Do que exatamente estamos falando quando dizemos que Deus é infinito? As nossas concepções, sempre muito vinculadas ao mundo sensível, tendem a projetar Deus como uma substância imensa preenchendo tudo, por todos os lados, como um corpo imensamente grande do qual não podemos ver os limites. Ou então uma espécie de ingrediente infindável que participa da composição de todas as coisas que existem. Estas são as concepções com as quais São Tomás debaterá, neste artigo. Se há infinitude em Deus, como veremos, ela deve ser algo muito diferente disto.

Começamos, mais uma vez, com a hipótese adversa. Parece que Deus não é infinito. O primeiro argumento adverso que São Tomás traz à baila é o argumento da imperfeição do que é infinito. De fato, embora hoje a palavra “infinito” tenha uma associação agradável, positiva aos nossos ouvidos, nem sempre foi assim. O infinito, em muitos casos, e em muitas escolas de pensamento, foi associado com o “indefinido”. Assim, trazia uma conotação muito negativa de imperfeição, de obscuridade, de incompletude, de incognoscibilidade mesmo. O infinito, para os antigos filósofos gregos, por exemplo, era aquilo que ainda não tinha determinações, e que portanto era vago, incompleto, indeterminado. Para que o infinito ganhasse consistência, era preciso que fosse especificado, limitado, determinado. Fora disso, o infinito era considerado como parcial, material e ininteligível. É por isto que o ser de Parmênides não era, a rigor, infinito, mas esférico: esférico porque perfeito, determinado, inteligível. Assim, neste argumento, trabalha-se com este conceito de infinito como indeterminado e imperfeito, ou seja, com a noção de infinito como material do qual todas as coisas são feitas, ou seja, algo que ganhará especificação ao se constituir como parte de alguma outra coisa, para negar que Deus seja infinito. Se o infinito é a culminação da incompletude e da indeterminação, e se Deus é perfeito, este argumento nega que ele possa ser infinito.

O segundo argumento lida com a noção quantitativa de infinito. Como já havíamos dito acima, a nossa inteligência, muito vinculada à sensibilidade, tende a imaginar a infinitude como uma característica relacionada à quantidade: finito é aquilo que tem uma quantidade determinada, e infinito seria aquilo que não possui limites quanto à sua quantidade. Ora, a quantidade é um dos acidentes, relacionados à dimensão das coisas materiais. Deus não tem acidentes, e não tem corpo, porque é simples – como já foi debatido na questão 3. Logo, este argumento conclui que não se pode atribuir a Deus a noção de infinitude.

O terceiro argumento adverso diz respeito à abrangência formal do infinito: começa com um argumento material e quantitativo, o argumento do lugar. Segundo este argumento, tudo o que está aqui e não está ali não pode ser considerado infinito, porque não ocupa todos os lugares. Logo o que é uma coisa e não é outra também não pode ser considerado infinito, porque não realiza, não abrange todas as existências. O argumento então afirma: Deus não é pedra, nem é madeira. Logo, Deus não é todas as coisas, e dentre todas as criaturas, nenhuma é Deus. Logo Deus não pode ser substancialmente infinito, porque não abrange em si todas as coisas. É um argumento à moda do filósofo Baruch Espinosa, para quem todas as coisas e todas as dimensões nada mais seriam do que atributos de Deus. Vale dizer, para este argumento Deus só seria infinito se tudo o que existe o compusesse de algum modo, e ele compusesse de algum modo tudo o que existe. Ficaríamos então com a seguinte disjuntiva: ou aceitamos o panteísmo ou negamos que Deus seja infinito.

Como argumento sed contra, São Tomás cita Damasceno: “Deus é infinito, eterno e inabarcável [incircumscriptibilis]”.

Agora, São Tomás começará sua resposta sintetizadora. É interessante perceber que ele não irá propriamente negar os argumentos iniciais, porque ele concorda plenamente que, se podemos atribuir a característica da infinitude a Deus, não será do modo que as objeções iniciais criticaram. Certamente, quando Damasceno fala da infinitude de Deus, não está usando o termo no sentido que os argumentos objetores criticam.

São Tomás nos explica, aqui, que os filósofos gregos antigos (ele trata, sem dar este nome, dos chamados pré-socráticos) empreenderam a busca do chamado “primeiro princípio” do cosmos, ou seja, daquilo que explicava, que compunha todas as coisas que existem. Vamos lembrar nossas lições escolares de filosofia: o filósofo Tales de Mileto dizia que a água era o primeiro princípio da natureza, enquanto Anaximandro dizia que este primeiro princípio era indeterminado, o “apeiron”. Anaxímenes declarava que o ar era a “arché”, ou seja, o primeiro e fundamental princípio de tudo, enquanto Heráclito de Éfeso atribuía esta qualidade ao fogo. Podemos citar outros pensadores, como Anaxágoras e suas “homeomerias”, ou Empédocles e seus “quatro elementos”, o fogo, o ar, a água e a terra. Em qualquer destes casos, a concepção deles é que tais elementos arquétipos existiam de modo ilimitado, e portanto infinito, porque dão suporte a todas as coisas que vemos. Ou seja, partindo de um primeiro princípio de natureza material, compreenderam-no como um corpo infinito e indeterminado, que formará, por especificação, todas as coisas que existem.

