Um dia desses, meu filho chegou em casa impressionado com um paradoxo que lhe fora proposto por um colega da escola que se declara ateu. O paradoxo era o seguinte: será que Deus pode criar uma pedra tão grande que nem ele mesmo possa levantar? O colega realmente acreditava que este paradoxo seria insolúvel, e seria suficiente para comprovar que a própria noção de Deus seria contraditória e, portanto, impossível. Logo, Deus não existiria.

Foi um bom pretexto para conversar com ele sobre São Tomás e a sua teologia, e explicar um pouco sobre as cinco vias, as características de Deus e os limites da linguagem humana em teologia. E chegamos bem aqui, neste artigo da Suma, que lemos e estudamos juntos. A pergunta de São Tomás aqui tem tudo a ver com o paradoxo que o colega lhe havia proposto: será que há algum outro ente, além de Deus, que seja infinito por essência? São Tomás, aqui, admite exatamente esta hipótese, para começar. Admitamos que haja algum ente, além de Deus, que seja infinito por essência. Como seria isto, quais os pressupostos e as consequências de admitir isto?

O primeiro argumento que São Tomás recolhe, em favor da hipótese inicial, é similar a este argumento da “pedra que Deus não pudesse levantar”. O argumento se constrói assim: o poder [virtus] de alguma coisa é proporcional à sua essência. Se Deus é infinito por essência, então ele pode criar um efeito também infinito por essência, já que a extensão de um poder se reconhece pelo seu efeito. Assim, pode haver alguma coisa criada que seja infinita por essência.

Eu quero abrir um parêntese aqui para conversar de uma coisa que São Tomás só introduzirá na próxima seção da Suma, quando ele discutirá a Trindade: de fato, Deus, em si mesmo, relaciona-se trinitariamente, mas o processo pelo qual as pessoas se originam na Trindade é de geração e  processão, não de criação. Então de certa forma Deus gera em si mesmo o outro, infinito, mostrando que de fato o seu poder é maravilhosamente infinito e capaz até mesmo de alteridade na infinitude. Mas neste artigo, no qual estamos agora, a discussão é outra: discute-se se Deus pode ou não produzir uma criatura infinita por essência. E o argumento quer afirmar que sim, pelos motivos que já examinamos.

O segundo argumento parte de um elemento criado muito específico, o nosso intelecto. De fato, sabemos que nosso intelecto tem potencialidade inesgotável, porque é capaz de abstrair conceitos universais, como a brancura, a circularidade e outros semelhantes. Ora, tais conceitos universais aplicam-se a uma infinidade de individuais – a circularidade não se esgota, mesmo após designar inúmeros círculos. Então, este argumento quer afirmar que a substância intelectual criada é infinita por essência. Logo, haveria outras coisas infinitas por essência além do próprio Deus.

O terceiro argumento parte da matéria-prima; o argumento lembra que São Tomás já provou que a matéria-prima é algo distinto de Deus. Mas, segundo o argumento, a matéria-prima é infinita. Logo, há algo além de Deus que é infinito por essência.

O argumento contrário é de Aristóteles, que, no livro III da Física, afirma que é próprio do infinito não ter princípio. Mas tudo o que existe procede de Deus como primeiro princípio, como vimos nas cinco vias. Aliás, é isto que significa ser criado: ter em Deus o doador da sua existência. Assim, nada além de Deus pode ser não principiado, logo, só Deus pode ser infinito essencialmente.

São Tomás vai começar agora sua resposta sintetizadora, e nos explicará que até existem coisas que podem ser chamadas de infinita, mas sob algum aspecto acidental, e não essencialmente. É aquilo que São Tomás chamou de infinito “secundum quid”, para distinguir do que é infinito simpliciter [absolutamente], que é só Deus.

Ele trata, então, do caso da matéria. Tudo o que existe e é material especifica a matéria de algum modo: toda matéria é matéria de alguma coisa. Por exemplo, a madeira desta árvore, os ossos deste animal. Mas toda matéria, embora exista sempre sob a forma essencial de alguma coisa material, está em potência para uma infinidade de formas acidentais; é fácil entender isto se pensarmos num pedaço de mármore. Ele pode estar em potência para ser o piso da minha casa, ou para ser o corrimão da minha escada, ou para servir de base a uma estátua de um grande escultor. De certa forma, não há limites para as coisas que podem ser feitas a partir de uma determinada substância. Pensemos na polivalência de um galho de árvore: ele pode se tornar lenha, alavanca, cerca, móvel, etc. Todas estas coisas são formas acidentais, porque a madeira não deixa de ser substancialmente madeira por ter sido utilizada como cadeira, como alavanca ou qualquer outra coisa.

Então, como São Tomas nos ensina, as coisas materiais estão sempre em potencialidade para inúmeros acidentes. Assim, pode-se falar numa infinitude relativa, secundum quid, das coisas materiais. É uma infinitude potencial e, podemos dizer, modal.

E quanto as coisas imateriais? Veremos no próximo texto. E prometo tratar também daquela “pedra que nem Deus conseguiria levantar”.