, por determinação de Deus. Esta é a sua limitação. No entanto, por serem estritamente formais, de certo modo não são contraídos na sua forma por existirem: suas formas realizam-se plenamente na sua existência. Neste sentido, são diferentes dos seres materiais, que compartilham a mesma forma individualizada por esta ou aquela porção de matéria, e cada indivíduo não realiza plenamente a sua forma. Desta maneira pode-se dizer que eles, por serem essências existentes de modo estritamente formal, são ilimitados secundum quid. Mas, tendo recebido a existência desde fora, e segundo o modo da sua natureza individual, não são ilimitados simpliciter.
São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais. Ao primeiro, aquele que questiona se Deus, tendo poder infinito, não poderia criar uma coisa absolutamente infinita, São Tomás diz que a própria noção de criaturalidade pressupõe um começar a existir a partir de outro. Seria contraditório, portanto, pensar numa coisa criada que não tivesse recebido o seu ser a partir do criador. Como Deus não é gagá nem contraditório, ele não criaria uma coisa absolutamente infinita – ou seja, criar algo que não fosse criatura. Seria como pretender que Deus criasse um círculo quadrado, ou uma pedra que ele próprio não pudesse levantar. A onipotência divina implica poder fazer tudo o que não seja autocontradição.
Quanto à infinitude do intelecto humano, que é capaz de abstrair universais, como é colocado no segundo argumento objetor, leva São Tomás a fazer uma pequena consideração antropológica que só se esclarecerá plenamente bem mais adiante aqui na Primeira Parte da Suma: a imaterialidade dos intelectos, mesmo daqueles que pertencem a seres carnais como somos nós, humanos.
Pediremos licença a São Tomás para adiantar um pouquinho o assunto antropológico, quanto à natureza imaterial do intelecto humano. Como sabemos das nossas lições básicas de física, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Assim, como os nossos sentidos são materiais, eles são incapazes de sentir a si mesmos: o exemplo primeiro disso é que o olho não consegue se ver. É certo que a flexibilidade do corpo faz com que eventualmente o tato consiga apalpar-se, mas sempre com relação a outra parte do corpo; assim como a língua consegue dobrar-se, mas sempre para tocar outra parte dela própria. Não há a possibilidade que um dos nossos sentidos possa sentir a si mesmo no mesmo lugar e sob a mesma razão: os sentidos não são reflexivos. Mas com a nossa inteligência isto não ocorre assim: nós conseguimos refletir, ou seja, conseguimos nos contemplar sentindo, e mais, conseguimos nos contemplar raciocinando e conhecendo. Outrossim, conseguimos perfeitamente abstrair a forma das coisas materiais externas a nós que contemplamos, e as retemos em nós de forma não-material, conhecendo-as. O conhecimento não ocupa espaço, porque as abstrações que são próprias dele referem-se exatamente à capacidade de extrair da matéria externa as formas que serão conhecidas universalmente por nós. Assim, o nosso intelecto, abstrativo e reflexivo, sendo imaterial, não tem um órgão corporal que corresponda a ele: o verdadeiro conhecimento é estritamente espiritual. É uma função do nosso espírito.
Importa distinguir, porém, o nosso conhecimento, que é reflexivo e abstrativo, e portanto imaterial, da nossa memória, que é a capacidade física de reter informações, bem como do nosso senso comum, que é a capacidade de associar sensações e formar imagens. Isto tudo, em nós, são funções materiais e têm limite, e podem, portanto, ser perdidas com a degradação do órgão que corresponde a ela – que, no estágio atual da ciência, é o cérebro. É por isto que os computadores, sendo materiais, podem simular a nossa sensibilidade, a nossa capacidade de reter informações e de associá-las, mas não podem conhecer de verdade. Não podem abstrair formas e universalizá-las. Somente espíritos conhecem. Ainda que nosso espírito nunca seja, e portanto não possa jamais operar por si mesmo, dissociado do corpo. Mas isto não implica que ele seja integral e absolutamente corporal.