Então São Tomás nos lembra que “infinito” é dito daquilo que não tem limite. Ora, a matéria está sempre delimitada pela forma, e a forma, pela matéria. De fato, se lembrarmos do conceito filosófico de matéria-prima, recordaremos que ela é definida exatamente pela pura potencialidade: a matéria-prima é algo essencialmente indefinido, que está em absoluta potência para ser qualquer coisa. Neste sentido, a matéria-prima pode ser dita infinita no sentido de sua indeterminação absoluta. Ela é a absoluta falta de inteligibilidade, a absoluta falta de determinação. Ela se determina quando recebe em si uma forma, e passa a constituir um ente.

A forma, por outro lado, se é encontrada numa coisa existente, está determinada por uma certa quantidade de matéria (que os escolásticos chamavam de materia signata) a ser esta coisa aqui, e não aquelas outras tantas coisas que a forma pode compor. Neste sentido, uma forma sem matéria é perfeitamente inteligível, definida, universal e determinada, e não está contida por nenhuma coisa particular. Falta-lhe apenas a perfeição de existir.

Por isto, pode-se dizer que, para a matéria, receber uma forma é ganhar perfeição, mas, de certo modo, para uma forma, ser recebida na matéria é uma espécie de contração: ela perde seu caráter universal e torna-se particular.

São Tomás então nos explica que a forma não contraída pela matéria tem uma perfeição em certa medida, a perfeição inesgotável da universalidade. Por isto, se concebêssemos uma pura forma que existisse por si mesma, que tivesse na sua própria essência a razão de existir, sem jamais ser contraída ou particularizada por matéria – ou seja, sem jamais ser contido em alguma coisa, mas existindo por si, teríamos a perfeição da infinitude. Este universal existente, este ser por si concreto, atual e infinito em sua forma inabarcável é Deus. E com isto São Tomás dá por respondido ao primeiro argumento, aquele que confundia infinitude com indeterminação. Não é no sentido da indeterminação material que estamos predicando a infinitude de Deus, mas no sentido radicalmente outro, da determinação formal universal, existente e inabarcável.

O segundo argumento objetor é aquele que relaciona infinitude com a quantidade ilimitada. São Tomás simplesmente concorda que não se pode atribuir a infinitude da quantidade ilimitada a Deus; E ele raciocina assim: para que pensemos numa quantidade ilimitada, temos que conceber uma matéria sem nenhuma figura que a contenha, ou seja, desprovida de qualquer forma. O infinito quantitativo, portanto, é sempre puramente material, e portanto inadequado a Deus.

Por fim, o terceiro argumento é aquele que faz uma analogia com o infinito material, que ocupa todos os espaços, para afirmar que o infinito existencial deveria abranger todos os seres. Como nós nos lembramos, este argumento nega a possibilidade de atribuir-se a infinitude a Deus porque alega que um ser infinito deveria abranger em si todos os seres; mas como Deus não é pedra nem madeira, logo ele não abrange todos os modos de ser e de existir, e então não pode ser chamado “infinito”. Este argumento, como vimos, nos coloca num dilema entre afirmar a infinitude de Deus e proclamar o panteísmo, de um lado, ou preservar a transcendência de Deus e negar-lhe a infinitude, por outro.

São Tomás nos ensina, então, que este é um falso dilema. Exatamente por ser uma forma existente por sua própria essência, Deus se distingue de tudo aquilo cuja existência é acidental, limitada e externa à própria essência – como são as criaturas. A infinitude de Deus é a infinitude da asseidade e da completude: portanto, não cabem nele o transitório, o incompleto, o indeterminado e o imperfeito que são próprios da criaturalidade. Exatamente por ser completo e absoluto é que Deus é infinito. E se distingue perfeitamente de tudo que não o é. E São Tomás nos dará um exemplo esclarecedor, para que possamos conceber o que é uma existência universal subsistente: ele pede que nós imaginemos uma “brancura universal concreta subsistente”: seria próprio de tal brancura não existir em outra coisa senão em si mesma. Então o que a diferenciaria de uma brancura concreta, limitada, parcial e imperfeita seria que esta brancura concreta sempre existiria em alguma outra coisa, como num sujeito, e estaria limitada a ele. Assim é o existir de Deus: concretamente universal, estranho a toda contingência. É infinito porque tudo o que é finito lhe é estranho. Isto evita, por um lado, todo o risco do panteísmo e, por outro, preserva completamente a transcendência divina.