Assim, São Tomás reafirma a capacidade ilimitada do intelecto quanto ao conhecer. Mas corrige o argumento, ao aduzir que esta infinitude é apenas secundum quid, ou seja, é acidental ao ser humano, e não representa uma infinitude essencial. Não é um argumento válido para provar que é possível que algum ser além de Deus tenha, por essência, a infinitude simpliciter, absoluta.
Por fim, o terceiro argumento é aquele que afirma a infinitude da matéria-prima. São Tomás já começa afirmando com vigor: a matéria-prima é pura potência, e, neste sentido, não se pode nem sequer dizer que ela existe, na ordem das coisas.
Não adianta procurar: ninguém vai encontrar um pedaço de matéria-prima vagando por aí. Tudo aquilo que existe já está colocado sob certa forma, por mais tosca e indeterminada que esta forma possa parecer. Tomemos o exemplo da chamada “teoria das supercordas”, muito em voga hoje em dia, que aponta como matéria-prima certas supercordas de energia que vibrariam em determinadas frequências multidimensionais. Ora, a figura vibratória e a composição “energética” já demonstram que tais seres, se exstirem, não escapam à composição forma-matéria, e portanto não representam verdadeira matéria-prima.
Assim, São Tomás diz que a matéria -prima, a rigor, não é uma criatura de Deus, mas uma “concriatura”, vale dizer, ela existe sempre como componente virtual de alguma coisa que tem, além dela, a forma. É impossível por definição conseguir “isolar” matéria-prima, digamos, em laboratório, porque, mesmo que fôssemos extraindo de alguma coisa todas as formas virtuais inferiores que a compõem, a matéria que resta teria ao menos a limitação da quantidade, ou seja, formaria uma figura qualquer que já seria, em si mesmo, uma forma. Compreender isto é muito difícil para nós, pessoas do século XXI. Mesmo porque uma das coisas que a nossa cultura perdeu foi exatamente a noção de criaturalidade.
Então, a matéria-prima de fato contém em si uma certa infinitude: a infinitude daquilo que, não existindo de modo puro senão como um conceito – ou seja, como uma potencialidade plena – pode vir a ser qualquer coisa. Mas só pode vir a existir como uma coisa determinada e outra que não ela mesma. Isto não retira da matéria-prima a condição de criatura, ou melhor, de concriatura, já que nunca existe em si mesma, mas sempre em alguma outra coisa e sob a forma desta outra coisa. E ainda assim sob um limite: ela é sempre concriatura de coisas materiais. É neste sentido que São Tomás diz que a potência indeterminada da matéria-prima tem o limite de se estender somente as coisas naturais – a palavra natural, aqui, se apresenta como sinônima de coisa, de ente material que faz parte de um universo material. Não há “matéria-prima de anjo”.
Portanto, aquele enigma inicial, da “pedra que nem Deus conseguisse levantar”, foi um ótimo pretexto para conversar com meu filho sobre todos estes assuntos. Estou certo de que nem todas as coisas foram compreendidas por ele. Mas, pelo menos, ele entendeu que uma “pedra que não pudesse ser levantada por Deus” é um conceito impossível, contraditório em si mesmo: se houvesse uma coisa material sem limite de quantidade, ela não seria uma coisa, porque seria uma espécie de oceano ilimitado de matéria sem forma. Não haveria para onde movê-la, nem em tese. Porque, não tendo limites quanto à sua quantidade, ela teria que ocupar todos os espaços. Por fim, imaginar que Deus tivesse que provar seu poder criando alguma coisa conceitualmente além do seu poder seria como exigir a quadratura do círculo. É um paradoxo que existe em função dos limites da linguagem humana, não dos limites do poder infinito de Deus.
Deus, na verdade, criou uma única rocha que ele não consegue remover jamais. É a rocha da contradição lógica: sendo ele próprio coerência infinita, ele jamais entra em contradição consigo mesmo. Podemos estar seguros: Deus não sofre de esquizofrenia.
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